quinta-feira, 18 de março de 2010

Mídia: a grande educadora

Àgo ye égbòn!

Na segunda-feira passada (15/03/10) assisti a palestra Mídia, Educação e Cidadania: uma perspectiva crítica, ministrada pelo Prof. Pedrinho Guareschi, na Fapa.

Guareschi, sem dúvida nenhuma, possui um currículo invejável com três graduações (Filosofia, Teologia e Letras), uma especialização em Sociologia, mestrado e doutorado em Psicologia Social em universidades estadunidenses, dois pós-doutorados também nos gringos (a útima em Cambridge em 2002). Já deu aulas até em Harvard e, atualmente, é professor convidado da UFRGS além de Conferencista Internacional. Com certeza é um vulto importante da intelectualidade brasileira.

No entanto, o que expôs não foi nenhuma novidade para quem participa de movimentos sociais. Sabemos há muito tempo que a mídia manipula as mentes humanas. Que nos impurra goela abaixo valores da elite branca machista, homofóbica e cristianocêntrica. Que faz, através de seu poder, reprogramar as pessoas que passam a maior parte de suas vidas trabalhando e cujo único "divertimento" são os programas apresentados na TV.

Mas porque isso acontece? Segundo o professor, é porque vivemos numa sociedade midiada; desenvolvemos uma cultura midiada. Para explicar isto, Guareschi nos apresentou as teses que dão sustentabilidade a essa afirmativa.

A sua primeira tese é de que a mídia constrói a realidade, pois o que está sendo veiculado, na cabeça das pessoas, é o que existe. Quando um assunto pára de ser veiculado é como se deixasse de existir. Veja, por exemlo, o caso Collor.
Fernando Collor de Melo começou sua carreira política no partido que apoiava a ditadura, o ARENA. Com a ajuda da mídia foi eleito presidente do Brasil em 1990 por ser o "caçador de marajás". Mas as atitudes políticas de Collor desagradaram a elite o que culminou no seu impeachment. Collor ficou fora da mídia por um período o que resultou na perda da eleição a governador de Alagoas em 2002. Mas em 2005 foi produzida uma matéria especial com ele que foi exibida no Fantástico, que deu um novo "gás" a imagem de Collor. O resultado foi a sua eleição para senador em 2006.

A seguda tese de Guareschi diz que a mídia imprime valores. Ele afirma que quem está na mídia sempre se elege, pois a mídia é a janela daquilo que as pessoas querem mostrar. Aqui, Guareschi se aproxima de Guy Debord em seu "A sociedade do espetáculo". Debord diz que, para a sociedade do espetáculo, não importa o que se é, mas sim o que se parece ser. Neste contesto o caso Collor também se encaixa: quando foi conveniente o hoje senador foi o "guardião da moralidade", depois o corrupto e em seguida o injustiçado. Um outro exemplo é a confusão que o publico faz entre os atores e seus personagens. Muitos profissionais que representaram papéis de vilões em novelas se queixaram de terem sido abordados rispidamente por passantes quando encontrados pelas ruas. O caso de  Beatriz Segall é o mais notório. Quase foi espancada nas ruas por causa de Odete Roitman, personagem que interpretava na novela Vale Tudo de 1988. Podíamos encontrar até camisetas com os dizeres "Eu odeio Odete Roitman" no mercado de trabalhadores ambulantes em Porto Alegre.

A terceira tese versa sobre a pauta de discussão. Guareschi acredita que a mídia é responsável até pelo que as pessoas discutem em suas vidas privadas. Os caras pintadas no caso Collor é um bom exemplo. Instigados pela mídia, jovens do Brasil todo foram às ruas para derrubar o então presidente. Nas novelas não é diferente e as pessoas discutem em seus ambientes de trabalho e residências com quem o personagem deveria ficar ou como o vilão destrói a vida das pessoas-personagens. O BBB também é outro incitador de discussões. Quem fica e quem sai, as brigas e romances. Tudo é motivo para que a audiência se prorrogue para fora das telas. Temas mais desejáveis com homossexualidade, lesbianismo, sexo e gravidez na adolescência também são temas utilizados, mas assim que termina a novela é como se esses problemas também terminassem. Embora haja um resgate deles, de vez enquando.
É o caso de Sinhá Moça. Em meados de 2006, quando se debatia a necessidade de cotas para minorias étnicas nas universidades, foi produzido o remake dessa novela. Se na primeira versão ela serviu para reforçar a ideia errônea de que os escravizados eram submissos e que dependiam da jovem sinhá branca para não serem molestados, a intenção do remake foi a de reforçar estes valores instituídos e provocar no debate a reflexão de que as deficiências sociais negras eram fruto de sua própria índole submissa e dependente.
Passados quatro anos, o assunto das cotas volta à baila e, novamente, a Globo reprisa a tal novela com intenção óbvia: manipular o público para que não queira que as cotas continuem existindo.

Por fim o prof. Guareschi atentou para a necessidade de entendermos que somos aquilo que aprendemos ser e que a TV e o rádio tem papel fundamental nessa educação. Nos lembrou que o sujeito da educação é o educando e não o educador como as empresas de comunicação querem fazer entender. Também nos lembrou de que as empresas de comunicação não sãos as donas dos meios de comunicação, mas sim concessionárias e que por isso deveriam atuar em favor do povo e não em favor da elite empresarial brasileira. Enfim nos deu subsídios mais efetivos para estabelecermos um debate crítico sobre esta questão.


Pùpó Àse gbogbo!
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