terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Caridade x Assistencialismo x EconomiaComunitária

Li um pequeno texto num blog que tentava discutir a diferença entre caridade e assistencialismo. Contudo o argumento do texto é muito senso comum.

Caridade e Assistencialismo são exatamente a mesma coisa. A diferença está em quem o promove. A caridade é sempre promovida por indivíduos, enquanto que o assistencialismo é promovido por instituições e órgãos públicos ou privados, inclusive instituições religiosas.

A palavra "caridade" vem do latim "cáritas" que significa "favor" ou "ajuda". Tanto a caridade quanto o assistencialismo não contribuem para a promoção de igualdade social, pelo contrário, mantém as desigualdades. De fato as desigualdades são até necessárias. É necessário ter pobres para que se faça a caridade e se promova o assistencialismo. Estas ações não alteram o status quo. Geralmente as pessoas e entidades que promovem a caridade e o assistencialismo doam apenas o excedente de seus lucros justamente para pacificar as massas empobrecidas.

Os projetos de inclusão social como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Ciência Sem Fronteiras e Fome Zero não são assistencialismo justamente porque alteraram o status quo. São políticas públicas que fizeram com que mais de 50 milhões de brasileiros saíssem da pobreza e mais de 100 milhões entrassem para a classe média. O assistencialismo jamais promoveria tal alteração.

O que realmente é um contraponto à caridade e ao assistencialismo é a economia comunitária, onde se estabelecem direitos iguais no acesso aos bens de consumo e aos serviços de saúde, segurança e educação.

* Texto originalmente publicado no Facebook em 28 de dezembro de 2015.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Ọdún Mẹ́dógún Òrìṣà Òṣàálá

Em meu discurso na abertura da festa pública que celebrou os 15 anos de assentamento do Òrìṣà ao qual fui consagrado, consequentemente também meus 15 anos de sacerdócio e 9 anos à frente da Comunidade Tradicional de Matriz Africana Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre, enfatizei a importância do senso de coletividade e do espírito comunitário que são o cerne das tradições de matriz africana.

De forma geral - e por conta da sobrevivência desses espaços no país - os terreiros têm se oferecido como oportunizadores sociais ao usar seus saberes tradicionais na movimentação das forças em favor daqueles que procuram saúde física, material e emocional. Cada vez mais escassos são aqueles que procuram os terreiros para sanar sua espiritualidade e muito disso se deve as pessoas não quererem ter compromissos, ou quando acontece buscam apenas benesses próprias.

O espírito das tradições de matriz africana é UBUNTU e ubuntu é "o que eu posso fazer pela coletividade do terreiro" e não "o que o terreiro pode fazer por mim". Sem dúvida este último pensamento emerge das necessidades individuais e de uma má interpretação do oferecimento que expus no parágrafo anterior. Isto levou ao clientelismo nessa tradição e mais recentemente a ideia de que os Òrìṣà estão ao nosso serviço, como o proposto pela Teologia da Prosperidade e amplamente divulgado pelas igrejas eletrônicas.

Mas assim como os Òrìṣà não são onipotentes, pois dependem da união de Suas forças para realizar, nós seres humanos devemos entender esse modelo afroteológico como um paradigma a ser seguido. É unindo a minha força com a do outro que realizaremos com plenitude tudo a que nos propusermos. Aliás "realizar" é um dos significados teológicos para a palavra "Àṣẹ"

Assim agradeço a todos e todas aqueles/as que contribuíram com sua força física e espiritual para a realização da festa que ocorreu no último sábado (16/12/17). O trabalho, para as tradições de matriz africana, é teológico. Está relacionado à "economia teologal" e por isso deve ser realizado com satisfação e desapego. Contudo é bom quando nosso esforço é reconhecido e por isso dedico este textículo aos meus filhos e netos de santo, aos agregados à casa, aos/às amigos/as e irmãos/ãs, ao meu bàbá, Pedro de Oxum Docô e à minha esposa, Ìyá Patrícia de Ọya, cuja participação foi crucial na realização dessa obrigação.

Todos, desde o menor pombo, somos importantes na realização das coisas num terreiro.

Adùpẹ́ gbogbo!


Bàbá Hendrix de Ọ̀rúnmìlà
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...