quinta-feira, 17 de abril de 2008

A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO

O COMBATE AO RACISMO VERSUS A HISTÓRIA
ou
A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO
Àgo ye ègbón!


Sou africanista. Isso significa que pratico uma religião cuja origem é africana. Nós, os africanistas, sempre fomos alvo das mais variadas discriminações. Constantemente somos perseguidos e rotulados por leigos, cientistas e, principalmente, religiosos de facções neopentecostais do cristianismo. Por esse motivo me dedico à pesquisa e estudo a cultura, religião e história da África. Foi o que me incentivou a ingressar no curso de História da FAPA.
Certa vez ouvi no programa Tele Curso 2000, na aula de História, que a cultura brasileira deve muito à presença dos africanos em nosso país. Que “os africanos arrancados de seu continente...” Epa! Espere aí! Podemos utilizar esta expressão se considerarmos que a obtenção de mão-de-obra escrava africana foi resultado de um comércio entre portugueses e os próprios africanos? Guerras intertribais já existiam na África e a escravidão era tão natural lá quanto era nos povos pré-colombianos ou na Ásia oriental, na antiga Roma, Grécia, Egito e nas civilizações mesopotâmicas – inclusive os Hebreus. A escravidão na África pré-européia “é um tabu” disse Gilberto Gil em um documentário sobre a vida do etnólogo francês Pierre Verger.
Ora, isso não é um tabu. É um fato histórico.
O professor baiano Jayro Pereira de Jesus (teólogo, pesquisador, africanista, negro e ávido combatente do racismo étnico no Brasil) afirmou, em um seminário ministrado em Porto Alegre, que é totalmente contra que se exponha a escravidão entre africanos para o grande público. Segundo ele isso serviria de argumento para fomentar ainda mais o racismo existente no país.
Mas pode a luta contra o racismo acontecer em detrimento da História? Não creio que devemos mascarar um fato histórico, mas, ao contrário situar este fato, as diferentes formas da escravidão na história do mundo, no seu contexto político, social e cultural. Para compreender o racismo europeu para com os africanos no período colonial, afinal não estamos aqui só para constatar o que existe, mas para compreender os processos, é imprescindível pensar no racismo como “ideologia” (superficialmente dizendo, quando você utiliza um discurso pretensamente científico para explorar o outro) e inserir este conceito no seu contexto histórico (acumulação primitiva de capital, colonialismo, teorias do determinismo geográfico, etc...).
Ou seja, o racismo no Brasil colonial era o discurso criado por pessoas que sustentavam as superioridades biológicas, culturais e morais da raça branca sobre a negra para, baseando-se nisso, justificar a utilização de mão-de-obra africana gratuita.
Como resultado deste processo o racismo ainda permanece entre nós, ainda que de forma mascarada e é exposto sempre que o branco se vê em situação de competição com o negro – lembremos do episódio entre a Marcela e a Solange no BBB4; a polêmica das cotas nas universidades; a negação de oportunidades para o crescimento social; etc.
Enfim acabamos por ter de fazer uma opção entre: se para combater o racismo devemos ter medo do fato histórico e ocultar a história ou se devemos tomar a própria história para empreendermos esta luta. Diante da questão, a resposta da Professora e Doutora em História Ana Inêz Klein em aula de Introdução aos Estudos Históricos é a que me dá a certeza do caminho que pretendo seguir: “Historiadores!”, disse-nos ela, “É, no mínimo, imperdoável para nós realizarmos uma análise desta questão que desconsidere a História!”.


Púpò àse gbogbo!
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Artigo publicado na Revista Bom Axé. Edição 16. Enebe. Dezembro/2005. Pág. 10

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