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Mostrando postagens com o rótulo Religião

Hoje, 23 de abril, é dia de saudar Ogum

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Ogum é o senhor do ferro, da tecnologia, dos caminhos abertos com luta e coragem. É ele quem vai à frente, que enfrenta o que precisa ser enfrentado, que transforma obstáculo em passagem. Na cosmopercepção africana, Ogum não é apenas guerra, é também trabalho, disciplina, estratégia e construção de futuro . Mas hoje também é dia de reconhecer como essa força se manifesta no Brasil. Na Umbanda, Ogum caminha através dos seus caboclos: Ogum Sete Ondas (um dos caboclos que me acompanha), Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda, Ogum de Lei, Ogum Rompe Mato... E, para mim, essa não é apenas uma referência simbólica, pois ecoa forte na minha ancestralidade. Minha tia-bisavó, Mãe Augusta que era Cacique de Umbanda, teve no Caboclo Rompe Mato o seu guia espiritual. Foi sob essa força que fundou seu terreiro na Lomba da Tamanca, em Porto Alegre, nos anos 1950, e conduziu sua caminhada, abrindo caminhos para tantos outros que vieram depois. Rompe Mato é uma entidade espiritual compreendida como um c...

As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?

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Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica , que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais , disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro. No universo yorùbá, força não é poder de dominação , mas capacidade de manter o equilíbrio da existência . Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá , assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi . São instâncias distintas de atuação do àṣẹ , inscritas em campos simbólicos próprios , mas mutuamente dependentes . Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial , ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica : diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre , sem...

“Obrigação” no Batuque: Do Vínculo Linguístico ao Compromisso Existencial

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fiquei motivado a escrever este texto ao ler o artigo “A origem curiosa de ‘obrigado’: o que a palavra realmente quer dizer” , de  Larissa Carvalho e publicado no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2025, que traça a trajetória da palavra na língua portuguesa a partir de sua raiz no latim destacando a ideia original de comprometimento e vínculo moral entre as pessoas. No uso cotidiano em português, obrigado e suas variações de gênero -  obrigada, obrigados, obrigadas  - sinalizam gratidão, mas qualquer análise etimológica revela que esta forma lexical se originou de uma ideia muito mais densa: a de estar vinculado por um laço de compromisso e retribuição . Etimologicamente, obrigado deriva de obligare , verbo latino que significa “atar”, “ligar” ou “comprometer” - não apenas no sentido de cumprir um dever, mas na noção de constituir um laço com outrem. No português antigo, expressões como “fico obrigado” significavam literalmente assumir um compromisso de recipr...

O LUTO NO BATUQUE

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 Por Hendrix Silveira* Muitas pessoas têm me perguntado sobre o luto, o tempo, as condições, o que pode e o que não pode ser feito, quem determina ou coisas desse tipo. As pessoas me perguntam não porque sou o "sabe-tudo" ou qualquer coisa neste sentido. As pessoas me perguntam porque confiam na minha avaliação já que possuo vivência religiosa desde o nascimento e estudo reflexivo sobre todos os temas de nossa fé. Aprendi muito com meu babalorixá (que tem mais de 40 anos de religião), com meu padrinho (que é de outra nação e igualmente tem mais de 40 anos de religião), com minha avó (que morreu com mais de 60 anos de religião) entre outros babás e iyás que tive a oportunidade de escutar com atenção e do qual, humildemente, apresento aqui as respostas mais comuns. O que é o luto? O luto é um período em que o batuqueiro deve ficar de resguardo de obrigações para os Orixás por períodos variados. Existem dois tipos de luto: o luto ritual e o luto moral. O luto ritual é aquele obr...

PÓS-VIDA NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFRICANA

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Por Hendrix Silveira* Numa postagem despretensiosa que fiz no Facebook questionei algumas falas que o povo de terreiro costuma dizer em momento de luto. Ocorre que existe o que chamei de Ancestralogia que é a parte da Afroteologia que estuda o pós-vida em nossa tradição. Ela se equivale à soteriologia cristã e está vinculada à escatologia, ou o nosso destino último. O motivador dessa postagem é o fato de nosso povo ter falas equivocadas por puro desconhecimento sobre o que acontece conosco após a morte. na postagem do Facebook digo quais são essas frases, mas não as explico e suscitado pelos leitores resolvi explicá-las então. a) Chamar pessoas não iniciadas de ancestral apenas porque faleceram - É muito comum em falas políticas, sobretudo dos movimentos negros, usarem a palavra "ancestral" para se referir aos grandes guerreiros da luta antirracista. Os estudos sobre a cosmopercepção africana na filosofia afrocentrada ou afrorreferenciada acabam por gerar a compreensão errône...

DESFAZENDO EQUÍVOCOS SOBRE O ARISUN DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Arisun, Eresun, Erisun são palavras que nomeiam o ritual fúnebre no Batuque. Semelhante ao Axexê no Candomblé Ketu, Sirrum no Candomblé Jeje, Mukondo no Candomblé Angola, Tambor de Choro no Tambor de Mina do Maranhão, o objetivo deste ritual é o mesmo. É possível que o termo derive de Arosun - ara (corpo) + osun (sono) - significando "corpo que dorme", pois o "sono é primo da morte". Mas também pode derivar de Aisun , vigília noturna sem dormir, prática comum nos ritos funerários do passado. Tenho lido nas redes sociais as pessoas dizendo que o Arisun é uma homenagem, falando de merecimento para certas pessoas: "fulano merecia que lhe fizessem o ritual"; "foram feitas grandes homenagens ao falecido". Não pode haver equívoco maior que essas interpretações. O Arisun não é apenas uma homenagem ao morto. É um ritual de encaminhamento da alma do morto para o Orun com a intenção de que se ancestralize, ou seja, de que sua alma enc...

O BEM, O MAL E O JUSTO NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFFRICANA

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Por Hendrix Silveira*  Perguntaram para uma filha de santo de nossa comunidade se nós fazemos o mal. Curiosamente esta é uma de três das constantes perguntas que me fazem em minhas palestras.¹ Na minha tese de doutorado - que em breve se tornará livro ( Afroteologia: teologia das tradições de matriz africana ) - falo sobre a questão do mal na afroteologia. Por isso não tratarei das questões mais complexas, filosóficas e teológicas. Quero falar sobre nossas práticas cotidianas com base nessas questões. Já foi amplamente divulgado, por mim mesmo e outros pensadores insiders de nossa tradição, que as tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé não são tradições maniqueístas. Essas tradições se pautam pela existência do bem E do mal em tudo. Seja nos objetos inanimados, nos minerais, nos animais, nas pessoas e até mesmo nos Orixás, o bem o e mal são forças dicotômicas, mas não necessariamente antagônicas. Algumas vezes até dialogam entre si. Então a resposta à pergunta ...

A RODA DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Dia desses eu e minha esposa, Patricia de Oyá, estávamos assistindo no Youtube um vídeo de uma festa à divindade Oyá no Nagô, uma das tradições de matriz africana que se estrutura em Pernambuco,¹ e como nos parece vimos muitas semelhanças com o Batuque. Exceto num ponto. Todas as tradições de matriz africana possuem um momento litúrgico em que se dança em roda, mas percebemos que no Batuque ela tem uma importância muito maior que em outras tradições. No Candomblé há uma separação entre o momento em que os iniciados dançam, a roda, e o momento em que os Orixás manifestados dançam. Nesta sequência a roda é desfeita para dar lugar aos Orixás dançarem. No Tambor de Mina do Maranhão também há roda, mas esta não se desfaz com a manifestação dos Orixás. O mesmo acontece no Nagô e no Xambá de Pernambuco e também no Batuque do RS. Mas como disse, ao observarmos a roda no Nagô pelo Youtube percebemos que ela se desfaz muito facilmente, fica com "buracos", seguidam...

O USO DA ROUPA BRANCA NO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Tenho percebido em serões e em festas de Batuque que há um certo desconhecimento a respeito das roupas dessa tradição, sobretudo no tocante a sua cor. A cor nas tradições africanas não são meramente parte de questões estética, mas também e principalmente de FUNDAMENTO. Mas creio que antes de falar sobre isso, preciso explicar o que é fundamento. Isto sempre foi motivo de indagações: qual a diferença entre fundamento, costume e tradição? Embora as palavras pareçam guardar um mesmo sentido - e é justamente isso que causa tanta confusão - não possuem a mesma função no tocante as tradições de matriz africana. As tradições são inventadas e, segundo Hobsbawm (2012), é "um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado." Geralmen...

Por que os batuqueiros não comem arroz com galinha?

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por Hendrix Silveira* Uma das coisas mais incompreendidas na tradição do Batuque são os ewó , ou seja, as interdições. Existem muitas interdições que precisam ser respeitadas pelos iniciados. Temos interdições quanto a certas práticas, interdições de certos horários e interdições alimentares. Estas interdições são importantes para a garantia da plenitude da relação com o sagrado de quem vivencia uma tradição de matriz africana. As mais significativas são aquelas que impõem restrições durante o "resguardo", período de abstinências que se segue às obrigações realizadas no processo iniciático. Neste período, para o Batuque, não se pode beber bebidas alcoólicas, fazer sexo e entrar em ambientes que tenham morte e doença como cemitérios, hospitais e presídios. No tocante a nutrição, até mesmo comer algumas frutas específicas ou café preto, por exemplo, podem ser restritos. Estes interditos são específicos para o período de resguardo e visam cobrir um período de cuidados com nossa ...

Evolução do Exu (e Pombagira)

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Se tem uma palavra que eu odeio é essa: evolução . A odeio porque é usada de forma indiscriminada para falar de mudanças, se supõe, para algo melhor. A culpa é de Darwin... Charles Darwin teoriza para nós que organismos melhores adaptados ao meio em que vivem tendem a se perpetuar, enquanto que outros sucumbem, extinguindo-se. Muitas vezes uma mutação na estrutura genética de uma espécie faz surgir outra que melhor se adapta às condições ambientais. Na esteira de seu sucesso teórico surgiram outras teorias como a da superioridade de certos grupos humanos sobre outros (darwinismo social), classificação das raças humanas (racismo) e, claro, a evolução espiritual kardecista. Todos aplicaram a teoria de Darwin ao seu próprio campo idiossincrático, com a intenção narcisista de se autoproclamar modelo para os demais, que ainda não atingiram seu "grau de evolução", logo, são inferiores. Mas a teoria de Darwin fala sobre a evolução das espécies e não da de seres da mesma espécie, de ...

Tradições de matriz africana e sexo

Este artigo é resultado de nossa pesquisa no doutorado que apresenta questões pouco tratadas na literatura acadêmica a respeito do sexo nas tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé. Oferecemos uma análise afroteológica do ritual de Borí no Batuque; analisamos certos aspectos dos Òrìṣà e ofereceremos uma interpretação afroteológica ao tema; trataremos das relações interpessoais como atos sexuais e relações românticas entre os vivenciadores e tratamos brevemente de elementos da sexualidade e identidade de gênero. Como método utilizamos a exunêutica. Leia o artigo completo clicando aqui .  Ao citar este texto use a seguinte referência: SILVEIRA, Hendrix. Tradições de matriz africana e sexo: reflexões afroteológicas. Revista Periódicus , Salvador, v. 1, n. 14, p. 73-90, nov. 2020. Semestral. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/37289. Acesso em: ...

Afroteontologia: estudo sobre Deus segundo a cosmopercepção das tradições de matriz africana

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O presente artigo é fruto de nossos estudos sobre a afroteontologia, ou seja, estudo sobre Deus de acordo com a teologia das tradições de matriz africana, que temos chamado de afroteologia. Utilizamos como método a exunêutica, ou seja, nos valemos de uma epistemologia afrocentrada com interpretação que contempla a vivência nas comunidades tradicionais de terreiro. Este trabalho visa contribuir na construção de uma sistematização do conhecimento afroteológico no intuito de contribuir para a formação dos vivenciadores, subsidiando-os no combate ao racismo religioso, assim como fornecer informações para professores do Ensino Religioso e também para pesquisadores da área de Ciências da Religião e Teologia. Pudemos aqui construir uma visão de Deus nas tradições de matriz africana a partir de um estudo de fontes africanas e afro-brasileiras, além da tradição oral, principal meio de transmissão do conhecimento pelas comunidades tradicionais de terreiro. Leia o artigo completo clicando aqui ....