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Mostrando postagens de 2026

A DEPUTADA E O TERREIRO

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No último final de semana, estive na casa de meu padrinho, Bàbá Diba de Iyemọnjá, no encerramento do Festival R’Gongo: Mostra de Cultura Negra na Vila São José (Porto alegre/RS) e Festa em Homenagem ao Vovô Cipriano de Angola.. Em meio ao cheiro de ervas frescas, da fumaça das velas e do calor humano que só um terreiro sabe produzir, uma cena me chamou profundamente a atenção. Entre pessoas circulando, pontos cantados e panelas trabalhando sem descanso, uma filha da corrente corria de um lado para o outro. De pés descalços, atravessava a cozinha carregando canecas com bebidas quentes, pratos de feijão mexido, aipim, linguiça com farofa, bolo de fubá. Entrava e saía apressada para atender os pretos e pretas velhas com o mesmo cuidado e dedicação de qualquer outra irmã de santo. Nada a diferenciava das demais, exceto talvez as longas tranças vermelhas. Aquela mulher era a deputada federal Daiana Santos. Talvez essa seja uma das maiores lições que um terreiro pode oferecer ao mundo contem...

Hoje, 23 de abril, é dia de saudar Ogum

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Ogum é o senhor do ferro, da tecnologia, dos caminhos abertos com luta e coragem. É ele quem vai à frente, que enfrenta o que precisa ser enfrentado, que transforma obstáculo em passagem. Na cosmopercepção africana, Ogum não é apenas guerra, é também trabalho, disciplina, estratégia e construção de futuro . Mas hoje também é dia de reconhecer como essa força se manifesta no Brasil. Na Umbanda, Ogum caminha através dos seus caboclos: Ogum Sete Ondas (um dos caboclos que me acompanha), Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda, Ogum de Lei, Ogum Rompe Mato... E, para mim, essa não é apenas uma referência simbólica, pois ecoa forte na minha ancestralidade. Minha tia-bisavó, Mãe Augusta que era Cacique de Umbanda, teve no Caboclo Rompe Mato o seu guia espiritual. Foi sob essa força que fundou seu terreiro na Lomba da Tamanca, em Porto Alegre, nos anos 1950, e conduziu sua caminhada, abrindo caminhos para tantos outros que vieram depois. Rompe Mato é uma entidade espiritual compreendida como um c...

Precisamos resgatar a Teologia da Libertação para combater a Teologia do Domínio

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Vivemos um tempo de regressão civilizatória travestida de fé . O que está em curso no Brasil e em outras partes do mundo não é apenas uma disputa teológica, mas um projeto político-religioso de poder . A chamada Teologia do Domínio atua como matriz ideológica desse processo, instrumentalizando o discurso cristão para legitimar autoritarismo, exclusão e controle social. Trata-se de um projeto que busca reencenar a Idade Média , não em seus símbolos externos, mas em sua lógica profunda: a sacralização da autoridade, a criminalização da diferença, a submissão das consciências e a perseguição de todo pensamento crítico. Nessa lógica, Deus deixa de ser princípio ético e libertador para se tornar argumento de coerção . É nesse cenário que a retomada da Teologia da Libertação se torna urgente. A Teologia da Libertação nasce do chão da história, da experiência concreta dos pobres, das populações negras, indígenas, periféricas, das mulheres e dos corpos dissidentes. Ela parte de uma pergunta ...

As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?

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Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica , que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais , disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro. No universo yorùbá, força não é poder de dominação , mas capacidade de manter o equilíbrio da existência . Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá , assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi . São instâncias distintas de atuação do àṣẹ , inscritas em campos simbólicos próprios , mas mutuamente dependentes . Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial , ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica : diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre , sem...