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Mostrando postagens com o rótulo Opinião

DESFAZENDO EQUÍVOCOS SOBRE O ARISUN DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Arisun, Eresun, Erisun são palavras que nomeiam o ritual fúnebre no Batuque. Semelhante ao Axexê no Candomblé Ketu, Sirrum no Candomblé Jeje, Mukondo no Candomblé Angola, Tambor de Choro no Tambor de Mina do Maranhão, o objetivo deste ritual é o mesmo. É possível que o termo derive de Arosun - ara (corpo) + osun (sono) - significando "corpo que dorme", pois o "sono é primo da morte". Mas também pode derivar de Aisun , vigília noturna sem dormir, prática comum nos ritos funerários do passado. Tenho lido nas redes sociais as pessoas dizendo que o Arisun é uma homenagem, falando de merecimento para certas pessoas: "fulano merecia que lhe fizessem o ritual"; "foram feitas grandes homenagens ao falecido". Não pode haver equívoco maior que essas interpretações. O Arisun não é apenas uma homenagem ao morto. É um ritual de encaminhamento da alma do morto para o Orun com a intenção de que se ancestralize, ou seja, de que sua alma enc...

O BEM, O MAL E O JUSTO NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFFRICANA

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Por Hendrix Silveira*  Perguntaram para uma filha de santo de nossa comunidade se nós fazemos o mal. Curiosamente esta é uma de três das constantes perguntas que me fazem em minhas palestras.¹ Na minha tese de doutorado - que em breve se tornará livro ( Afroteologia: teologia das tradições de matriz africana ) - falo sobre a questão do mal na afroteologia. Por isso não tratarei das questões mais complexas, filosóficas e teológicas. Quero falar sobre nossas práticas cotidianas com base nessas questões. Já foi amplamente divulgado, por mim mesmo e outros pensadores insiders de nossa tradição, que as tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé não são tradições maniqueístas. Essas tradições se pautam pela existência do bem E do mal em tudo. Seja nos objetos inanimados, nos minerais, nos animais, nas pessoas e até mesmo nos Orixás, o bem o e mal são forças dicotômicas, mas não necessariamente antagônicas. Algumas vezes até dialogam entre si. Então a resposta à pergunta ...

O USO DA ROUPA BRANCA NO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Tenho percebido em serões e em festas de Batuque que há um certo desconhecimento a respeito das roupas dessa tradição, sobretudo no tocante a sua cor. A cor nas tradições africanas não são meramente parte de questões estética, mas também e principalmente de FUNDAMENTO. Mas creio que antes de falar sobre isso, preciso explicar o que é fundamento. Isto sempre foi motivo de indagações: qual a diferença entre fundamento, costume e tradição? Embora as palavras pareçam guardar um mesmo sentido - e é justamente isso que causa tanta confusão - não possuem a mesma função no tocante as tradições de matriz africana. As tradições são inventadas e, segundo Hobsbawm (2012), é "um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado." Geralmen...

SOBRE LUGAR DE FALA

Por Hendrix Silveira* Já faz algum tempo que me pergunto: qual é o meu lugar de fala? A conclusão a que cheguei estudando sobre o tema é a de que todo mundo fala de um lugar. Me valendo das categorias desenvolvidas por Juana Elbein dos Santos, penso que este lugar pode ser desde dentro ou desde fora. O desde dentro requer experiência de vida. O desde fora requer estudos profundos. O desde fora deve dialogar com o desde dentro para se ter uma apreensão total do tema. O desde dentro deve dialogar com o desde fora  para racionalizar sua experiência. Tenho desconfiado da acusação de que há um conflito "emoção versus razão" apontado pelos que interpretam Senghor dessa forma. Acredito realmente, com base na cosmopercepção africana de Oyewumi, que o pensamento afrocentrado desenvolvido por Asante, se vale de todos os sentidos humanos, incluído aí a razão, em igual proporção. Com base em Platão tenho dito que opinião não é e nunca será conhecimento. O conhecimento vem do estudo profu...

Evolução do Exu (e Pombagira)

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Se tem uma palavra que eu odeio é essa: evolução . A odeio porque é usada de forma indiscriminada para falar de mudanças, se supõe, para algo melhor. A culpa é de Darwin... Charles Darwin teoriza para nós que organismos melhores adaptados ao meio em que vivem tendem a se perpetuar, enquanto que outros sucumbem, extinguindo-se. Muitas vezes uma mutação na estrutura genética de uma espécie faz surgir outra que melhor se adapta às condições ambientais. Na esteira de seu sucesso teórico surgiram outras teorias como a da superioridade de certos grupos humanos sobre outros (darwinismo social), classificação das raças humanas (racismo) e, claro, a evolução espiritual kardecista. Todos aplicaram a teoria de Darwin ao seu próprio campo idiossincrático, com a intenção narcisista de se autoproclamar modelo para os demais, que ainda não atingiram seu "grau de evolução", logo, são inferiores. Mas a teoria de Darwin fala sobre a evolução das espécies e não da de seres da mesma espécie, de ...

Drauzio e o abraço condenado

Não assisti, mas as redes sociais ficaram em polvorosa desde o último domingo onde, no Fantástico, o médico Dráuzio Varella abraça uma transsexual chamada Suzy. O problema foi que o que veio à tona após este ato de humanidade é o motivo pelo qual Suzy está presa. Logo, muitas pessoas antes comovidas com o ato, agora o condenam. Outras emissoras de televisão aproveitaram, em seus programas sensacionalistas, para atiçar a disputa por audiência e até aquele que ocupa o cargo máximo do executivo nacional abriu mão de apresentar um plano econômico que faça frente à queda vertiginosa da Bolsa de Valores brasileira por conta do preço do petróleo, ou sobre a crescente desvalorização do real frente ao dólar, a falta de investimento público em vários setores, a alta taxa de desemprego que aflige 11,9 milhões de brasileiros, ou mesmo o pífio crescimento do PIB, de 1,1%, em 2019; preferiu eleger o tal abraço como o problema nacional. Mas por que o abraço do Dr. Dráuzio incomodou tanto? T...

Sobre a atual conjuntura

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Tenho recebido muitos vídeos e mensagens tanto pelo Facebook , quanto pelo Whatsapp de pessoas desavisadas que compartilham vídeos e áudios de gente mal caráter que usa a atual crise econômica, política e sobretudo a greve dos caminhoneiros como pretexto para, manipulando o povo, exigirem uma intervenção militar no país. Já vi de tudo: - Mensagem pedindo para apoiar a greve por um certo período de dias, pois assim legitimaria a intervenção militar; - Suposto general manipulando as pessoas a acreditarem que, se o poder emana do povo, o povo pode dar poder aos militares para subirem ao poder; - Gente em Dom Pedrito dizendo que é para tirar as faixas de greve das manifestações e substituí-las por intervenção já! Maior manipulação que está não há - Até uma propaganda pró militares no poder altamente mentirosa e manipuladora. Mapa conceitual criado por Hendrix Silveira Não é possível fazer uma análise dessa conjuntura toda sem levar em conta aspectos de nossa cultura. ...

São Jorge e Ògún: sincretismo ou hibridismo

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Quando Diocleciano assumiu o poder no Império Romano proclamou uma série de reformas com a intenção de reorganizar o Império que estava já decadente desde o domínio pela dinastia dos Severos. Para garantir a eficiência das reformas era necessário um Estado coeso e forte representado na doutrina que pregava a origem divina dos césares romanos. Imagem coletada da internet O cristianismo foi levado à Roma pelo apóstolo Pedro na década de 50 d.C. Esta então seita do judaísmo pregava que Jesus de Nazaré era o messias e salvador do povo judeu. Como condenava a idolatria e defendiam a existência de um único Deus, os cristãos se negavam a adorar a figura do imperador como uma divindade, pré condição imperial para a liberação de práticas religiosas não romanas em seu território. Com isso os embates entre cristãos e romanos resultaram numa perseguição que concluía na morte de milhares de devotos. No século III muitas famílias de cristãos já seguiam essa ainda seita judaica há poucos ger...

Caridade x Assistencialismo x EconomiaComunitária

Li um pequeno texto num blog que tentava discutir a diferença entre caridade e assistencialismo. Contudo o argumento do texto é muito senso comum. Caridade e Assistencialismo são exatamente a mesma coisa. A diferença está em quem o promove. A caridade é sempre promovida por indivíduos, enquanto que o assistencialismo é promovido por instituições e órgãos públicos ou privados, inclusive instituições religiosas. A palavra "caridade" vem do latim "cáritas" que significa "favor" ou "ajuda". Tanto a caridade quanto o assistencialismo não contribuem para a promoção de igualdade social, pelo contrário, mantém as desigualdades. De fato as desigualdades são até necessárias. É necessário ter pobres para que se faça a caridade e se promova o assistencialismo. Estas ações não alteram o status quo. Geralmente as pessoas e entidades que promovem a caridade e o assistencialismo doam apenas o excedente de seus lucros justamente para pacificar as massas ...

Batuque e Carnaval

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Às vezes me aborreço com alguns batuqueiros... Está tendo um polêmica porque sacerdotes e sacerdotisas do Batuque realizaram um ritual simbólico de lavagem do Porto Seco antes dos desfiles de carnaval que, por ordem do prefeito Marchezan do PSDB, foram proibidos de ser realizados na data tradicional talvez esperando uma desmobilização dos carnavalescos, que não houve. Acontece que horas antes do início dos desfiles os bombeiros interditaram o sambódromo (porque é isso o que efetivamente é, ainda que tenha um nome mais abrangente) proibindo os desfiles alegando falta de segurança. Horas antes do desfile! É mais do que óbvio que se trata de uma sabotagem da prefeitura à festa dos pobres e pretos. Quem não vê isso é cego ou age de má fé. Ora, pois não é que há batuqueiros dizendo que isso é punição dos Orixás porque foi feito o rito simbólico? Sinceramente, são mentes colonializadas que não sabem nada de cultura africana e regurgitam achismos cristianocentrados como se fossem dou...

Vigiar e Punir

Desde a questão do ladrão da hornet branca que foi baleado pelo policial que não lhe deu voz de prisão, mas sim agiu como um xerife ao estilo do velho oeste estadunidense e mais recentemente o caso dos animais roubados de um laboratório, tenho lido no facebook uma onda de pessoas defendendo a ação pistoleira do policial e propostas de que testes laboratoriais sejam feitos em seres humanos ao invés de animais. Ainda sugerem que seja feito em pedófilos e assassinos e há aqueles que incluem políticos corruptos. Isso me fez lembrar do seriado televisivo DEXTER , que narra as ações de Dexter Morgan que misturam (ou confundem) a ideia de um serial killer com um justiceiro, pois Dexter é um psicopata que teve sua compulsão por assassinatos direcionada exclusivamente a criminosos de todo o tipo.  O cristianismo, como agente construtor da cultura ocidental, pressupõe elementos de justiça oriundos do direito romano e que estão amplamente vinculados a punição. Assim o punir é entendido ...

Religião afro atacada em Pelotas

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Não tem fim os ataques torpes a religião de matriz africana. A prova de que jornalistas escrevem o que bem entendem sem se preocupar que suas opiniões gerem massa crítica vilipendiadora e inconstitucional esta bem representada em duas postagens do jornalista Rubens Filho, no blog Amigos de Pelotas . A obliquidade cultural do Sr. Rubens Filho, no tocante às religiões de tradição africana, fica evidente já no título grosseiro do texto e que segue no próprio. O autor critica a publicação da notícia como algo "normal". Parece que o nobre jornalista discorda dessa normalidade. Talvez, para ele, seja anormal rituais religiosos que incluem a imolação de animais. Talvez normal seja a imolação apenas nos templos do capitalismo onde são "oferecidas" ao deus Lucro meio milhão de animais por dia para uma população ávida por produtos de couro e "Macs-alguma-coisa". Talvez normal seja comprar carnes num açougue e imaginar que elas brotaram do solo. Talvez seja nor...

Record ataca religiões afro, novamente

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Termo cunhado pelo Teólogo Afro Jayro Pereira de Jesus, Afrotheofobia se refere a discursos e práticas de todo o tipo que discriminem e preconceituam as religiões de matriz africana e afro-brasileiras. As religiões afro foram perseguidas ao longo da história humana devido a uma série de fatores, todos ideológicos. O principal perseguidor, desde sempre, foi o cristianismo tanto direta quanto indiretamente. O que motiva essa perseguição, penso, é um dos elementos mais importantes dessa religião: o conceito de bem e mal, ou melhor, o seu maniqueísmo. Para os cristãos o bem e o mal são forças distintas que se originam em “seres” distintos. Assim o “bem” tem origem em Javé, enquanto o “mal” tem origem no diabo. Estas ideias teológicas possuem fundamentação em Agostinho de  Hipona, que publicou em 426 o seu “Cidade de Deus”, onde descreve o mundo dividido entre o dos homens (o mundo terreno, sem deus e por consequência à mercê do diabo) e o dos céus (o mundo espiritual, livre do mal e ...