terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sobre brancos e turbantes*

Dia desses vi minha neta Sophia, de 5 anos, pegar a boneca de outra, a Lívia, de 2 anos. Logicamente a Lívia protestou, mas a atitude do pai delas foi de garantir o brinquedo com Sophia e usou de vários argumentos para tanto - desde "é apenas uma boneca" até que a outra deve aprender a compartilhar, etc. - que então passou a debochar da irmã.

Um outro fato também ocorreu por esses dias: uma jovem branca usava um turbante de estilo africano e foi interpelada por uma outra jovem, esta negra, identificada apenas como ativista, que teria dito que aquela não deveria usar turbantes afro porque é branca e isto seria uma apropriação cultural indevida. A jovem branca logo publicou em sua rede social de forma que foi totalmente apoiada por muitos brancos e até alguns negros.

O caso da menina foi marcado pela frase "vai ter branca de turbante sim". Uma apropriação descabida da expressão que tem sido usada por mulheres, negros, homossexuais e afro-religiosos na luta por inclusão de seus quadros em espaços "naturalmente" concedidos à brancos, homens, heterossexuais e cristãos. A frase é um brado político por inclusão de recortes da população historicamente marginalizados. O que a menina fez foi transformar este brado de batalha em mero deboche de criança mimada. E foi aplaudida por muitos.

A polêmica surge num crescimento de comportamentos conservadores por parte da sociedade branca que expõe seu repúdio às lutas das minorias sociais jocosamente chamados de "politicamente correto". Minorias no sentido aplicado por Anthony Giddens e não o imaginado pelo dep. Jair Bolsonaro, devo salientar. Essa mesma sociedade branca embebida de valores civilizatórios eurocentrados e cada vez mais mergulhados em paradigmas individualizantes que simplesmente expurgam o outro e suas lutas, ou seja, o que importa é o EU, o OUTRO tem sido cada vez mais relegado, descartado e, muitas vezes, atacado... 

Sim, é verdade. É fato histórico e sociológico que brancos, porque mais esvaziados da emotividade que relacionam signos e seus significados e mais cheios da racionalidade que utilitariza esses signos, se apropriam de aspectos de outras culturas e os transformam em produtos mercadológicos enriquecendo a si mesmos sem tributar à cultura ou povo original. É diferente quando se sabe o significado desses símbolos e os usa neste contexto, pois assim se está valorizando a cultura original. O problema é que raramente brancos tem essa visão. Geralmente a questão se torna meramente estética e desvinculada da origem.

No caso em questão temos que ter em mente que estamos falando de sentimentos coletivos de um grupo de seres humanos (negros) que foram historicamente alijados de tudo, até de sua humanidade E ainda hoje são subalternizados, marginalizados, considerados de segunda classe. Enquanto guardavam silêncio nas profundezas de sua resiliência estava tudo bem, mas agora que falam, bradam, se fazem ser ouvidos, querem silenciá-los. O racismo é mesmo perverso.

A ialorixá, bacharel em Direito, mestranda e ativista negra Winnie Bueno, em seu perfil do Facebook, aponta a relação de valor que essa sociedade dá neste tipo de debate:

"[...] a branquitude tá pouco se lixando para o significado que negros imprimem sobre qualquer coisa. O poder branco da aval para que as pessoas brancas façam o que elas querem, quando querem e como querem. Se uma pessoa branca decidir que vai usar cocar para homenagear os povos indígenas, ela vai e usa. Se uma pessoa branca decidir que ela vai ser de tradição de matriz africana, ela vai e é. Se uma pessoa branca decidir se apropriar de qualquer coisa que uma pessoa negra produziu , ela vai e se apropria. Porque ela tem aval da branquitude. Pessoas brancas são inquestionáveis."

Essa noção é perturbadora, pois imputa uma inquestionabilidade das ações de pessoas brancas, enquanto que a de não brancas é questionada o tempo tempo. Essa noção é cruel e perversa, pois legitima um grupo e deslegitima outro pelo mesmo motivo! É o racismo claro como água.

Em seu blog, a escritora e feminista negra Gabriela Moura reforça o que Bueno diz e ainda amplia ao denunciar que:

[...] Em uma sociedade racista, privilégio branco é não ter sua palavra posta em dúvida jamais, e, ainda por cima, ter a sua palavra usada para violentar verbal e psicologicamente TODA a população negra [...].

Wendy Loyola nos abre os olhos para o fato de que este caso não é meramente uma historinha fútil. Diz ela no Facebook:

"[...] matérias deste tipo servem para vilipendiar a militância negra reduzindo ela a um estereótipo de que todas as pessoas negras vão pedir brancos para retirarem o turbante e o acusarem de apropriação cultural. A militância negra deveria servir primeiramente para afirmar a condição da negritude como existente, porque ela é invisibilizada no país. porque a desumanização do negro ainda é uma realidade. Então quando acontece um caso muito específico como o uso de um turbante por causa de câncer e a pessoa diz "vai ter branco de turbante sim" sabemos que esta matéria ganha um sentido político de estereotipar o(s) movimento(s) negro(s) como sendo radicais e punitivos. Sabemos muito bem o que há por trás disso."

Sim sabemos, como apontei lá no início deste texto.

O problema se agrava quando os ouvidos que ouvem a menina branca e as mãos que tentam calar a voz negra são vivenciadores das tradições de matriz africana. Para nós o turbante (ou trunfa como chamamos) é um símbolo teológico de submissão ao nosso Orixá. Por isso - mesmo sendo um adereço tradicionalmente feminino - homens e mulheres o usam no cotidiano das vivências da fé de matriz africana. Seu sentido no intramuros das comunidades tradicionais de matriz africana é teológico e não meramente estético. Nas sociedades africanas como a iorubá, o turbante é um adereço exclusivamente feminino que se tornou símbolo de luta e resistência da mulher negra aos processos de subalternização. Sem deixar a estética de lado.

Ah a estética! Paulo Freire já denunciava como a sociedade brasileira subalternizava a estética não branca a afirmando como primitiva ou exótica. Até que uma menina branca resolve usá-la. Eis o diferencial denunciado aqui.

"As pessoas não entendem nada do que passamos, conseguem até dizer que professam a religião de nossos ancestrais e desrespeitam um símbolo histórico de luta e resistência das mulheres negras. Estamos empurradas nas piores posições sociais, as que estão na base da pirâmide social e não somos respeitadas socialmente. E aí as criaturas sem consciência social chegam e acham que nossa identidade é bobagem? Será que respeitam mesmo nossas tradições ancestrais ou apenas se apropriaram de nossa fé também? Uma mulher branca saindo de turbante é moderno! Uma mulher negra é batuqueira... O racismo e hipocrisia deste país é cada dia mais absurdo!"

Percebemos, então, que uma das causas para o que a educadora Patricia Pereira denuncia num debate no Facebook (acima) é que os brancos não são educados a ter consciência negra. Logo não se unem à luta, pois acham que é apenas os negros que precisam. Por isso a necessidade de que todos tenhamos consciência negra. No tocante a sacerdotes e sacerdotisas brancos/as é a mesma coisa. Muitos são apenas conhecedores de ritos. Não entendem nada sobre a cultura de onde se originaram e os contextos de suas práticas, logo se tornam mercadores porque estão mais vinculados à cultura branca ocidental de economia liberal do que à cultura negro africana de economia comunitária do qual deveriam ser os guardiões. É impreterível que brancos que vivenciam uma cultura africana precisam se enegrecer, ou reproduzirão meramente uma estética, uma casca.

"E os brancos de família negra? Entram nesse contexto?" - Pergunta alguém. Poucas pessoas assumem uma negritude por convicção de sua identidade. Quando acontece é majoritariamente para ter benefícios, mesmo que numa discussão como esta.

Penso que é uma questão de consciência e ética. Eu assumo a minha negritude,minha identidade negra, mas entendo que a cor da minha pele já me garante benefícios nesta sociedade racista. O fato de eu ser homem e heterossexual amplia ainda mais esses benefícios.

Meu pai era negro. Certamente foi várias vezes parado pela polícia na rua ou seguido por seguranças em lojas, etc. Eu nunca sofri nada disso mesmo tendo nascido e me criado no Morro da Cruz e hoje morando no Campo da Tuca. Ter consciência disso é que nos faz ter nojo desse sistema e querer mudá-lo. Por isso é imprescindível que os brancos entendam isso e se aliem a nós na luta contra o racismo, pois o racismo é um problema da sociedade, a nossa sociedade. Essa sociedade que é composta por brancos e negros. E se a sociedade é racista, então nós somos racistas. Precisamos mudar isso. É lógico que não falo isso para os negros, pois os negros sabem muito bem do que falo há centenas de anos. Falo é para os brancos que não possuem consciência negra.

Pereira conclui:

"Simpatizantes podem estar CONOSCO mas jamais pautar nossas lutas! Quem define o que consideramos ou não racismo somos nós. Ou então eles não simpatizam com nossa luta, apenas se apropriaram dela..."
Então esta discussão não é sobre quem pode ou não pode usar turbantes, mas sim quem pode ou não pode reclamar. Porque se uma menina branca reclama é vítima. Se for negra é vitimismo. E isso, meus caros, é racismo.

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* Devido a minha participação em debates sobre o caso resolvi compilar tudo o que postei e  postagens de outras pessoas que concordo para formar este micro ensaio,
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