quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

NATAL, PAPAI NOEL, KWANZAA E BATUQUE

Àgo ye ègbón!

A palavra Natal é latim e significa nascimento. A festa, instituída pelo Papa Libério no ano 354, é em referência ao nascimento de Jesus de Nazaré no dia 25 de Dezembro pela Igreja Católica Romana e, no dia 7 de Janeiro, pela Igreja Ortodoxa. É encarado por todos os cristãos como o dia consagrado à reunião da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Segundo estudos, a data de 25 de dezembro não é a data real do nascimento de Jesus. A Igreja entendeu que devia cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam por altura do solstício de Inverno. Por isso essa data foi adotada para que a data coincidisse com a festividade romana dedicada ao "nascimento do deus sol invencível" (Natalis Invistis Solis), que comemorava o solstício de Inverno. A festividade romana em honra ao deus Saturno, era comemorada de 17 a 22 de dezembro; era um período de alegria e troca de presentes.
Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, a Igreja seguindo uma lógica de dominação lenta e progressiva, forneceu-lhes simbolismos cristãos e uma nova linguagem cristã. As alusões dos padres ao simbolismo de Cristo como "o sol de justiça" (Malaquias 4:2) e a "luz do mundo" (João 8:12) expressam o sincretismo religioso.
Atualmente o Natal surge como forma de aquecer o mercado consumidor num período que não havia muitas vendas devido as festas de final de ano (hemisfério norte) ou pelas férias (hemisfério sul). Desta forma a celebração do Natal aparece como mais uma ferramenta de marketing. O Natal tornou-se o feriado mais rentável para estabelecimentos comerciais. No Brasil o Natal só perde para o dia das mães nas vendas. Isso devido a sua principal característica que é a troca de presentes entre família e amigos, e presentes que são trazidos pelo Papai Noel.
Papai Noel tem um número muito grande de nomes, mas todos se referem à pessoa de São Nicolau que foi bispo de Myra (atual Turquia) no século IV. Muitos milagres são atribuídos a ele, todos associados com a doação de presentes. Os holandeses, no séc. XVII, levaram para os Estados Unidos a tradição de presentes as crianças usando a lenda de São Nicolau a quem eles chamavam Sinter Klaas.
Os impulsores do mito de Santa Claus foram dois escritores americanos. Em um livro inscrito em 1809, o autor Washinton Irving descreve São Nicolau como um personagem bonachão, que montava um cavalo voador e jogava presentes pelas chaminés. Em 1823, o poema de Clement Moore trocou o cavalo branco por renas que puxavam um trenó.
Ao longo do séc. XIX Santa Claus foi representado de várias maneiras: desde um gnomo jovial até um homem maduro e severo. Em 1862, o desenhista estadunidense Thomas Nast fez a primeira ilustração de Papai Noel descendo por uma chaminé, embora ainda tivesse o tamanho de um duende. A aparência atual de Papai Noel é resultado de uma campanha da Coca-Cola, que em 1931 encomendou ao artista Habdon Sundblom a remodelação do Sta. Claus de Nast.
Mas o que tem a ver o Natal com o Batuque? Nada! Como já disse, o Natal é uma festa cristã se for pensada como a celebração do nascimento de Jesus, e Jesus nada tem a ver com o batuque. Mas se for pensada como uma festa pagã como a saturnália, onde há alegria e troca de presentes, muito se aproxima a uma festa de origem africana: o Kwanzaa.
Kwanzaa é a única comemoração Afro-americana com foco nos tradicionais valores africanos da família, responsabilidade social, comércio e auto-aperfeiçoamento. Kwanzaa não é política nem religião, apesar de algumas pessoas o verem como substituto para o Natal. Ele é simplesmente um tempo de reafirmação do povo Afro-americano, seus ancestrais e cultura. Kwanzaa significa "primeiro fruto da colheita" na língua swahili. Foi criado em 1966 pelo Dr. Maulana Karenga, e vem sendo comemorado por mais de 18 milhões de pessoas no mundo, conforme o New York Times.
Kwanzaa é comemorado de 26 de dezembro a 01 de janeiro e tem como base o Nguzo Saba que é o guia de cerimônia dos sete princípios, um para cada dia de cerimônia, que são:
Umoja (União) – acentua a importância da companhia para a família e a comunidade, a qual é refletida no dizer Africano, "Eu sou nós" ou "Eu sou porque nós somos".
Kujichagulia (Auto-determinação) – requer que nós definamos nossos interesses comuns e tomemos decisões que estão no melhor interesse de nossa família e comunidade.
Ujima (Trabalho coletivo e responsabilidade) – lembra-nos de nossa obrigação com o passado, presente e futuro, e que nós temos um papel a desempenhar na comunidade, sociedade e mundo.
Ujamaa (Cooperativas econômicas) – realçam nossa economia coletiva, reforçam e encorajam-nos a reunir necessidades comuns através da ajuda mútua.
Nia – Propõe-se a encorajar-nos a olhar para dentro de nós mesmos e nortear metas que são proveitosas para a comunidade.
Kuumba (Criatividade) – faz usar de nossa energia criativa para construir e manter uma comunidade forte e vibrante.
Imani – Focaliza a crença na honra de nossas melhores tradições, aproxima o melhor em nós mesmos, e ajuda-nos a lutar por um nível mais alto de vida para a humanidade, pela afirmação do nosso próprio valor e confiança na nossa habilidade para conseguir e triunfar na luta justa.
A Kwanzaa Karamu ou “festa Kwanzaa” é tradicionalmente realizada em 31 de dezembro. Este é um evento muito especial visto que é o Kwanzaa que leva-nos ao mais íntimo de nossas raízes. O Karamu é uma obra popular e cooperativa. Expressões de formalidade e cultura são altamente encorajadas. A comida deverá ser colocada criativamente no chão e feito acessível para todos se servirem. Antes e durante a festa, um programa informativo e de entretenimento deve ser apresentado. Tradicionalmente, o programa implica em boas vindas, recordações, reavaliações, reempreemdimentos e júbilo, concluído por uma declaração de despedida e um chamado por maior união. O dar presentes durante Kwanzaa deve ser luxuoso e de natureza educacional ou artística. A Kuumba (criatividade) é grandemente encorajada. Presentes são usualmente trocados entre pais e filhos e tradicionalmente dados no primeiro dia de janeiro.
Kwanzaa é como uma ocasião, visto que nos providencia uma oportunidade para refletirmos sobre nosso passado africano e presente americano. Enfim, uma comemoração que surge para trazer sentimentos verdadeiros numa época em que só se pensa nos presentes que podemos dar ou ganhar.

Pùpó Àṣẹ gbogbo!
____________________________________________
Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 31. Bellgrado. 20/Dezembro/2007. Pág. 16

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

QUEM É O AXERÊ?

Àgo ye égbon!
Pouco se discute sobre o axerê e seu papel na nossa religião, embora existam muitas teorias e explicações para sua existência. Muitos acreditam que o axerê é o Orixá em estado infantil e por isso cobrem-lhe de brinquedos e badulaques, mas se fizermos uma análise epistemológica de seu comportamento teremos também outras idéias a seu respeito.
Existe uma tremenda confusão a respeito da palavra que o identifica: axêro, axerê, axerêo, axêre, são alguns dos termos pronunciados pelos africanistas gaúchos. Este termo existe só no Rio Grande do Sul e é derivado de uma palavra da língua iorubá. Carlos Galvão Krebs, um dos primeiros antropólogos gaúchos a pesquisar o batuque foi até a Bahia se encontrar com o mais que conhecido etnólogo francês Pierre Fatumbi Verger. Ao se deparar com a palavra axerê, coletada na comunidade afro-gaúcha, Verger extasiado diz: “Mas isso é iorubá” – mostrando um dicionário dessa língua.
De fato, em seu livro Orixás (VERGER, 1997, pág.139), Verger aponta a expressão o se bí asiwère (o xe bi axiuerê) que quer dizer "ele porta-se como um louco". Então axerê (corruptela de axiuerê) significa “louco”. Alguns podem contestar isso mas prestem mais atenção ao comportamento dos axerês: eles sempre invertem as localizações e alguns objetos substituindo as palavras originais pelo seu antônimo, por exemplo: dizem frente quando se referem aos fundos, encima quando é embaixo, luva ao invés de meias; palavrões no lugar de expressões comuns; sempre falam no tempo passado para acontecimentos do presente (ao invés de “é” eles dizem “era”); e tantas outras “loucuras” que vemos nas casas de religião.
No entanto, quase a totalidade dos africanistas afirmam ser o axerê uma criança. Existe até mesmo uma explicação com certa lógica com base num estudo superficial da semântica da palavra: axerê seria a contração, muito recorrente na língua iorubá, de duas palavras -> axé (energia imaterial divina) + erê (criança), ou seja, axé de erê ou de criança. De fato, todos os pesquisadores sempre aludem esta questão.
Norton Correia em seu livro O Batuque do Rio Grande do Sul, afirma que eles agem “[...] como crianças de 3 anos, os axerês mostram comportamento tipicamente infantil: ar abobalhado, olhos semi-arregalados, boca entreaberta.” (CORREA, 2006, pág.123) Mônica Buonfiglio também diz que “[...] o noviço toma uma forma infantil [...]”, no seu livro Orixás! (Buonfiglio, 1995, pág.112); e até mesmo Verger, em suas observações dos ritos de Xangô na Nigéria, diz que é “[...] um estado de langor, de abatimento e sonolência, durante o qual se entrega a atos de caráter infantil [...]”. (Op.cit.) Contudo, os termos “agem como”, “toma uma forma” e “atos de caráter” são claramente explicativos, pois esses pesquisadores concluíram que os axerês se portam como se fossem crianças, mas não afirmam que o são.
Já para os praticantes do Candomblé o axerê é na realidade “um tipo de entidade infantil” que tem relação com o Orixá da pessoa mas que não é o mesmo. São entidades distintas: o Orixá é uma coisa, o Erê (nome pelo qual é chamado no Candomblé) é outra.
E para quê serve o axerê?
O elégùn (“cavalo-de-santo”) quando ocupado pelo Orixá, segundo Verger, está num “[...] estado de exaltação e veemência enérgicas e autoritárias [...]”. O rigor físico provocado pelo Orixá manifestado impossibilita o funcionamento natural do organismo, então o axerê, antes de tudo, serve como relaxamento inclusive para a normalização de algumas funções fisiológicas interrompidas durante o transe. Quando em axerê, o Orixá pode comer e beber, se descontrair, enfim, socializar-se.
Norton Correia foi o pesquisador que mais se dedicou ao estudo dos axerês dedicando algumas páginas no seu célebre livro. Segundo ele, o axerê é um estado intermediário entre a ocupação e o normal. Perguntada por ele sobre o que é o axerê, Mãe Ester de Iemanjá diz o seguinte:
“É o mesmo santo, mas fica assim como criança, nem cá nem lá, nem é mais orixá, mesmo, nem é gente”.
Pùpó àse gbogbo!

____________________________________________
Referências Bibliográficas
BENISTE, José. As águas de Oxalá: (àwon omi Ósàlá). 3ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 336p.
BUONFIGLIO, Mônica. Orixás! São Paulo: Oficina Cultural Mônica Buonfiglio, 1995. 183 p.
CORRÊA, Norton F. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992. 289p.
SILVEIRA, Hendrix. A cultura religiosa dos iorubás: do surgimento à diáspora. Porto Alegre: Monografia/FAPA, 2004
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e Novo Mundo. 5.ed. Salvador: Corrupio, 1997. 295p.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Racismo

OS NEGROS TAMBÉM SÃO RACISTAS?*

Àgo ye égbòn!

No último artigo eu expliquei o que era o ORKUT e como ele funcionava. A minha intenção é que aquele artigo sirva de introdução aos artigos subseqüentes (incluindo esse), pois vou falar constantemente sobre os debates e discussões que tenho assistido nas mais de 70 comunidades de que participo. Uma das discussões mais recentes é sobre a entrevista da ministra Matilde Ribeiro da Secretaria de Promoção Para a Igualdade Racial (SEPPIR) para a BBC Brasil. Nesta entrevista a ministra teria dito que é natural o racismo do negro em relação ao branco.
O jornalismo brasileiro não perdeu tempo. Num momento em que se discutem políticas públicas para negros na tentativa de igualar as suas chances e diminuir o abismo social entre eles e os brancos, a imprensa caiu “de pau” encima da ministra com a intenção exclusiva de desqualificar seu discurso e destituir de importância o papel da SEPPIR no cenário político-social do país. Ora, o jornalismo brasileiro sempre foi tendencioso e é corrente que nossas elites se aproveitem dele para iludir o povo e se manterem hegemonicamente no poder. Para isso é imprescindível que o sistema que regula e organiza a nossa sociedade seja sempre o mesmo. Esse sistema é invisível, porém presente em todas as esferas da sociedade; é possível qualificá-lo pois nosso sistema social privilegia quem for branco, homem, heterossexual e católico. Isso significa que quem não tiver estas características está fora do sistema, ou seja, não tem privilégios.
Os negros são discriminados pelos brancos desde que a Europa invadiu a África. Para que os negros fossem escravizados sem pesar na consciência do branco, foi criado o RACISMO, primeiro com uma justificativa religiosa (pois eles teriam essa cor de pele por castigo de deus), mais tarde com a abolição da escravatura no mundo e com o advento do evolucionismo e do positivismo, a justificativa seria científica para a superioridade de brancos sobre negros. Este é o conceito de racismo.
Muitos pensam que racismo, preconceito e discriminação são a mesma coisa. Esse tipo de erro é que provoca interpretações confusas sobre as relações étnico-raciais. A primeira coisa que devemos compreender é que o racismo contém preconceito e discriminação, mas o inverso não. Racismo é quando integrantes de um grupo racial acredita ser superior a outro ou outros grupos. A sociedade branca há centenas de anos, convicta de sua superioridade diante dos negros, os relega a posições sempre subalternas nesta mesma sociedade. Isso é fácil de evidenciar, pois vemos muitos negros desempenhando o papel de garis, seguranças, domésticas, pedreiros, engraxates... Além de que a maioria dos desempregados são negros. Mais de 75% da população carcerária é negra... Por outro lado é mínima a participação de negros em cargos de executivos, empresários, médicos, juízes, diretores em empresas, professores universitários.
Com tudo isso agora fica fácil entender que na realidade o discurso da ministra Matilde Ribeiro é para salientar o fato que, devido ao histórico de opressão de negros pelos brancos, é compreensível que alguns desenvolvam atitudes preconceituosas e até xenófobas com relação a brancos. É importante, então, que todos nós devamos ter consciência disso, pois a luta contra o racismo é muito mais difícil do que se pode imaginar já que está inserido em nossa própria cultura – a cultura de acreditar que ser branco é melhor que ser negro.



Pùpó àse gbógbó!

___________________________

* Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 25. Bom Axé Ed. Maio/2007. Pág. 28

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

TEOLOGIA E FILOSOFIA AFRO-BRASILEIRA


Àgo ye ègbon!

As religiões de matriz africana estão alcançando patamares nunca antes alcançados junto às universidades nacionais e internacionais. No passado a religião era vista como um objeto a ser estudado pelos pesquisadores burgueses brancos para conquista de seus títulos em mestrados e doutorados, sempre vendo a religião como algo exótico a ser observado como num zoológico. Geralmente imbuídos por sentimentos eurocêntricos, esses pesquisadores classificavam as religiões de matriz africana como meras seitas anímicas praticadas por negros apedeutas com religiosidade limitada.
Hoje, contrariando todas as estatísticas, vemos nossos irmãos dentro da academia, dentro das universidades, fazendo pesquisas e aparecendo como produtores intelectuais mostrando o Batuque, o Candomblé e a Umbanda com uma visão “desde dentro” como trata Juana dos Santos em seu livro “Os nagô e a morte” (Vozes, 2002). E são muitos os pesquisadores sérios que produzem um material que exprime o pensar da religião africanista a partir de princípios interiorizados na prática do saber acumulado por nossos ancestrais. São Geógrafos, Historiadores, Sociólogos, Psicólogos, Jornalistas, Assistentes Sociais, Biólogos, Pedagogos, Antropólogos, Etnólogos, todos povo do axé. No entanto, o que mais precisamos são de Teólogos, sobretudo aqueles que pensam uma Teologia Afro-Brasileira.
No conceito cristão, Teologia seria a ciência cujo objeto de estudo é o deus bíblico. Como não é possível estudar diretamente um objeto que não vemos e não tocamos, então estuda-se esse deus a partir da sua revelação que seria a própria bíblia. Outro conceito é o de Platão que definiu Teologia como sendo um estudo da natureza divina de forma racional.
Mas e o que seria Teologia Afro-Brasileira?
“É o estudo teórico da concepção de transcendentalidade na cosmovisão africana e sua práxis antropotheogônica afro-brasileira na sua dimensão intercultural”. Essa é a definição do Prof. Jayro Olorodê Ogiyan Kalafor Pereira, baiano da Ilha de Itaparica, iniciado para Oxogiyan no Ilê Axé Opô Afonjá, hoje ligado ao Ilê Alaketu; mestre em Teologia, especialista em Culturas Africanas e Relações Interétnicas na Educação Nacional, bacharel em Filosofia e licenciado em Ciências Religiosas. Ele é o único teólogo acadêmico a desenvolver uma Teologia genuinamente afro-brasileira.
Há cerca de quinze anos o Prof. Jayro fundou o Egbé Òrun Àiyé, uma associação para estudos da Teologia e da Filosofia das culturas negras, com o objetivo de proporcionar aos religiosos de matriz africana uma compreensão melhor sobre suas práticas e vivências. Em meados de 2003, após ter atuado em outros estados como Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, o Egbé chegou ao Rio Grande do Sul onde foi aclamado e recriado como seccional estadual. Depois de um período de amortecimento, o Egbé/RS retorna revigorado e à toda prova.
A religião de matriz africana, com o passar do tempo, perdeu muito de seus componentes teóricos. Os africanistas faziam rituais e liturgias por pura repetição sem ter o conhecimento dos porquês de suas realizações. Muitos dos antigos sacerdotes ao serem questionados sobre o sentido de se fazer um ritual, geralmente respondiam de forma evasiva, afirmando serem segredos ou que ainda não estava na hora de aprender o que na realidade nunca ensinavam. Ou pior! Por não saber, e para evitar a debandada de filhos, inventavam teorias sem pé nem cabeça, ou se apropriavam de teorias de outras confissões religiosas, muitas delas sem nada a ver com o que praticamos.
O Egbé vem nesse sentido preencher essa lacuna.
Entendemos que o batuque é uma religião negra, de origem africana, adaptada ao Rio Grande do Sul. Entender a religião desse modo, nos faz querer fortalecer essa identidade. E a fortalecemos se os complexos teóricos forem pensados a partir da cosmovisão africana.
Algumas pessoas, no entanto, receosas que são, desacreditam o nosso trabalho afirmando que queremos degradar o batuque ou que tentamos “candomblenizá-lo” ou ainda que estudando Teologia e Filosofia criaremos outra religião.
Mas quanta bobagem dita por quem nem sequer nos dá a honra de visitar-nos em nossos encontros e eventos.
Nossa intenção não é diminuir os poderes dos Pais e Mães-de-santo sobre seus filhos, mas garantir a todos os vivenciadores do batuque um conhecimento mais aprimorado sobre aquilo que eles mesmos praticam. O estudo da Teologia afro-brasileira só trará subsídios positivos, agregando ao batuque componentes teóricos que lhe foram negados historicamente e que podem até mesmo nos servir efetivamente no enfrentamento aos ataques de neopentecostais.

Púpò àse gbogbo!
__________________________________
Sugestão de leitura
“Os nagô e a morte: pàde, asèsè e o culto égun na Bahia”
de Juana Elbein dos Santos.
Tese de doutorado em etnologia defendida em Sourbonne, França. É o mais profundo estudo feito sobre a natureza dos Orixás e dos Eguns. Base eloqüênte para o estudo teológico afro-brasileiro.
__________________________________
Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 37. Bellgrado. Agosto/2008. Pág. 24

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

HISTÓRIA DOS NEGROS NO RIO GRANDE DO SUL


Ago iyè egbón!

Há dois séculos atrás, os navegantes que se dirigiam à Colônia do Santíssimo Sacramento pensavam que a embocadura da Lagoa dos Patos fosse a foz de um grande rio. Foi Martin Afonso de Souza o primeiro a fazer este caminho, em 1530, com o intuito de demarcar o território português na América, chamando o lugar de Rio Grande de São Pedro, em função de ele ter alcançado este local no dia de São Pedro (29 de junho) segundo alguns historiadores ou pelo naufrágio de um dos barcos que o acompanhava cujo capitão era seu irmão, Pero (que no português arcaico significa Pedro).
Mas o primeiro registro de transposição da Barra do Rio Grande é de 1737, quando o Brigadeiro José da Silva Paes chegou para construir a fortificação de madeira denominada de Forte Jesus-Maria-José, onde hoje é a cidade de Rio Grande. O forte ficava a meio caminho entre Sacramento e Laguna, a cidade portuguesa mais ao sul do Tratado de Tordesilhas, e servia como base para descanso e abastecimento. O forte é o marco inicial da colonização portuguesa nas terras gaúchas, apesar de este território só ter sido anexado ao reino português em 1750. Junto com o Brigadeiro vieram um contingente de negros escravizados para a construção desse forte, pois, segundo Mário Maestri, eram os negros quem desenvolviam as atividades de construção civil e dos fortes, assim como estradas, etc.
A partir de 1777, ocorre uma grande seca no Ceará, principal produtor de charque – a comida dos cativos. Com isso, um português chamado José Pinto Martins se muda para a Freguesia de São Francisco de Paula, às margens do Arroio Pelotas, em 1780, trazendo consigo toda uma infra-estrutura propícia para a produção do charque nesta província. Junto com Martins vem toda sua escravaria, sendo esse considerado o marco inicial da presença negra no estado, o que é um engano como já vimos.
Logo surgiriam 37 outras charqueadas em todo o estado fazendo dessa a principal fonte de economia da região. Nesta época, toda a base da economia está na lógica escravista, por isso ter um escravo é mais uma questão de status do que de realmente necessidade de mão-de-obra. É por isso que os estancieiros e charqueadores – apesar da proximidade com o Uruguai onde a produção do charque é através de mão-de-obra livre – preferem a mão-de-obra escravizada, como indaga Fernando Henrique Cardoso na sua obra “Capitalismo e escravidão no Brasil meridional”.
Segundo Tau Golin, a indústria do charque foi tão importante para a economia gaúcha que o seu déficit é um dos motivos que geraram a Guerra dos Farrapos. Não menos importante é a mão-de-obra, pois os mesmos estancieiros que se insurgiram contra o Império do Brasil, ao contrário do que se costuma dizer, mantiveram sua escravaria em cativeiro ou foram levados para o Uruguai, onde seu patrimônio estaria protegido. A questão é simples: os farroupilhas nunca foram abolicionistas como afirmam certos seriados televisivos. No entanto, a sedução com promessas de liberdade aos escravizados do império que lutassem pela causa farroupilha foi uma constante. Com efeito, muitos negros engrossaram as fileiras das tropas de lanceiros atuando na infantaria e na cavalaria. De fato as tropas de lanceiros negros foram cruciais em todas as batalhas durante os dez anos de rebelião. Com o fim da guerra as promessas não foram cumpridas e os negros que sobreviveram representavam um grande perigo para o Império, pois agora que estavam militarizados poderiam se revoltar e os senhores de escravos não queriam que acontecesse aqui o que houve no Haiti. Foram enviados para o Rio de Janeiro para se manterem como escravos do Império sendo separados e remetidos para outras províncias.
O processo se repete com a Guerra do Paraguai (1865-1870): os negros escravizados são arregimentados no exército com a promessa de liberdade e, como se não bastasse isso, os senhores ricos cujos filhos haviam sido convocados para a guerra, enviavam seus escravizados para lutarem no lugar deles.
Em 1884, a Província de Rio Grande de São Pedro do Sul abole a escravidão em todo o seu território. Mas essa abolição não ocorreu de fato, pois para ganharem suas cartas de alforria, os negros deveriam trabalhar por cerca de cinco anos para pagarem as despesas que pretensamente seus antigos senhores julgavam ter tido com eles. A abolição de fato só ocorre em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.
A História nem sempre é o que está nos livros que usamos nas escolas de ensino fundamental. Também não são as novelas ou minisséries que assistimos na televisão. A História está sempre em movimento, está sempre sendo relida e reinterpretada. Ela não é estanque e imutável como costumamos julgar. Sobretudo, devemos reler a História para entendermos melhor a nossa sociedade de hoje, pois tudo o que somos é o fruto de nossa própria História.

Pùpo àse gbogbo!
_________________________________
Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 22. Enebe. Janeiro/2007. Pág. 02

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O SINCRETISMO É NECESSÁRIO?


Ago iyè egbóns!


Uma grande discussão que se faz entre os intelectuais do batuque hoje em dia é em torno do sincretismo religioso. Esses intelectuais se perguntam se a religião de matriz africana deve ou não propagar a idéia sincrética.
Mas afinal o que é sincretismo? É a fusão de crenças e práticas religiosas distintas, assim como de culturas decorrente das conquistas de um povo sobre outro, fato muito comum na antigüidade. Quando Alexandre o Grande (séc. IV a.C.) dominou o Egito se autoproclamou faraó, assumindo uma descendência divina, assim como em cada povo que ele conquistou. Outro exemplo é o Império Romano que trocava deuses com os povos vencidos para promover uma melhor aceitação de seu domínio. O fato é que religiões a serviço de Estados desenvolvem uma atitude de tolerância na relação com os povos submetidos para que assim possam dominá-los.
O professor de História da UFRGS Luiz Dario Ribeiro, em curso de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na FAPA, salientou que a igreja católica, para dominar a Europa pagã que cultuava a Deusa Mãe em várias regiões, teve que substituí-la pela Virgem Maria, afim de se auto-afirmar como religião dominante, o que fez surgir as mais de 400 denominações para a santa. Essa idéia se manteve durante todo o período em que esta vertente cristã foi partícipe do poder político dos Estados europeus e posteriormente nas colônias americanas.
No Brasil não foi diferente. A primeira tentativa e, aliás, bem sucedida foi com os indígenas. Em sua obra “1492: o encobrimento do outro”, Enrique Dussel afirma que “do ponto de vista de seu mundo mítico, depois da derrota, seus deuses haviam sido vencidos ‘no céu’, já que vencidos estavam os exércitos índios ‘na terra’, no campo de batalha. O imaginário indígena devia incluir – como era costume, por outro lado, os deuses vencedores”. Ou seja, era muito mais fácil impor a doutrina católica aos indígenas, pois fazia parte da cultura deles adotarem os deuses dos povos que os dominassem. O mesmo não ocorria com certas etnias africanas que possuíam uma cultura muito forte, como os iorubás.
Parece obvio que foram os padres quem introduziram os santos católicos na religião africana para fomentarem a crença cristã nos escravizados. Inteligentemente esses negros fingiram aceitar isso para que assim pudessem praticar sua religião sem ser incomodados pelos capatazes. Apesar disso existe uma vertente de estudiosos que disseminou a crença de que o sincretismo partiu dos próprios africanos para poderem esconder os assentamentos dos orixás. Essa teoria me parece um tanto frágil, afinal como poderiam esses africanos conhecer os santos católicos tão bem para fazer as associações? Os defensores dessa teoria não sabem a resposta, apenas se defendem afirmando que ser contra essa teoria é acreditar que eles não eram inteligentes o suficiente para fazerem isto, o que, a meu ver, é uma atitude evasiva dos que querem defender na verdade a igreja católica, a verdadeira culpada por criar e manter o sincretismo. É extremamente conveniente para a igreja que o sincretismo se perpetue, assim eles sempre terão as igrejas cheias nos dias de Santo Antônio, São Jorge e na passeata de Navegantes mantendo a esperança de converter os pagãos (nós) à religião única e verdadeira: o cristianismo.
Os pejis, assim como nossas liturgias, estão cheios de sincretismo. O “quarto-de-santo” era na verdade um oratório católico existente até hoje nas antigas casas de fazendeiros, onde tinham um altar expondo santos católicos em prateleiras. Esses oratórios existiam em todas as casas porque as igrejas ficavam muito longe e era comum o padre vir celebrar casamentos e batizados nas casas desses ricos fazendeiros. Havia um quarto-de-santo também nas senzalas, que logo foram utilizados para esconderem os assentamentos dos orixás. Eles simplesmente escondiam os orixás embaixo do santo que os próprios padres lhes ensinaram que eram representados. Por isso se mostrarmos aos mais velhos da religião uma imagem de Santo Antônio, São Jorge ou Nossa Senhora dos Navegantes e lhes perguntarmos quem são, eles dirão com plena convicção que se trata de Bará, Ogun e Yemanjá.
Outro sincretismo está nos dias de comemoração dos orixás. O dia de Bará não é 13 de junho, assim como o de Ogun e Yemanjá não são, respectivamente, 23 de abril e 2 de fevereiro. Esses são dias dos santos católicos. Os dias de nossos orixás são aqueles em que se comemoram o aniversário de seu assentamento, e isso varia de filho para filho, de casa para casa. A obrigação da semana santa também é sincrética, afinal a semana é santa para católicos, porquê o batuqueiro tem que celebrar a paixão de Cristo, o sábado de aleluia e o domingo de páscoa? Outro exemplo são os próprios assentamentos dos orixás: no de Bará vai uma chave, objeto que São Pedro carrega em mãos nas imagens; a ferradura de Ogun deve ser referente ao cavalo de São Jorge; a coroa e a taça são de Iansã ou de Santa Bárbara? No de Xangô tem um livro e uma caneta, objetos de São Jerônimo; na vasilha de Obá encontramos uma roda e uma navalha, o flagelo de Santa Catarina; e por aí vai.
O leitor deve ter percebido que eu estou falando, verdadeiramente, é de identidade. O batuqueiro tem sua própria identidade e pratica uma religião que é cem porcento independente de qualquer outra. A nossa religião não precisa de imagens católicas, de prateleiras cobertas com cortinas para esconder nossos orixás, nem de batismos e casamentos em igrejas. Assuma a tua identidade enquanto batuqueiro. Batize teus filhos no teu ilê com teu sacerdote, afinal, como diz meu pai-de-santo, se a religião é boa pra ti porque não é para teus filhos? Case com as bênçãos dos orixás do teu ilê e não com a bênção de um deus discriminatório e preconceituoso; cumpra com tuas obrigações e adore a divindade que está no ocutá, não a imagem de gesso.
Não há mais a necessidade de mantermos esse sincretismo. No passado ele serviu para nos proteger, mas hoje ele só faz diminuir a nossa religião. Existem aqueles que não reconhecem a necessidade de uma releitura em nossos fundamentos. Eles são adeptos do uso do tradicional, ainda que essa tradição tenha sido deturpada ao longo dos séculos. Eles pensam que mudança é sinônimo de destruição, mas pensem comigo: qual é a tradição mais antiga, a de cem anos atrás ou a de mil anos atrás?
Reafricanizar é tornar as religiões de matriz africana o mais próximo possível da própria África. Isso não a destruirá, pelo contrário, a fortalecerá enquanto cultura, enquanto religiosidade, enquanto identidade.

Pùpó asé gbógbó!

_________________________________
Artigo publicado na Revista Bom Axé. Edição 17. Enebe. Janeiro/2006. Pág. 12

terça-feira, 29 de abril de 2008

EVANGÉLICOS VERSUS BATUQUE

LEI DE EVANGÉLICOS TENTA DERRUBAR MAIS UMA VEZ OS BATUQUEIROS
Àgo ye ègbón!

Os evangélicos não perdem tempo. Desta vez foi na Câmara de vereadores de Porto Alegre, onde os vereadores Sebastião Melo (PMDB) e Beto Moesch (PPB) criaram o projeto de lei nº 91/04, que institui o programa de proteção aos animais domésticos. Segundo essa lei, uma de suas finalidades é evitar o sacrifício de animais domésticos, promovendo uma esterilização gratuita em massa.
Os vereadores que discursaram a favor da lei falavam em gatos e cães, e que a intenção era a do controle de zoonoses (doenças transmissíveis por animais a seres humanos) e da superpopulação, mas na verdade a lei não especifica quem são os animais domésticos, e isso inclui galináceos (galo, galinha), caprinos (bode, cabra, cabrito), ovinos (carneiro, ovelha) e suínos (porco, leitão). O método de esterilização é a castração, ou seja, mutilação dos testículos desses animais. Ora, todo o mundo sabe que essas são partes sagradas constituintes do que chamamos inhelas e que se forem retiradas os animais não poderão ser sacralizados. Mais um golpe sujo da bancada evangélica que tenta utilizar meios políticos para nos derrubar. A lei deveria ter sido votada desde a semana anterior e estava sendo acompanhada de perto pelas entidades de proteção aos animais. Só fiquei sabendo disso no próprio dia da votação (14 de dezembro) quando entrei em contato com o Baba Dyba de Yemanjá, vice-presidente do CEDRAB (Congregação em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras) e corri para a Câmara. Lá já estavam Pai Nilson de Oxum, Pai Áureo de Ogum, Mãe Vera de Iansã, Jorge Verardi e outros, porém em menor número que os representantes das ongs de proteção aos animais. Baba Dyba chegou mais tarde.
Em meio aos debates que antecederam a votação, o ver. Adeli Sell (PT) fez um discurso inflamado avisando aos berros que “esta casa (a câmara) não aceitará a mesma pressão que a Assembléia sofreu”, aludindo a nossa vitória contra a lei do dep. Manoel Maria. O impressionante é como os vereadores, na pressa em se manifestarem diante do público, falam coisas grotescas como “tratando bem dos animais, trataremos bem as pessoas”, não estabeleci ainda qual a relação, mas... Outro vereador chegou ao ridículo de homenagear sua cadela em plena plenária. Clênia Maranhão (PPS) defendeu o projeto e criticou as culturas que, segundo ela, maltratam os animais. Ela disse se referir à farra do boi em Santa Catarina, mas sabemos qual era a cultura a que ela se referia verdadeiramente. Nereu D’Ávila (PDT) foi amplamente a favor prevendo inclusive a aprovação do projeto, no seu discurso de mais de seis minutos só acrescentou quatro palavras de defesa da religião: “ressalvando a questão religiosa”.
O ver. Raul Carrion (PCdoB) apresentou e defendeu sua emenda que inclui o parágrafo único ao artigo 1º que defende nossa religião: “Não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias religiosas”, que foi defendida, também, por Maristela Maffei (PSB) e Manuela D’Ávila (PCdoB), que fez um discurso impressionante de defesa das religiões de matriz africana, aludindo aos preconceitos que vivenciamos.
Na votação, 21 vereadores votaram a favor da emenda e 6 votaram contra, entre eles Adeli Sell, Margarete Moraes (PT) e Haroldo de Souza (PMDB). Sebastião Melo foi a única abstinência.
Com a vitória, vários vereadores vieram cumprimentar os líderes africanistas presentes, entre eles Haroldo de Souza que estendeu sua mão para a Mãe Vera (Epaieio). Não havendo reciprocidade ficou furioso e passou a gritar batendo no peito: “Vai bater tambor pra mim! Vai bater tambor pra mim!”, o que indignou os presentes. Não se dando por satisfeito foi atrás da comitiva nos corredores aos berros, xingando e discutindo a ponto de os seguranças virem segurá-lo.
O episódio seria hilário se não fosse trágico. A expressão “vai bater tambor pra mim” tem nitidamente caráter pejorativo e discriminatório, já que a sociedade cristã associa “bater tambor”, macumba e batuque com feitiçaria, bruxaria, enfim, fazer o mal para os outros.
Apesar de tudo, os orixás obtiveram mais esta vitória contra a intolerância religiosa provocada pelos evangélicos que estão no poder. Até quando vamos ficar a mercê desses intransigentes?

Púpò àse gbogbo!

terça-feira, 22 de abril de 2008

NEOLIBERALISMO E SACERDOTE AFRICANISTA

Àgo ye ègbón!
O que mais se critica atualmente são os babalorixás e yalorixás que cobram por seus serviços. É de comum acordo entre os praticantes da religião africana, que seus sacerdotes não deveriam, cobrar uma consulta ou trabalho feito para alguém. Entretanto, quase não se tem notícia dos que não cobram.
Conversando com colegas do curso de História, na FAPA, ouço críticas parecidas e até controversas. Certa vez um colega contestou a cobrança, afinal a religião não era para ser comunitária? Noutro dia outra colega, demonstrando intransigência, me perguntou como pode uma pessoa pobre ajudar alguém, se não consegue nem mesmo ajudar a si própria? Só que pouco antes disso ela afirmava que “um pai-de-santo que cobra por seus serviços não merece credibilidade.” Em seguida ela disparou: são todos charlatães! Indagada sobre a generalização, ela corrige: “... uns 80 porcento são!”
Afinal um sacerdote deve ou não viver da religião? A resposta é sim! O sacerdócio é uma profissão como qualquer outra. Os padres vivem da igreja, assim como os pastores, rabinos e gurus. Não há argumentos convincentes para o não exercício do sacerdócio como uma forma de ganhar a vida.
A caridade nunca fez parte da ideologia dos sacerdotes africanos. A noção de cobrança e pagamento sempre existiu no fundamento da religião. A diferença está na espécie de pagamento. Os súditos iorubás sempre pagaram tributos ao seu rei. Este, por sua vez, devolvia esses tributos em forma de grandes banquetes públicos em homenagem aos orixás. Exatamente como fazemos hoje nas festas de batuque.
O sacerdote africanista representa, em Porto Alegre, a aglutinação desses dois cargos africanos: o sacerdote e o rei. Como sacerdote ele empregará os conhecimentos religiosos que possui na ajuda às pessoas. Como rei ele devolverá os “tributos” cobrados por esses serviços em forma de siré aos orixás.
O princípio espírita de caridade foi introduzido no pensamento de babalorixás e yalorixás através de seu envolvimento com a umbanda. Hoje contemplamos sacerdotes que praticam tanto o africanismo quanto a umbanda em seus terreiros, fazendo uma miscelânea de dogmas e conceitos que acabam por confundi-lo e aos seus seguidores.
O neoliberalismo é a ideologia que justifica e defende os princípios do capitalismo, baseado na propriedade privada, na liberdade de empresa, cujo objetivo fundamental é o lucro individual, constituindo-se em expressão máxima do individualismo. Essa doutrina foi introduzida no Brasil a partir do governo Collor e ganhou força no governo FHC. Os sacerdotes de hoje, inseridos nesse contexto econômico, buscam o que qualquer brasileiro tem como meta: o enriquecimento.
A busca pelo acúmulo de capital ou lucro é comum na sociedade brasileira, mas quando se trata de pais ou mães-de-santo a discussão se eleva às dimensões filosóficas. Ou seja, “todo o mundo pode ganhar dinheiro com o que faz, exceto os babalorixás e yalorixás”.
Vamos refletir um pouco: um dos conceitos básicos capitalistas é que a pessoa vende sua força de trabalho para alguém que paga por esse serviço. Se inserirmos esse conceito nas religiões africanas, verificamos que o sacerdote é quem vende sua força de trabalho e o cliente é o contratante que paga por esse serviço. Cada um sabe o valor que tem e cobra o que acha justo pelo seu trabalho. Da mesma forma o cliente pagará o que achar justo de acordo com aquilo que ele procura.
O sacerdote africanista não tem que ser caridoso, na acepção usual da palavra. O que se faz necessário nos dias de hoje é uma consciência social. Ele deve participar ativamente da promoção de uma sociedade igualitária, onde o princípio da coletividade e da verdadeira democracia seja a pauta. Deve se engajar na luta contra o racismo, a intolerância religiosa, a segregação, questões tão evidentes nas sociedades cujo sistema político e econômico é o neoliberalismo.


Púpò àse gbogbo!
_________________________
Artigo publicado no Jornal Aruanda. Edição 0A. Enebe Editora Ltda. Outubro/2005. Pág. 02

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO

O COMBATE AO RACISMO VERSUS A HISTÓRIA
ou
A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO
Àgo ye ègbón!


Sou africanista. Isso significa que pratico uma religião cuja origem é africana. Nós, os africanistas, sempre fomos alvo das mais variadas discriminações. Constantemente somos perseguidos e rotulados por leigos, cientistas e, principalmente, religiosos de facções neopentecostais do cristianismo. Por esse motivo me dedico à pesquisa e estudo a cultura, religião e história da África. Foi o que me incentivou a ingressar no curso de História da FAPA.
Certa vez ouvi no programa Tele Curso 2000, na aula de História, que a cultura brasileira deve muito à presença dos africanos em nosso país. Que “os africanos arrancados de seu continente...” Epa! Espere aí! Podemos utilizar esta expressão se considerarmos que a obtenção de mão-de-obra escrava africana foi resultado de um comércio entre portugueses e os próprios africanos? Guerras intertribais já existiam na África e a escravidão era tão natural lá quanto era nos povos pré-colombianos ou na Ásia oriental, na antiga Roma, Grécia, Egito e nas civilizações mesopotâmicas – inclusive os Hebreus. A escravidão na África pré-européia “é um tabu” disse Gilberto Gil em um documentário sobre a vida do etnólogo francês Pierre Verger.
Ora, isso não é um tabu. É um fato histórico.
O professor baiano Jayro Pereira de Jesus (teólogo, pesquisador, africanista, negro e ávido combatente do racismo étnico no Brasil) afirmou, em um seminário ministrado em Porto Alegre, que é totalmente contra que se exponha a escravidão entre africanos para o grande público. Segundo ele isso serviria de argumento para fomentar ainda mais o racismo existente no país.
Mas pode a luta contra o racismo acontecer em detrimento da História? Não creio que devemos mascarar um fato histórico, mas, ao contrário situar este fato, as diferentes formas da escravidão na história do mundo, no seu contexto político, social e cultural. Para compreender o racismo europeu para com os africanos no período colonial, afinal não estamos aqui só para constatar o que existe, mas para compreender os processos, é imprescindível pensar no racismo como “ideologia” (superficialmente dizendo, quando você utiliza um discurso pretensamente científico para explorar o outro) e inserir este conceito no seu contexto histórico (acumulação primitiva de capital, colonialismo, teorias do determinismo geográfico, etc...).
Ou seja, o racismo no Brasil colonial era o discurso criado por pessoas que sustentavam as superioridades biológicas, culturais e morais da raça branca sobre a negra para, baseando-se nisso, justificar a utilização de mão-de-obra africana gratuita.
Como resultado deste processo o racismo ainda permanece entre nós, ainda que de forma mascarada e é exposto sempre que o branco se vê em situação de competição com o negro – lembremos do episódio entre a Marcela e a Solange no BBB4; a polêmica das cotas nas universidades; a negação de oportunidades para o crescimento social; etc.
Enfim acabamos por ter de fazer uma opção entre: se para combater o racismo devemos ter medo do fato histórico e ocultar a história ou se devemos tomar a própria história para empreendermos esta luta. Diante da questão, a resposta da Professora e Doutora em História Ana Inêz Klein em aula de Introdução aos Estudos Históricos é a que me dá a certeza do caminho que pretendo seguir: “Historiadores!”, disse-nos ela, “É, no mínimo, imperdoável para nós realizarmos uma análise desta questão que desconsidere a História!”.


Púpò àse gbogbo!
_________________________
Artigo publicado na Revista Bom Axé. Edição 16. Enebe. Dezembro/2005. Pág. 10
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...