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Mostrando postagens com o rótulo Afroteologia

Cremação e Tradições de Matriz Africana: por que o sepultamento é um princípio afroteológico

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Recentemente, li um texto que procurava responder à pergunta: o que dizem as tradições de matriz africana sobre a cremação? A conclusão apresentada era a de que não haveria consenso e que, em algumas casas ou famílias, a cremação poderia ser aceita sem maiores implicações espirituais. Respeito as diferentes experiências religiosas, mas considero que essa formulação exige um contraponto, especialmente a partir da epistemologia negro-africana e da cosmopercepção yorùbá. Antes de tudo, é preciso afirmar que não conheço nenhuma tradição yorùbá - seja no continente africano, seja na diáspora - que tenha a cremação como prática ritual desejável ou teologicamente recomendada. Nem no Batuque, nem nas diversas nações do Candomblé de matriz yorùbá, a cremação constitui fundamento religioso ancestral. O sepultamento é a regra. Essa afirmação não decorre de mero conservadorismo cultural, mas de uma compreensão muito profunda sobre o que é o ser humano e o que acontece após a morte. O corpo não é ...

Hoje, 23 de abril, é dia de saudar Ogum

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Ogum é o senhor do ferro, da tecnologia, dos caminhos abertos com luta e coragem. É ele quem vai à frente, que enfrenta o que precisa ser enfrentado, que transforma obstáculo em passagem. Na cosmopercepção africana, Ogum não é apenas guerra, é também trabalho, disciplina, estratégia e construção de futuro . Mas hoje também é dia de reconhecer como essa força se manifesta no Brasil. Na Umbanda, Ogum caminha através dos seus caboclos: Ogum Sete Ondas (um dos caboclos que me acompanha), Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda, Ogum de Lei, Ogum Rompe Mato... E, para mim, essa não é apenas uma referência simbólica, pois ecoa forte na minha ancestralidade. Minha tia-bisavó, Mãe Augusta que era Cacique de Umbanda, teve no Caboclo Rompe Mato o seu guia espiritual. Foi sob essa força que fundou seu terreiro na Lomba da Tamanca, em Porto Alegre, nos anos 1950, e conduziu sua caminhada, abrindo caminhos para tantos outros que vieram depois. Rompe Mato é uma entidade espiritual compreendida como um c...

Precisamos resgatar a Teologia da Libertação para combater a Teologia do Domínio

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Vivemos um tempo de regressão civilizatória travestida de fé . O que está em curso no Brasil e em outras partes do mundo não é apenas uma disputa teológica, mas um projeto político-religioso de poder . A chamada Teologia do Domínio atua como matriz ideológica desse processo, instrumentalizando o discurso cristão para legitimar autoritarismo, exclusão e controle social. Trata-se de um projeto que busca reencenar a Idade Média , não em seus símbolos externos, mas em sua lógica profunda: a sacralização da autoridade, a criminalização da diferença, a submissão das consciências e a perseguição de todo pensamento crítico. Nessa lógica, Deus deixa de ser princípio ético e libertador para se tornar argumento de coerção . É nesse cenário que a retomada da Teologia da Libertação se torna urgente. A Teologia da Libertação nasce do chão da história, da experiência concreta dos pobres, das populações negras, indígenas, periféricas, das mulheres e dos corpos dissidentes. Ela parte de uma pergunta ...

As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?

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Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica , que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais , disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro. No universo yorùbá, força não é poder de dominação , mas capacidade de manter o equilíbrio da existência . Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá , assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi . São instâncias distintas de atuação do àṣẹ , inscritas em campos simbólicos próprios , mas mutuamente dependentes . Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial , ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica : diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre , sem...

“Obrigação” no Batuque: Do Vínculo Linguístico ao Compromisso Existencial

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fiquei motivado a escrever este texto ao ler o artigo “A origem curiosa de ‘obrigado’: o que a palavra realmente quer dizer” , de  Larissa Carvalho e publicado no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2025, que traça a trajetória da palavra na língua portuguesa a partir de sua raiz no latim destacando a ideia original de comprometimento e vínculo moral entre as pessoas. No uso cotidiano em português, obrigado e suas variações de gênero -  obrigada, obrigados, obrigadas  - sinalizam gratidão, mas qualquer análise etimológica revela que esta forma lexical se originou de uma ideia muito mais densa: a de estar vinculado por um laço de compromisso e retribuição . Etimologicamente, obrigado deriva de obligare , verbo latino que significa “atar”, “ligar” ou “comprometer” - não apenas no sentido de cumprir um dever, mas na noção de constituir um laço com outrem. No português antigo, expressões como “fico obrigado” significavam literalmente assumir um compromisso de recipr...

Àmàlà: alimento, memória e espiritualidade

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Uma das formas de servir o Àmàlà na Nigéria Hoje, 30 de setembro , celebramos Ṣàngó , divindade da justiça, do fogo e do trovão. É também o dia de lembrar o alimento que se tornou um de seus maiores símbolos: o àmàlà . Na Nigéria , entre o povo yorùbá, o àmàlà é um prato tradicional e cotidiano. Feito a partir de farinhas como a de inhame (yam), de mandioca (láfún) ou de banana-da-terra verde , ganha consistência elástica após ser misturado com água quente e acompanha sopas ricas em vegetais, quiabo e feijões, assim como carnes de todo tipo. Do ponto de vista nutricional , é um alimento de grande valor: fonte de carboidratos de lenta absorção, fibras que auxiliam na digestão, além de minerais como potássio, fósforo e ferro, e vitaminas do complexo B que fortalecem o corpo. É, portanto, um alimento  que nutre e sustenta - corpo e vida. No Brasil , o àmàlà ganhou novas formas e sentidos, tornando-se uma comida sagrada . No Candomblé , prepara-se com quiabos, cebola, azeite de ...

QUEM É A POMBAGIRA?

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Por Hendrix Silveira* Pombagira: origem, sincretismo e arquétipo feminino O termo Pombagira – também grafado como Pomba Gira, Pomba-Gira ou Pombogira – é resultado de uma corruptela de Mpambu Njila (ou Nzila) , divindade dos caminhos do povo Bakongo, de Angola e do Congo. Trata-se de uma entidade masculina que chegou ao Brasil durante o período da escravidão e foi preservada nos Candomblés de nação Angola/Congo, sobretudo na região do Rio de Janeiro. No contexto da escravidão, a Igreja Católica incentivou o sincretismo entre divindades africanas e santos católicos como estratégia de conversão, repetindo um método já utilizado na Europa medieval. No entanto, o que de fato ocorreu foi um hibridismo cultural (BHABHA, 2013): os santos católicos se associaram aos Orixás, criando novas formas de religiosidade. Com o surgimento da Umbanda no início do século XX, esse hibridismo permaneceu, mas trouxe consigo novos desafios. O primeiro deles foi a figura de Exu . No culto yorubá, Exu é funda...

O Apronte no Batuque: um caminho teológico e filosófico

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Nas tradições de matriz africana, alguns termos carregam em si não apenas um significado ritual, mas toda uma filosofia de vida. É o caso do apronte no Batuque. Mais do que uma preparação cerimonial, ele é compreendido pelos vivenciadores como o momento em que a pessoa se torna capaz de receber, viver e manifestar a força de seu orixá. Não se trata de “fazer” um Òrìṣà - pois o Òrìṣà já existe desde sempre -, mas de aprontar a pessoa para que sua relação com o divino se torne plena. O apronte é, assim, uma experiência de revelação: aquilo que já estava inscrito na ancestralidade e no destino se torna visível e operativo. Apronte na hierarquia do Batuque O Batuque possui uma organização que é fundamental para o funcionamento da tradição e a preservação de seus saberes. Na hierarquia, o estágio que sucede ao Abíyán é o apronte. Tornar-se pronto, vale destacar, não é uma escolha arbitrária, mas uma necessidade ditada por circunstâncias específicas. Há cinco motivos principais q...

O CULTO À INFÂNCIA NOS TERREIROS

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Por Hendrix Silveira* Aproveitando o dia capitalista da criança quero fazer uma pequena reflexão sobre o culto à infância nas comunidades-terreiro gaúchas. Não um culto às crianças, pois isso não existe nessas tradições, mas um culto a representação da força infantil. A própria existência de tal culto já nos garante a importância dessa força para as sociedades africanas e isso reverbera nas religiões "descendentes", se é que posso usar este termo. Me refiro aqui ao Batuque, à Umbanda e à Quimbanda. No Batuque a força infantil é cultuada sob a forma dos Òrìṣà Ibéji, uma dupla de divindades crianças que, na África, por vezes são cultuadas como dois meninos ou um casalzinho, mas sempre são irmãos. No Batuque são cultuados como um casal, filhos de Ṣàngó e Ọ̀ṣun. Seus ìtán os revelam como divindades poderosas capazes até mesmo de vencer Ikú, a Morte. São poderosas na resolução de problemas e trazem saúde e felicidade a seus cultuadores. O seu principal rito é a Mesa de Ibéji, litu...

PEQUENA REFLEXÃO AFROTEOLÓGICA SOBRE O FOGO

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Por Hendrix Silveira* Há pouco tempo um membro da diretoria de uma escola da região metropolitana acendeu uma vela aromática em sua sala, mas racistas religiosos logo espalharam a notícia de que esta pessoa estaria fazendo uma "macumba" com intenções não muito boas. Este episódio flagrante de racismo religioso me provocou a escrever estas linhas. Muito antes das tradições de matriz africana se utilizarem de velas em seus ritos religiosos, ela era um utensílio que iluminava as casas e templos romanos há mais de 2500 anos. A vela tem relação íntima com o fogo, um dos quatro elementos da natureza. Já disse em outra publicação sobre a água (leia aqui ) que as tradições de matriz africana tem uma relação estreita com as forças da natureza e que as divindades africanas regulam e fortalecem com o seu poder toda a Criação, por meio dessas forças. Seguindo ainda a afroteologia de  Juana Elbein dos Santos em sua principal obra Os nagô e a morte (2002), entendemos que os Orixás vivific...

O LUTO NO BATUQUE

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 Por Hendrix Silveira* Muitas pessoas têm me perguntado sobre o luto, o tempo, as condições, o que pode e o que não pode ser feito, quem determina ou coisas desse tipo. As pessoas me perguntam não porque sou o "sabe-tudo" ou qualquer coisa neste sentido. As pessoas me perguntam porque confiam na minha avaliação já que possuo vivência religiosa desde o nascimento e estudo reflexivo sobre todos os temas de nossa fé. Aprendi muito com meu babalorixá (que tem mais de 40 anos de religião), com meu padrinho (que é de outra nação e igualmente tem mais de 40 anos de religião), com minha avó (que morreu com mais de 60 anos de religião) entre outros babás e iyás que tive a oportunidade de escutar com atenção e do qual, humildemente, apresento aqui as respostas mais comuns. O que é o luto? O luto é um período em que o batuqueiro deve ficar de resguardo de obrigações para os Orixás por períodos variados. Existem dois tipos de luto: o luto ritual e o luto moral. O luto ritual é aquele obr...

PEQUENA REFLEXÃO AFROTEOLÓGICA SOBRE A ÁGUA

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Por Hendrix Silveira* As tradições de matriz africana tem uma relação estreita com as forças da natureza. Acreditamos que as divindades (Orixás/Voduns/Nkisis) criadas por Deus (Olodumare/Mawu-Lisa/Nzambi) para regularem e fortalecerem com o seu poder (Axé/Nguzu) toda a Criação, partilham dessas forças. De fato isto faz com que algumas teorias de que os Orixás seriam as forças da natureza estão equivocadas. Os Orixás não são as forças da natureza, mas sim as forças da natureza existem em decorrência do poder dos Orixás. "Os Orixás estão especialmente associados à estrutura da natureza, do cosmo", diz Juana Elbein dos Santos em Os nagô e a morte (p. 102). Os quatro elementos - água, fogo, terra e ar - são a matéria simbólica do qual os Orixás têm controle através de seu Axé. Estes quatro elementos não estão hierarquizados em níveis de importância. Cada um deles tem seu papel na manutenção do cosmo através dos Orixás. Contudo observamos que a água é o grande agente promotor...