Postagens

Mostrando postagens com o rótulo comunidade

A DEPUTADA E O TERREIRO

Imagem
No último final de semana, estive na casa de meu padrinho, Bàbá Diba de Iyemọnjá, no encerramento do Festival R’Gongo: Mostra de Cultura Negra na Vila São José (Porto alegre/RS) e Festa em Homenagem ao Vovô Cipriano de Angola.. Em meio ao cheiro de ervas frescas, da fumaça das velas e do calor humano que só um terreiro sabe produzir, uma cena me chamou profundamente a atenção. Entre pessoas circulando, pontos cantados e panelas trabalhando sem descanso, uma filha da corrente corria de um lado para o outro. De pés descalços, atravessava a cozinha carregando canecas com bebidas quentes, pratos de feijão mexido, aipim, linguiça com farofa, bolo de fubá. Entrava e saía apressada para atender os pretos e pretas velhas com o mesmo cuidado e dedicação de qualquer outra irmã de santo. Nada a diferenciava das demais, exceto talvez as longas tranças vermelhas. Aquela mulher era a deputada federal Daiana Santos. Talvez essa seja uma das maiores lições que um terreiro pode oferecer ao mundo contem...

“Obrigação” no Batuque: Do Vínculo Linguístico ao Compromisso Existencial

Imagem
fiquei motivado a escrever este texto ao ler o artigo “A origem curiosa de ‘obrigado’: o que a palavra realmente quer dizer” , de  Larissa Carvalho e publicado no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2025, que traça a trajetória da palavra na língua portuguesa a partir de sua raiz no latim destacando a ideia original de comprometimento e vínculo moral entre as pessoas. No uso cotidiano em português, obrigado e suas variações de gênero -  obrigada, obrigados, obrigadas  - sinalizam gratidão, mas qualquer análise etimológica revela que esta forma lexical se originou de uma ideia muito mais densa: a de estar vinculado por um laço de compromisso e retribuição . Etimologicamente, obrigado deriva de obligare , verbo latino que significa “atar”, “ligar” ou “comprometer” - não apenas no sentido de cumprir um dever, mas na noção de constituir um laço com outrem. No português antigo, expressões como “fico obrigado” significavam literalmente assumir um compromisso de recipr...

O CULTO À INFÂNCIA NOS TERREIROS

Imagem
Por Hendrix Silveira* Aproveitando o dia capitalista da criança quero fazer uma pequena reflexão sobre o culto à infância nas comunidades-terreiro gaúchas. Não um culto às crianças, pois isso não existe nessas tradições, mas um culto a representação da força infantil. A própria existência de tal culto já nos garante a importância dessa força para as sociedades africanas e isso reverbera nas religiões "descendentes", se é que posso usar este termo. Me refiro aqui ao Batuque, à Umbanda e à Quimbanda. No Batuque a força infantil é cultuada sob a forma dos Òrìṣà Ibéji, uma dupla de divindades crianças que, na África, por vezes são cultuadas como dois meninos ou um casalzinho, mas sempre são irmãos. No Batuque são cultuados como um casal, filhos de Ṣàngó e Ọ̀ṣun. Seus ìtán os revelam como divindades poderosas capazes até mesmo de vencer Ikú, a Morte. São poderosas na resolução de problemas e trazem saúde e felicidade a seus cultuadores. O seu principal rito é a Mesa de Ibéji, litu...