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Hoje, 23 de abril, é dia de saudar Ogum

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Ogum é o senhor do ferro, da tecnologia, dos caminhos abertos com luta e coragem. É ele quem vai à frente, que enfrenta o que precisa ser enfrentado, que transforma obstáculo em passagem. Na cosmopercepção africana, Ogum não é apenas guerra, é também trabalho, disciplina, estratégia e construção de futuro . Mas hoje também é dia de reconhecer como essa força se manifesta no Brasil. Na Umbanda, Ogum caminha através dos seus caboclos: Ogum Sete Ondas (um dos caboclos que me acompanha), Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda, Ogum de Lei, Ogum Rompe Mato... E, para mim, essa não é apenas uma referência simbólica, pois ecoa forte na minha ancestralidade. Minha tia-bisavó, Mãe Augusta que era Cacique de Umbanda, teve no Caboclo Rompe Mato o seu guia espiritual. Foi sob essa força que fundou seu terreiro na Lomba da Tamanca, em Porto Alegre, nos anos 1950, e conduziu sua caminhada, abrindo caminhos para tantos outros que vieram depois. Rompe Mato é uma entidade espiritual compreendida como um c...

Precisamos resgatar a Teologia da Libertação para combater a Teologia do Domínio

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Vivemos um tempo de regressão civilizatória travestida de fé . O que está em curso no Brasil e em outras partes do mundo não é apenas uma disputa teológica, mas um projeto político-religioso de poder . A chamada Teologia do Domínio atua como matriz ideológica desse processo, instrumentalizando o discurso cristão para legitimar autoritarismo, exclusão e controle social. Trata-se de um projeto que busca reencenar a Idade Média , não em seus símbolos externos, mas em sua lógica profunda: a sacralização da autoridade, a criminalização da diferença, a submissão das consciências e a perseguição de todo pensamento crítico. Nessa lógica, Deus deixa de ser princípio ético e libertador para se tornar argumento de coerção . É nesse cenário que a retomada da Teologia da Libertação se torna urgente. A Teologia da Libertação nasce do chão da história, da experiência concreta dos pobres, das populações negras, indígenas, periféricas, das mulheres e dos corpos dissidentes. Ela parte de uma pergunta ...

As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?

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Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica , que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais , disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro. No universo yorùbá, força não é poder de dominação , mas capacidade de manter o equilíbrio da existência . Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá , assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi . São instâncias distintas de atuação do àṣẹ , inscritas em campos simbólicos próprios , mas mutuamente dependentes . Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial , ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica : diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre , sem...

“Obrigação” no Batuque: Do Vínculo Linguístico ao Compromisso Existencial

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fiquei motivado a escrever este texto ao ler o artigo “A origem curiosa de ‘obrigado’: o que a palavra realmente quer dizer” , de  Larissa Carvalho e publicado no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2025, que traça a trajetória da palavra na língua portuguesa a partir de sua raiz no latim destacando a ideia original de comprometimento e vínculo moral entre as pessoas. No uso cotidiano em português, obrigado e suas variações de gênero -  obrigada, obrigados, obrigadas  - sinalizam gratidão, mas qualquer análise etimológica revela que esta forma lexical se originou de uma ideia muito mais densa: a de estar vinculado por um laço de compromisso e retribuição . Etimologicamente, obrigado deriva de obligare , verbo latino que significa “atar”, “ligar” ou “comprometer” - não apenas no sentido de cumprir um dever, mas na noção de constituir um laço com outrem. No português antigo, expressões como “fico obrigado” significavam literalmente assumir um compromisso de recipr...

Quando começou a Umbanda? Antes de Zélio… e também com Zélio.

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A pergunta sobre o início da Umbanda costuma surgir como se existissem apenas duas respostas possíveis: ou ela nasce com Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, ou ela já existia muito antes disso, na longa história das práticas afro-indígenas de cura, transe e relação com o sagrado. Para mim, essas narrativas não são dicotômicas, mas complementares. Uma fala da antiguidade da força; a outra fala da criação de uma forma religiosa organizada. A própria palavra “umbanda” nos leva para tempos que antecedem qualquer data do século XX. Estudos etimológicos mostram que o termo é de origem banto, sobretudo do quimbundo, com sentidos ligados à arte de curar e à ação do sacerdote curador. Em vez de designar uma religião, “umbanda” nomeava uma prática, um ofício, um conjunto de saberes rituais. Essa semântica banto atravessou o Atlântico, aparecendo na documentação colonial associada aos calundus, cultos de cura conduzidos por sacerdotes africanos que trabalhavam com folhas, água, objetos simbólico...

Àmàlà: alimento, memória e espiritualidade

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Uma das formas de servir o Àmàlà na Nigéria Hoje, 30 de setembro , celebramos Ṣàngó , divindade da justiça, do fogo e do trovão. É também o dia de lembrar o alimento que se tornou um de seus maiores símbolos: o àmàlà . Na Nigéria , entre o povo yorùbá, o àmàlà é um prato tradicional e cotidiano. Feito a partir de farinhas como a de inhame (yam), de mandioca (láfún) ou de banana-da-terra verde , ganha consistência elástica após ser misturado com água quente e acompanha sopas ricas em vegetais, quiabo e feijões, assim como carnes de todo tipo. Do ponto de vista nutricional , é um alimento de grande valor: fonte de carboidratos de lenta absorção, fibras que auxiliam na digestão, além de minerais como potássio, fósforo e ferro, e vitaminas do complexo B que fortalecem o corpo. É, portanto, um alimento  que nutre e sustenta - corpo e vida. No Brasil , o àmàlà ganhou novas formas e sentidos, tornando-se uma comida sagrada . No Candomblé , prepara-se com quiabos, cebola, azeite de ...

QUEM É A POMBAGIRA?

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Por Hendrix Silveira* Pombagira: origem, sincretismo e arquétipo feminino O termo Pombagira – também grafado como Pomba Gira, Pomba-Gira ou Pombogira – é resultado de uma corruptela de Mpambu Njila (ou Nzila) , divindade dos caminhos do povo Bakongo, de Angola e do Congo. Trata-se de uma entidade masculina que chegou ao Brasil durante o período da escravidão e foi preservada nos Candomblés de nação Angola/Congo, sobretudo na região do Rio de Janeiro. No contexto da escravidão, a Igreja Católica incentivou o sincretismo entre divindades africanas e santos católicos como estratégia de conversão, repetindo um método já utilizado na Europa medieval. No entanto, o que de fato ocorreu foi um hibridismo cultural (BHABHA, 2013): os santos católicos se associaram aos Orixás, criando novas formas de religiosidade. Com o surgimento da Umbanda no início do século XX, esse hibridismo permaneceu, mas trouxe consigo novos desafios. O primeiro deles foi a figura de Exu . No culto yorubá, Exu é funda...