segunda-feira, 25 de agosto de 2008

TEOLOGIA E FILOSOFIA AFRO-BRASILEIRA


Àgo ye ègbon!

As religiões de matriz africana estão alcançando patamares nunca antes alcançados junto às universidades nacionais e internacionais. No passado a religião era vista como um objeto a ser estudado pelos pesquisadores burgueses brancos para conquista de seus títulos em mestrados e doutorados, sempre vendo a religião como algo exótico a ser observado como num zoológico. Geralmente imbuídos por sentimentos eurocêntricos, esses pesquisadores classificavam as religiões de matriz africana como meras seitas anímicas praticadas por negros apedeutas com religiosidade limitada.
Hoje, contrariando todas as estatísticas, vemos nossos irmãos dentro da academia, dentro das universidades, fazendo pesquisas e aparecendo como produtores intelectuais mostrando o Batuque, o Candomblé e a Umbanda com uma visão “desde dentro” como trata Juana dos Santos em seu livro “Os nagô e a morte” (Vozes, 2002). E são muitos os pesquisadores sérios que produzem um material que exprime o pensar da religião africanista a partir de princípios interiorizados na prática do saber acumulado por nossos ancestrais. São Geógrafos, Historiadores, Sociólogos, Psicólogos, Jornalistas, Assistentes Sociais, Biólogos, Pedagogos, Antropólogos, Etnólogos, todos povo do axé. No entanto, o que mais precisamos são de Teólogos, sobretudo aqueles que pensam uma Teologia Afro-Brasileira.
No conceito cristão, Teologia seria a ciência cujo objeto de estudo é o deus bíblico. Como não é possível estudar diretamente um objeto que não vemos e não tocamos, então estuda-se esse deus a partir da sua revelação que seria a própria bíblia. Outro conceito é o de Platão que definiu Teologia como sendo um estudo da natureza divina de forma racional.
Mas e o que seria Teologia Afro-Brasileira?
“É o estudo teórico da concepção de transcendentalidade na cosmovisão africana e sua práxis antropotheogônica afro-brasileira na sua dimensão intercultural”. Essa é a definição do Prof. Jayro Olorodê Ogiyan Kalafor Pereira, baiano da Ilha de Itaparica, iniciado para Oxogiyan no Ilê Axé Opô Afonjá, hoje ligado ao Ilê Alaketu; mestre em Teologia, especialista em Culturas Africanas e Relações Interétnicas na Educação Nacional, bacharel em Filosofia e licenciado em Ciências Religiosas. Ele é o único teólogo acadêmico a desenvolver uma Teologia genuinamente afro-brasileira.
Há cerca de quinze anos o Prof. Jayro fundou o Egbé Òrun Àiyé, uma associação para estudos da Teologia e da Filosofia das culturas negras, com o objetivo de proporcionar aos religiosos de matriz africana uma compreensão melhor sobre suas práticas e vivências. Em meados de 2003, após ter atuado em outros estados como Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, o Egbé chegou ao Rio Grande do Sul onde foi aclamado e recriado como seccional estadual. Depois de um período de amortecimento, o Egbé/RS retorna revigorado e à toda prova.
A religião de matriz africana, com o passar do tempo, perdeu muito de seus componentes teóricos. Os africanistas faziam rituais e liturgias por pura repetição sem ter o conhecimento dos porquês de suas realizações. Muitos dos antigos sacerdotes ao serem questionados sobre o sentido de se fazer um ritual, geralmente respondiam de forma evasiva, afirmando serem segredos ou que ainda não estava na hora de aprender o que na realidade nunca ensinavam. Ou pior! Por não saber, e para evitar a debandada de filhos, inventavam teorias sem pé nem cabeça, ou se apropriavam de teorias de outras confissões religiosas, muitas delas sem nada a ver com o que praticamos.
O Egbé vem nesse sentido preencher essa lacuna.
Entendemos que o batuque é uma religião negra, de origem africana, adaptada ao Rio Grande do Sul. Entender a religião desse modo, nos faz querer fortalecer essa identidade. E a fortalecemos se os complexos teóricos forem pensados a partir da cosmovisão africana.
Algumas pessoas, no entanto, receosas que são, desacreditam o nosso trabalho afirmando que queremos degradar o batuque ou que tentamos “candomblenizá-lo” ou ainda que estudando Teologia e Filosofia criaremos outra religião.
Mas quanta bobagem dita por quem nem sequer nos dá a honra de visitar-nos em nossos encontros e eventos.
Nossa intenção não é diminuir os poderes dos Pais e Mães-de-santo sobre seus filhos, mas garantir a todos os vivenciadores do batuque um conhecimento mais aprimorado sobre aquilo que eles mesmos praticam. O estudo da Teologia afro-brasileira só trará subsídios positivos, agregando ao batuque componentes teóricos que lhe foram negados historicamente e que podem até mesmo nos servir efetivamente no enfrentamento aos ataques de neopentecostais.

Púpò àse gbogbo!
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Sugestão de leitura
“Os nagô e a morte: pàde, asèsè e o culto égun na Bahia”
de Juana Elbein dos Santos.
Tese de doutorado em etnologia defendida em Sourbonne, França. É o mais profundo estudo feito sobre a natureza dos Orixás e dos Eguns. Base eloqüênte para o estudo teológico afro-brasileiro.
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Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 37. Bellgrado. Agosto/2008. Pág. 24

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

HISTÓRIA DOS NEGROS NO RIO GRANDE DO SUL


Ago iyè egbón!

Há dois séculos atrás, os navegantes que se dirigiam à Colônia do Santíssimo Sacramento pensavam que a embocadura da Lagoa dos Patos fosse a foz de um grande rio. Foi Martin Afonso de Souza o primeiro a fazer este caminho, em 1530, com o intuito de demarcar o território português na América, chamando o lugar de Rio Grande de São Pedro, em função de ele ter alcançado este local no dia de São Pedro (29 de junho) segundo alguns historiadores ou pelo naufrágio de um dos barcos que o acompanhava cujo capitão era seu irmão, Pero (que no português arcaico significa Pedro).
Mas o primeiro registro de transposição da Barra do Rio Grande é de 1737, quando o Brigadeiro José da Silva Paes chegou para construir a fortificação de madeira denominada de Forte Jesus-Maria-José, onde hoje é a cidade de Rio Grande. O forte ficava a meio caminho entre Sacramento e Laguna, a cidade portuguesa mais ao sul do Tratado de Tordesilhas, e servia como base para descanso e abastecimento. O forte é o marco inicial da colonização portuguesa nas terras gaúchas, apesar de este território só ter sido anexado ao reino português em 1750. Junto com o Brigadeiro vieram um contingente de negros escravizados para a construção desse forte, pois, segundo Mário Maestri, eram os negros quem desenvolviam as atividades de construção civil e dos fortes, assim como estradas, etc.
A partir de 1777, ocorre uma grande seca no Ceará, principal produtor de charque – a comida dos cativos. Com isso, um português chamado José Pinto Martins se muda para a Freguesia de São Francisco de Paula, às margens do Arroio Pelotas, em 1780, trazendo consigo toda uma infra-estrutura propícia para a produção do charque nesta província. Junto com Martins vem toda sua escravaria, sendo esse considerado o marco inicial da presença negra no estado, o que é um engano como já vimos.
Logo surgiriam 37 outras charqueadas em todo o estado fazendo dessa a principal fonte de economia da região. Nesta época, toda a base da economia está na lógica escravista, por isso ter um escravo é mais uma questão de status do que de realmente necessidade de mão-de-obra. É por isso que os estancieiros e charqueadores – apesar da proximidade com o Uruguai onde a produção do charque é através de mão-de-obra livre – preferem a mão-de-obra escravizada, como indaga Fernando Henrique Cardoso na sua obra “Capitalismo e escravidão no Brasil meridional”.
Segundo Tau Golin, a indústria do charque foi tão importante para a economia gaúcha que o seu déficit é um dos motivos que geraram a Guerra dos Farrapos. Não menos importante é a mão-de-obra, pois os mesmos estancieiros que se insurgiram contra o Império do Brasil, ao contrário do que se costuma dizer, mantiveram sua escravaria em cativeiro ou foram levados para o Uruguai, onde seu patrimônio estaria protegido. A questão é simples: os farroupilhas nunca foram abolicionistas como afirmam certos seriados televisivos. No entanto, a sedução com promessas de liberdade aos escravizados do império que lutassem pela causa farroupilha foi uma constante. Com efeito, muitos negros engrossaram as fileiras das tropas de lanceiros atuando na infantaria e na cavalaria. De fato as tropas de lanceiros negros foram cruciais em todas as batalhas durante os dez anos de rebelião. Com o fim da guerra as promessas não foram cumpridas e os negros que sobreviveram representavam um grande perigo para o Império, pois agora que estavam militarizados poderiam se revoltar e os senhores de escravos não queriam que acontecesse aqui o que houve no Haiti. Foram enviados para o Rio de Janeiro para se manterem como escravos do Império sendo separados e remetidos para outras províncias.
O processo se repete com a Guerra do Paraguai (1865-1870): os negros escravizados são arregimentados no exército com a promessa de liberdade e, como se não bastasse isso, os senhores ricos cujos filhos haviam sido convocados para a guerra, enviavam seus escravizados para lutarem no lugar deles.
Em 1884, a Província de Rio Grande de São Pedro do Sul abole a escravidão em todo o seu território. Mas essa abolição não ocorreu de fato, pois para ganharem suas cartas de alforria, os negros deveriam trabalhar por cerca de cinco anos para pagarem as despesas que pretensamente seus antigos senhores julgavam ter tido com eles. A abolição de fato só ocorre em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.
A História nem sempre é o que está nos livros que usamos nas escolas de ensino fundamental. Também não são as novelas ou minisséries que assistimos na televisão. A História está sempre em movimento, está sempre sendo relida e reinterpretada. Ela não é estanque e imutável como costumamos julgar. Sobretudo, devemos reler a História para entendermos melhor a nossa sociedade de hoje, pois tudo o que somos é o fruto de nossa própria História.

Pùpo àse gbogbo!
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Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 22. Enebe. Janeiro/2007. Pág. 02
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