quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

QUEM É KAMUKÁ?

Àgo ye ègbón!

Existem três temas muito freqüentes nas discussões nas comunidades sobre religiões afro-brasileiras do Orkut: a balança, saber ou não que se ocupa e o Orixá Xangô Kamuká. O texto a seguir é parte de uma das discussões mais qualificadas de que já participei. Tentar falar sobre este Orixá tão introspectivo não é uma tarefa das mais fáceis para mim tendo em vista que sou da Nação Ijexá.
Digo isso porque a Nação Ijexá não cultua esse Orixá. Xangô Kamuká é um Orixá exclusivo da Nação Cabinda por isso peço antecipadas desculpas aos cabindeiros por qualquer erro que eu possa manifestar no que concerne a prática, cultura, tradição ou fundamentos dessa divindade tão enigmática.
O que sei sobre Kamuká é o que aprendi aqui e ali, com o que os cabindeiros me falavam ou com pessoas de outros lados que conheciam alguma coisa dele, além do que li em poucos livros como o do escritor e Babalorixá Paulo Tadeu Barbosa Ferreira e o do Prof. Dr. Norton Figueiredo Corrêa, além do que é postado nos tópicos das comunidades do Orkut como: “Nação Cabinda”, “Batuque do RS” e “Sou Batuqueiro Sim e Daí”. E o que sei é que Kamuká só seria cultuado na cabinda e que nenhuma outra nação deveria ou poderia cultuá-lo, pois esse Orixá é o do fundador dessa nação.
O que sei também é que o assentamento desse Orixá é feito no balé, pois teria ele grande aproximação com eguns. Meu tio-avô carnal, Cláudio de Oxum Docô, falecido babalorixá de Cabinda me disse inclusive que nem devemos pronunciar esse nome (Kamuká) dentro de casa, pois poderia atrair algum tipo de mal, porém sou totalmente cético sobre isto. Dizem ainda que Kamuká reside no cemitério, mais precisamente no forno (lugar onde se cremam os ossos) e que, por conta disso, se prestaria só ao dano. Esses são alguns dos motivos pelos quais não se dá cabeça de filhos para esse Orixá (que a essa altura me pergunto se é Orixá mesmo).
Vejam bem, não estou afirmando nada, estou apenas relatando o que me contaram.
Por outro lado tenho minhas pesquisas históricas e o que encontrei é que, segundo Norton Corrêa, quem fundou a nação Cabinda em Porto Alegre foi um africano chamado Gululu. No entanto a insistência dos descendentes de Cabinda em afirmar que o surgimento dessa nação se dá com o Esá (título que se dá a pais e mães-de-santo falecidos) Valdemar Antonio dos Santos, me leva a questionar se Gululu e Valdemar não seriam a mesma pessoa.
Cabinda é uma região da África que já foi independente, mas que hoje é uma província de Angola. Seus habitantes são originários do tronco lingüístico bantu e são os Bakongo, Bauoio, Baluango, Basundi, entre outros. Gululu é um nome notadamente bantu.Acredito que Gululu seja oriundo de Cabinda, provavelmente bakongo, pois essa etnia veio traficada para o Brasil em grande quantidade. Os Bakongo (singular Nkongo) cultuavam os Nkisi, espíritos mágicos ligados à natureza ou aos ancestrais. Na metafísica dos bantu, os Nkisi pertenciam ao seu lugar de origem e jamais eram movidos de lugar. Por isso, quando eles vieram para o Brasil, seus Nkisi ficaram na África. A sua profunda religiosidade os fez, então, serem atraídos para as religiões que conheceram aqui no Brasil. O catolicismo e as crenças indígenas os influenciaram e sincretizando-as com suas próprias crenças acabaram por dar origem à tão conhecida religiosidade popular do brasileiro.
Os sudaneses (complexo cultural Jeje-Nagô) vieram em menor número durante todo o processo escravagista sendo que em grande quantidade só a partir de século XIX. Diferentemente das crenças bantus, na metafísica dos sudaneses para onde iam suas divindades e ancestrais os acompanhavam. Por isso, ao chegarem no Brasil, trouxeram consigo sua cultura religiosa. É bem provável que uma parte dos bantus também tenham migrado para a religião desses sudaneses cultuando os Orixás.
É possível que Gululu seja um desses africanos de origem bantu que aprendeu a cultura dos Orixás aqui no Brasil com sudaneses, mas resolveu fundar uma sociedade religiosa com negros originários da mesma região, batizando sua nação, então, de Cabinda. Isso explicaria a cultura de Orixás e Voduns na nação de Cabinda que deveria cultuar Nkisi, mas não o faz. Mas isso não explica o Kamuká no culto.
Existe em Angola - bem distante de Cabinda por sinal - uma etnia bantu denominada Mbundu/Kamuka (http://www.embaixadadeangola.org/cultura/linguas/l_mbunda.html). Isso não diz muito exceto que a origem do nome Kamuká, agora comprovadamente, é bantu. E se hipoteticamente Gululu for o nome africano de Valdemar já que os escravizados eram batizados com nomes ocidentais quando chegavam no Brasil? Daí a coisa começa a se encaixar. Kamuká pode ser um Nkisi nsi, espírito ancestral ligado a um clã familiar. Esse espírito pode ser de um ente falecido que volta incorporado num descendente seu. Como se vê, a cosmogonia dos bantus é bem diferente da dos sudaneses. Entre esses últimos, espíritos de ancestrais (eguns) e divindades (Orixás) não se misturam e só os Orixás é que podem tomar “emprestado” o corpo de um humano.
Agora refletindo: se Valdemar (ou Gululu) cultuava Kamuká por que este era o Nkisi nsi de sua família, fica explicado o porquê de Kamuká não pegar mais filhos, nem de poder baixar em alguém. Por outro lado, também fica explicado do porquê desse “Orixá” ser cultuado próximo ou junto ao balé, pois na cosmogonia iorubá Kamuká seria um egun.
Espero ter contribuído para despertar o interesse nessa pesquisa. Por outro lado peço paciência para comigo aos cabindeiros que cultuam Kamuká de forma diferente da descrita nestas poucas linhas e sobretudo aos que não são da Nação Cabinda mas que também cultuam esse grandioso Orixá.

Pùpó Àṣẹ gbogbo!

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QUEM É KAMUKÁ? Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 32. Bellgrado. Janeiro/2008. Pág. 10

8 comentários:

magda gonçalves disse...

achei interessante sua explicação sobre xango kamucá e resolvi postar um comentário mesmo se tratando de um artigo antigo,sou de nação cabinda e o que aprendi foi quase isso que xango kamucá não seria própiamente um orixá ou egum e sim um gardião da nossa nação e dos filhos dessa nação,tem sua feitura em balé por ser um ancestral.

antonio cristiano disse...

ola li asua explicação sobre o nosso rei e que eu aprendi que xango kmuká era um grande guerreiro que foi banido das outras nações por ser muinto "violento" omesmo que bara elegubara para muintos (leba). por este motivo ele fundou a nação cabinda junto de eleguibara .
por iso quando alades rezão para ele nos de cabinda nos curvaos em respeito a um grande rei.

antonio cristiano disse...

desculpe não identifiquei minhas raizes filho de santo de mãe neusa de ogun neto de pai daniel de oxum bisneto de pai enrique de oxum sou cristiano de iemanja

julio cesar disse...

sou filho nato de xango kamuca,manifesto meus sinceros agradecimentos a voce por ajudar as pessoas a entender e desmistificar esta entidade,que como eu tenho feito meu aprendizado na naçao de cabinda,tenho um certo conhecimento e como filho de kamuka eu sou o reesponsavel por zelar pelo acentamento de kamuca na casa de onde sou filho, posso dizer que grande parte do que foi escrito tem veracidade .

Alafia disse...

Caro irmão como não conheço a saudação de sua Nação pois já vi em um determinado texto que tú foi feito em Ijexá outra é Batuqueiro(é o mesmo que Ômoloco?) vou sauda-lo a minha maneira Mojuba, e perguntar e espero com sua sabedoria poder me ajudar, 1) Orunmilá pertence a qual Nação, 2)Odú Tobirikuça,3)Bade de Kuruça, e estou fuçando em seu blog,O meu é "tentesemprefazerocerto"email Kibo.carvalho@gmail.com

Bella disse...

A Nação Cabinda é muitas vezes temida pelos nossos irmãos na Lei, lidamos com os eguns,cultuamos Kamuká, Magia Negra e outras cositas.... amigos: Kamuká representa uma das muitas faces que nós humanos temos e somos... mas este Pai também representa a vitória sobre si mesmo,o auto conhecimento,a elevação do ser.
Somos quem somos... nos aceitamos e assumimos nossas ações...por mais pesadas que sejam...afinal ... alguém tem que fazer e é esse orixá que nos ensina o caminho ...

wollwerine21 disse...

Venho parabenizá-lo pelo excelente tópico. Contudo não poderia deixar de ressaltar que tratasse apenas é uma das muitas suposições sobre a Nação Cabinda e principalmente sobre essa enigmática divindade que é Xangô Kamuká. Apenas para acrescentar sobre essa apaixonante questão compartilho com todos outras deduções, como por exemplo as levantadas por Mógbà Rudi Omo Sàngó em seu blog (batuque afro-sul):
"(...) Relatos direto da África deixam claramente que o nome correto é “Kànbínà” e não se deve escrever “Kabinda”, pois seu nome deriva da palavra Yorùbá “Òkànbí + ònà” que traduzido ficaria (O caminho de Òkànbí), a primeira vogal “O” não se escreve, nem tão pouco é pronunciada. Kànbínà faz referência aos seguidores do culto dos Reis de Òyó, levando Òkànbí a posição do primeiro Rei de Òyó(...)."
E o pesquisador prosegue nos fornecendo valiosas e possíveis pistas sobre Xangô Kamuká, "(...) Sendo assim, fica claro que Kànbínà não é Bantú e sim Yorùbá, mais precisamente pertencem a raiz mais antiga do Òyó, sendo uma lástima que os adeptos do lado de Kànbínà, por desconhecer esses fatos, acreditam que tem alguma raiz Bantú e que essa Nação, cujo Rei é Kamuká veio direto da região de Kabinda, onde nunca se ouviu ao menos falar em algum Nkisi Kamuká, mas convido a todos a pesquisarem como Kamùkan, sendo um caminho de Sàngó como tantos outros, mas precisamente um Sàngó cultuado do lado de fora do templo(...)".

Bàbá Hendrix ti Ọ̀rúnmìlà disse...

Na verdade, assim como o texto postado por mim, a teoria do Sr. Rudinei Borba é apenas mais uma hipótese e não conclui a pesquisa.

Devemos ter em mente que a pesquisa histórica sobre o Batuque do RS (e não afrosul, pois este termo não existe. Aparentemente foi criado por Baba Erick de Oxalá, de São Paulo, mas não é nem nunca foi usado no RS) carece de fontes primárias e tudo o que temos são a tradição oral (que é bem falha numa sociedade como a nossa) e a especulação.

Qualquer afirmação categórica, que tente por fim à questão, será sempre pretensiosa.

Não há um consenso com relação às origens históricas dessa nação.

Axé.

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