As Ìyámi Òṣòròngà São Mais Poderosas Que Ifá?
Passou no meu feed em redes sociais um vídeo de uma moça dizendo que as Ìyámi Òṣòròngà são mais poderosas que Ifá. Essa afirmação revela uma chave de leitura estranha às tradições de matriz africana. Trata-se de uma transposição cristianocêntrica, que organiza o sagrado a partir de hierarquias verticais, disputa de poder e supremacia – categorias que não estruturam a cosmopercepção yorùbá nem o pensamento de terreiro.
No universo yorùbá, força não é poder de dominação, mas capacidade de manter o equilíbrio da existência. Ìyámi não é um “nível acima” de Ifá, assim como Ifá não é um princípio que governa ou submete Ìyámi. São instâncias distintas de atuação do àṣẹ, inscritas em campos simbólicos próprios, mas mutuamente dependentes.
Ìyámi Òṣòròngà representa a ancestralidade feminina primordial, ligada à geração da vida, à fertilidade, à morte, à continuidade e à justiça cósmica. Sua força é ontológica: diz respeito ao fato de que nada vem ao mundo sem o ventre, sem o princípio materno. Já Ifá é a epistemologia do mundo, o sistema de conhecimento que permite ler, interpretar e orientar o destino de cada orí. Ifá não cria a vida, mas a compreende e a orienta.
Portanto, não há conflito nem competição. O que existe é simbiose. Sem Ìyámi, não há vida a ser orientada. Sem Ifá, não há caminho consciente para a vida que veio ao mundo. Quando alguém pergunta “quem é mais poderoso?”, já abandonou a lógica africana e passou a operar com categorias externas, coloniais e teológicas de matriz cristã.
As tradições de matriz africana se organizam a partir de valores civilizatórios que são princípios ético-cosmológicos que estruturam a vida social, política, espiritual e epistemológica dos povos africanos e de suas diásporas. Eles não funcionam como “regras morais abstratas”, mas como modos de organizar a existência, a relação com o sagrado, com a natureza, com a comunidade e com o conhecimento.
Diferente da tradição ocidental moderna – marcada por individualismo, hierarquia, dualismo e dominação – os valores civilizatórios africanos partem de uma cosmopercepção relacional, na qual tudo existe em relação.
Para exemplificar, trago aqui 3 valores que nos ajudam a entender que não há hierarquia entre essas forças:
- Circularidade, e não linearidade hierárquica;
- Complementaridade, e não oposição;
- Integração, e não exclusão ou supremacia.
Hierarquizar Ìyámi e Ifá é o mesmo erro de tentar hierarquizar terra e semente, ventre e palavra, existência e conhecimento. Um não existe plenamente sem o outro. Pensar diferente disso é desafricanizar o pensamento e cristianizar a leitura do sagrado africano.
Àṣẹ o
𝐏𝐫𝐨𝐟. 𝐃𝐫. 𝐁à𝐛á 𝐇𝐞𝐧𝐝𝐫𝐢𝐱 𝐒𝐢𝐥𝐯𝐞𝐢𝐫𝐚
Bàbálórìṣà
da Comunidade Tradicional de Terreiro Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre. Professor,
Afroteólogo, escritor, conferencista, palestrante e comunicador.
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Referências
ABÍMBỌ́LÁ, Wande. Ifá: An Exposition of Ifá Literary Corpus. Ibadan: Oxford University Press, 1976.SÀLÁMÌ, Síkírù; RIBEIRO, Ronilda Iyakemi. Exu e a Ordem do Universo. São Paulo: Oduduwa, 2011.
SODIPE, Babatunde. Ìyàmi Òṣòròngà: The Power of the Mothers. Lagos: CSS Bookshops, 1997.
SILVEIRA, Hendrix. Afroteologia: construindo uma teologia das tradições de matriz africana. São Paulo: Arole Cultural, 2024.

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