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Mostrando postagens com o rótulo Filosofia

As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?

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Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica , que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais , disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro. No universo yorùbá, força não é poder de dominação , mas capacidade de manter o equilíbrio da existência . Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá , assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi . São instâncias distintas de atuação do àṣẹ , inscritas em campos simbólicos próprios , mas mutuamente dependentes . Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial , ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica : diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre , sem...

O LUTO NO BATUQUE

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 Por Hendrix Silveira* Muitas pessoas têm me perguntado sobre o luto, o tempo, as condições, o que pode e o que não pode ser feito, quem determina ou coisas desse tipo. As pessoas me perguntam não porque sou o "sabe-tudo" ou qualquer coisa neste sentido. As pessoas me perguntam porque confiam na minha avaliação já que possuo vivência religiosa desde o nascimento e estudo reflexivo sobre todos os temas de nossa fé. Aprendi muito com meu babalorixá (que tem mais de 40 anos de religião), com meu padrinho (que é de outra nação e igualmente tem mais de 40 anos de religião), com minha avó (que morreu com mais de 60 anos de religião) entre outros babás e iyás que tive a oportunidade de escutar com atenção e do qual, humildemente, apresento aqui as respostas mais comuns. O que é o luto? O luto é um período em que o batuqueiro deve ficar de resguardo de obrigações para os Orixás por períodos variados. Existem dois tipos de luto: o luto ritual e o luto moral. O luto ritual é aquele obr...

DESFAZENDO EQUÍVOCOS SOBRE O ARISUN DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Arisun, Eresun, Erisun são palavras que nomeiam o ritual fúnebre no Batuque. Semelhante ao Axexê no Candomblé Ketu, Sirrum no Candomblé Jeje, Mukondo no Candomblé Angola, Tambor de Choro no Tambor de Mina do Maranhão, o objetivo deste ritual é o mesmo. É possível que o termo derive de Arosun - ara (corpo) + osun (sono) - significando "corpo que dorme", pois o "sono é primo da morte". Mas também pode derivar de Aisun , vigília noturna sem dormir, prática comum nos ritos funerários do passado. Tenho lido nas redes sociais as pessoas dizendo que o Arisun é uma homenagem, falando de merecimento para certas pessoas: "fulano merecia que lhe fizessem o ritual"; "foram feitas grandes homenagens ao falecido". Não pode haver equívoco maior que essas interpretações. O Arisun não é apenas uma homenagem ao morto. É um ritual de encaminhamento da alma do morto para o Orun com a intenção de que se ancestralize, ou seja, de que sua alma enc...

O BEM, O MAL E O JUSTO NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFFRICANA

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Por Hendrix Silveira*  Perguntaram para uma filha de santo de nossa comunidade se nós fazemos o mal. Curiosamente esta é uma de três das constantes perguntas que me fazem em minhas palestras.¹ Na minha tese de doutorado - que em breve se tornará livro ( Afroteologia: teologia das tradições de matriz africana ) - falo sobre a questão do mal na afroteologia. Por isso não tratarei das questões mais complexas, filosóficas e teológicas. Quero falar sobre nossas práticas cotidianas com base nessas questões. Já foi amplamente divulgado, por mim mesmo e outros pensadores insiders de nossa tradição, que as tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé não são tradições maniqueístas. Essas tradições se pautam pela existência do bem E do mal em tudo. Seja nos objetos inanimados, nos minerais, nos animais, nas pessoas e até mesmo nos Orixás, o bem o e mal são forças dicotômicas, mas não necessariamente antagônicas. Algumas vezes até dialogam entre si. Então a resposta à pergunta ...

A RODA DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Dia desses eu e minha esposa, Patricia de Oyá, estávamos assistindo no Youtube um vídeo de uma festa à divindade Oyá no Nagô, uma das tradições de matriz africana que se estrutura em Pernambuco,¹ e como nos parece vimos muitas semelhanças com o Batuque. Exceto num ponto. Todas as tradições de matriz africana possuem um momento litúrgico em que se dança em roda, mas percebemos que no Batuque ela tem uma importância muito maior que em outras tradições. No Candomblé há uma separação entre o momento em que os iniciados dançam, a roda, e o momento em que os Orixás manifestados dançam. Nesta sequência a roda é desfeita para dar lugar aos Orixás dançarem. No Tambor de Mina do Maranhão também há roda, mas esta não se desfaz com a manifestação dos Orixás. O mesmo acontece no Nagô e no Xambá de Pernambuco e também no Batuque do RS. Mas como disse, ao observarmos a roda no Nagô pelo Youtube percebemos que ela se desfaz muito facilmente, fica com "buracos", seguidam...

O USO DA ROUPA BRANCA NO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Tenho percebido em serões e em festas de Batuque que há um certo desconhecimento a respeito das roupas dessa tradição, sobretudo no tocante a sua cor. A cor nas tradições africanas não são meramente parte de questões estética, mas também e principalmente de FUNDAMENTO. Mas creio que antes de falar sobre isso, preciso explicar o que é fundamento. Isto sempre foi motivo de indagações: qual a diferença entre fundamento, costume e tradição? Embora as palavras pareçam guardar um mesmo sentido - e é justamente isso que causa tanta confusão - não possuem a mesma função no tocante as tradições de matriz africana. As tradições são inventadas e, segundo Hobsbawm (2012), é "um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado." Geralmen...

SOBRE LUGAR DE FALA

Por Hendrix Silveira* Já faz algum tempo que me pergunto: qual é o meu lugar de fala? A conclusão a que cheguei estudando sobre o tema é a de que todo mundo fala de um lugar. Me valendo das categorias desenvolvidas por Juana Elbein dos Santos, penso que este lugar pode ser desde dentro ou desde fora. O desde dentro requer experiência de vida. O desde fora requer estudos profundos. O desde fora deve dialogar com o desde dentro para se ter uma apreensão total do tema. O desde dentro deve dialogar com o desde fora  para racionalizar sua experiência. Tenho desconfiado da acusação de que há um conflito "emoção versus razão" apontado pelos que interpretam Senghor dessa forma. Acredito realmente, com base na cosmopercepção africana de Oyewumi, que o pensamento afrocentrado desenvolvido por Asante, se vale de todos os sentidos humanos, incluído aí a razão, em igual proporção. Com base em Platão tenho dito que opinião não é e nunca será conhecimento. O conhecimento vem do estudo profu...

Tradições de matriz africana e sexo

Este artigo é resultado de nossa pesquisa no doutorado que apresenta questões pouco tratadas na literatura acadêmica a respeito do sexo nas tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé. Oferecemos uma análise afroteológica do ritual de Borí no Batuque; analisamos certos aspectos dos Òrìṣà e ofereceremos uma interpretação afroteológica ao tema; trataremos das relações interpessoais como atos sexuais e relações românticas entre os vivenciadores e tratamos brevemente de elementos da sexualidade e identidade de gênero. Como método utilizamos a exunêutica. Leia o artigo completo clicando aqui .  Ao citar este texto use a seguinte referência: SILVEIRA, Hendrix. Tradições de matriz africana e sexo: reflexões afroteológicas. Revista Periódicus , Salvador, v. 1, n. 14, p. 73-90, nov. 2020. Semestral. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/37289. Acesso em: ...

Drauzio e o abraço condenado

Não assisti, mas as redes sociais ficaram em polvorosa desde o último domingo onde, no Fantástico, o médico Dráuzio Varella abraça uma transsexual chamada Suzy. O problema foi que o que veio à tona após este ato de humanidade é o motivo pelo qual Suzy está presa. Logo, muitas pessoas antes comovidas com o ato, agora o condenam. Outras emissoras de televisão aproveitaram, em seus programas sensacionalistas, para atiçar a disputa por audiência e até aquele que ocupa o cargo máximo do executivo nacional abriu mão de apresentar um plano econômico que faça frente à queda vertiginosa da Bolsa de Valores brasileira por conta do preço do petróleo, ou sobre a crescente desvalorização do real frente ao dólar, a falta de investimento público em vários setores, a alta taxa de desemprego que aflige 11,9 milhões de brasileiros, ou mesmo o pífio crescimento do PIB, de 1,1%, em 2019; preferiu eleger o tal abraço como o problema nacional. Mas por que o abraço do Dr. Dráuzio incomodou tanto? T...

Borí: nascimento e renascimento

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Igbá Orí africano O Borí é um rito de renascimento. Para as tradições de matriz africana o ser humano nasce duas vezes: o parto físico, advindo do ventre de sua mãe e o nascimento espiritual ritualizado no Borí . É o rito mais importante para essa tradição, pois quem a realiza estabelece um vínculo com o seu Òrìṣà garantindo um relacionamento mais profundo. A feitura de Borí está intimamente relacionada à noção ontológica de humanidade (ser físico e ser espiritual). Vários autores como Beniste, Verger,  Bastide e outros, têm dito que o termo significa “alimentar à cabeça”  ( ẹbọ [ébó = oferenda] + orí [ôrí = cabeça]), numa alusão ao fato de estarmos alimentando a nossa cabeça mítica, ou seja, fortalecendo-a. Contudo, caso fosse este o seu significado real, a pronuncia seria “bórí” (escrita bọrí ), há até aqueles que, influenciados por essa concepção, têm escrito e divulgado o termo “ ẹbọrí ”. Entrementes, em todo o Brasil pronunciamos “bôrí” ( Borí ), o que nos leva a cre...

Ọdún Mẹ́dógún Òrìṣà Òṣàálá

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Em meu discurso na abertura da festa pública que celebrou os 15 anos de assentamento do Òrìṣà ao qual fui consagrado, consequentemente também meus 15 anos de sacerdócio e 9 anos à frente da Comunidade Tradicional de Matriz Africana Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre , enfatizei a importância do senso de coletividade e do espírito comunitário que são o cerne das tradições de matriz africana. De forma geral - e por conta da sobrevivência desses espaços no país - os terreiros têm se oferecido como oportunizadores sociais ao usar seus saberes tradicionais na movimentação das forças em favor daqueles que procuram saúde física, material e emocional. Cada vez mais escassos são aqueles que procuram os terreiros para sanar sua espiritualidade e muito disso se deve as pessoas não quererem ter compromissos, ou quando acontece buscam apenas benesses próprias. O espírito das tradições de matriz africana é UBUNTU e ubuntu é "o que eu posso fazer pela coletividade do terreiro" e não "o que o ...

Ancestralidade

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Poesia de Birago Diop Ouça no vento o soluço do arbusto: é o sopro dos antepassados... Nossos mortos não partiram. Estão na densa sombra. Estão na árvore que agita, na madeira que geme, estão na água que flui, na água que dorme, estão na cabana, na multidão; os mortos não morreram... Nossos mortos não partiram: estão no ventre da mulher, no vagido do bebê e no tronco que queima. Os mortos não estão sob a terra: estão no fogo que se apaga, nas plantas que choram, na rocha que geme, estão na floresta, estão na casa, nossos mortos não morreram.

Os terreiros de Batuque no RS*

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Terreira é um termo genérico para os templos da tradição de matriz africana no Rio Grande do Sul, mas devido à influência da literatura sobre o candomblé o termo “terreiro” também tem sido empregado. Para Juana Elbein dos Santos, o terreiro é um espaço de propagação de valores civilizatórios africanos, são verdadeiras “mini Áfricas”: Assim, o século XIX viu transportar, implantar e reformular no Brasil os elementos de um complexo cultural africano que se expressa atualmente através de associações bem organizadas, ẹgbẹ́, onde se mantém e se renova a adoração das entidades sobrenaturais, os òrìṣà, e a dos ancestrais ilustres, os égun. (SANTOS, 2002, p. 32) Outra forma muito comum de chamar este espaço é “casa de religião”. Este último desperta curiosidade, pois, geralmente, os terreiros também são as moradias do/a sacerdote/sacerdotisa. Este termo talvez esteja alicerçado na compreensão de que é um lugar onde se pratica a religião, os ritos específicos e internos, pois para essa...

Pensando Afroteologicamente as religiões de matriz africana

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O estudo teológico nos incita a pensar a nossa espiritualidade de forma lúcida e inteligente. As várias Teologias que se apresentam nos dias de hoje nos mostram definitivamente que há a possibilidade de se pensar teologicamente de acordo com os recortes em que as estruturas sociais se apresentam. Já não é mais concebível se pensar que a Teologia é de exclusividade do Cristianismo, outras tradições religiosas vêm despontando com relativa isonomia diante desta área do conhecimento que há dois milênios vem sendo desenvolvida academicamente. Agora é a vez das Tradições de Matriz Africana como o Batuque e o Candomblé também refletirem sobre sua própria espiritualidade. Este artigo apresenta possibilidades de construção de uma Afroteologia a partir de elementos epistemológicos negro-africanos, mas instrumentalizados por conceitos da Teologia hermeneutizadas para essa realidade. Leia o artigo completo clicando AQUI : Ao citar este texto use a seguinte referência: SILVEIRA, H...