segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A MORTE NA VISÃO AFRICANA


Àgo ye égbòn!


No último dia 18 de agosto fui convidado para participar do IV Seminário das Religiões Afro-Brasileiras promovido pela Afrobras. Nesta edição do seminário o tema era a Morte para as religiões africanas. Além de mim, também foram convidados o Pai Luiz Carlos da Oxum e Mãe Dila da Obá para palestrarem, o que me deixa muito honrado já que era o único que não era sacerdote sentado a mesa.
A minha proposta era expor ao público presente – o plenarinho da Assembléia Legislativa ficou lotado – noções básicas da cosmovisão africana sobre a morte, coisa nem um pouco conhecida em nosso meio.
A maioria dos nossos sacerdotes, por desconhecerem a teologia e filosofia iorubá, escolhem, para suprir essa lacuna, outras filosofias e teologias, sobretudo a espírita, para interpretarem questões inerentes à morte e aos mortos. Essa falta de conhecimento se dá pela perda do mesmo no transcorrer dos ensinamentos passados de geração após geração nas casas de batuque. Mas hoje em dia se fala muito em identidade afro-brasileira. Identidade essa que é buscada em África, berço da civilização negra, origem da qual devemos nossa cultura de modo geral e a religião no âmbito mais específico.
Então como pode o espiritismo kardecista – que foi fundado em França, na Europa, portanto uma cultura totalmente alienígena à África – contemplar isso? Ora, não contempla! Somente na África podemos encontrar respostas às questões inerentes a religião de matriz africana. Parece óbvio não é? Mas nem sempre nossos sacerdotes conseguem perceber isso.
Na Nigéria, país onde vivem os iorubás, o primordial é viver muito. O idoso é visto com muito respeito na comunidade. Sempre que alguém vai falar com uma pessoa mais velha, se for mulher ela se ajoelhará e beijará as suas mãos; já o homem se prostrará de bruços no chão em sinal de respeito. Morrer velho é tido como uma grande benção divina. Isso se dá porque não existe esse conceito cristão de que a morte se dá pela culpa. Segundo a bíblia, o deus judaico-cristão castigou os seres humanos com o trabalho, a doença, a velhice e a morte porque Adão e Eva o desobedeceram no paraíso, é o tal pecado original.
Mas para os iorubas, o trabalho é a forma pela qual se conquistam riquezas; a doença tem sempre um caráter sobrenatural, provém de alguém ou de alguma coisa que quer nos atrapalhar; a velhice é uma dádiva divina e a morte é o fim de um ciclo.
Mas o que acontece quando a pessoa morre? Vários mitos nos ensinam que é Xapanã quem traz Iku, a Morte, pela mão. O toque de Iku faz com que Bará, o senhor do corpo, o abandone tornando-o imóvel. Emi, o sopro divino, retorna para Olodumare, nosso único Deus. O Orixá ou Orixás ligados a essa pessoa retornam ao Orixá geral e a sua alma é levada por Iansã a um dos nove espaços de Orun, o mundo imaterial onde vivem os Orixás, os ancestrais e Olodumare. Se a alma for de um homem será cultuado como Egun, ancestre masculino, reverenciado na sociedade Egungun. Se for um espírito de mulher se juntará as Iami Oxorongá, as mães veneráveis, ancestres femininas, que são cultuadas na sociedade Gueledé.
Os Egun são cultuados sempre como espíritos individuais e a sociedade a eles relacionada só pode ser constituída por homens. Já as Iami Oxorongá tem seu culto num assentamento coletivo e, embora o cargo mais alto da hierarquia sacerdotal só possa ser composto por mulheres, seu culto é aberto aos homens e, inclusive, às crianças. No batuque há uma mistura desses dois conceitos e tanto os espíritos dos homens como o das mulheres são cultuados no mesmo local e a participação é aberta a homens e mulheres e a função sacerdotal pode ser desenvolvida por ambos. Embora se evite a presença de crianças, não está terminantemente vetada a sua participação.
Outra questão importante é a diferença dos cultos. A cultura aos ancestrais é chamada de Lessé Egun enquanto que o culto aos Orixás é o Lessé Orixá. Isto não significa que não há reverência aos ancestrais no Lessé Orixá, mas sim que os espíritos cultuados ali são de sacerdotes ou integrantes desse culto, enquanto que no Lessé Egun são cultuados os espíritos ligados a uma família ou clã.
A reencarnação é muito esperada, mas não tem nada a ver com o conceito espírita de resgate cármico, castigo ou punição. Também não se enquadram aqui idéias de evolução espiritual ou coisa semelhante. Para os iorubás se reencarna porque o bom é estar vivo, ora...
A pessoa sempre reencarnará num descendente seu, assim renascendo sempre na mesma família. Apesar disso, cada pessoa é única. No seu ori haverá um odu (destino) que lhe é reservado apenas para aquela vida, concluído com sua morte.
As questões referentes à morte no batuque têm que ser revistas por nós. Só assim poderemos afirmar com certeza que praticamos uma religião de fato. Sem achismos nem agregações de conceitos e teorias alienígenas à África.

Pùpó àse gbógbó!
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A MORTE NA VISÃO AFRICANA Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 27. Enebe Editora Ltda. Setembro/2007. Pág. 12

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Globo versus Record... há dois anos atrás...

HEGEMONIA NA TV... E EU COM ISSO?

Àgo ye ègbón!

Estava eu sentado em minha sala fazendo o que não costumo fazer: ver televisão. O programa era o Domingo Espetacular da Rede Record. Fiquei surpreso ao me deparar com a chamada de uma matéria jornalística criticando a postura de um jornal paulista no tocante a um artigo publicado sobre a Igreja Universal do Reino de Deus. A reclamação: INTOLERÂNCIA RELIGIOSA.
Fiquei curioso e aguardei ansioso para ver a matéria. Nela, o Jornalista Paulo Henrique Amorim fala em tom bombástico a briga que mais de cinqüenta fiéis da Iurd propuseram na justiça contra o jornal Folha de São Paulo e a Jornalista Elvira Lobato, por seu artigo intitulado “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”.
Segundo o próprio jornal, os fiéis são pastores e membros da Iurd que entraram com ações indenizatórias contra o jornal e contra a jornalista por acreditarem que a “reportagem ‘insinuou’ que os membros da igreja são inidôneos e que o dízimo pago por eles é produto de crime.”
Tudo isto começou em 15 de dezembro do ano passado quando a Folha publicou o artigo de Lobato que traz dados concretos das empresas ligadas diretamente a Iurd ou a seus bispos e pastores. Ela conta que em 30 anos de existência a Igreja adquiriu 23 emissoras de TV (a TV Guaíba é uma delas) e 40 de rádio. Diz que existem 19 empresas ligadas a 32 pastores da Iurd, entre elas dois jornais de circulação diária como o Correio do Povo. Ainda fala de duas gráficas, uma agência de turismo, uma imobiliária, uma empresa de seguro saúde, uma empresa de táxi aéreo, além de serem acionistas de quatro outras empresas. Nesta matéria Lobato informa que uma das empresas está registrada em Jérsey, um paraíso fiscal do Canal da Mancha. Ela levanta a hipótese de que os dízimos pagos pelos fiéis possam ser “esquentados” em paraísos fiscais. Esta frase foi a motivadora das ações judiciais.
A reportagem do Domingo Espetacular falou ainda de outros membros da Iurd que pretenderiam processar o jornal O Globo por este ter se referido a Igreja como uma seita, entendendo que o conceito que essa palavra carrega no senso comum é pejorativo.
Pesquisando nos sites do jornal A Folha de São Paulo e O Globo encontrei algumas dezenas de notícias envolvendo a Iurd sempre de forma escandalosa.
O que concluo é que sem duvida há uma “briga de cachorros grandes” acontecendo na nossa mídia. De um lado a Rede Globo, conhecida aliada da Igreja Católica, da ditadura militar e dos partidos de direita; de outro a Igreja Universal usando de seus veículos para se defender e atacar a Globo. A idéia da Igreja me parece bem clara: a busca por maior ibope e assim maiores probabilidades de arrecadação, ou melhor, arrebatamento de fiéis para sua doutrina. Já a Globo parece se incomodar com a perda de audiência para a Record. A saída é atacar a “fonte” de tudo.
No meio disso estão alguns milhões de brasileiros que tomam partido deste ou daquele, induzidos a participar do jogo sem se dar conta que são o prêmio para o ganhador. Mas em quem devemos optar? A Globo é a porta-voz da elite brasileira, aquele pequeno grupo de multimilionários financiadores de campanhas políticas que favorecem a si mesmos e que ditam ordens para nós, o grande grupo, aqueles que trabalham para que os multimilionários continuem sendo multimilionários; ou a Record, janela da Igreja Universal para atrair capitais em potencial e assim se tornarem uma nova elite, uma elite teocrática que explora a imagem do deus cristão para angariar fiéis que sustentem monetariamente a própria Igreja.
É... Creio que seja melhor eu voltar a fazer o que melhor sei fazer: ler muito, e sobretudo, não assistir televisão.


Púpò àse gbogbo!

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Sugestão de leitura
Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, ed. Civilização Brasileira.
Neste livro Gramsci disserta sobre a hegemonia intencionada por segmento da população e o papel da educação e dos intelectuais na sustentabilidade deste propósito.
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HEGEMONIA NA TV... E EU COM ISSO? Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 33. Bellgrado. Fevereiro/2008. Pág. 14

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

QUEM É KAMUKÁ?

Àgo ye ègbón!

Existem três temas muito freqüentes nas discussões nas comunidades sobre religiões afro-brasileiras do Orkut: a balança, saber ou não que se ocupa e o Orixá Xangô Kamuká. O texto a seguir é parte de uma das discussões mais qualificadas de que já participei. Tentar falar sobre este Orixá tão introspectivo não é uma tarefa das mais fáceis para mim tendo em vista que sou da Nação Ijexá.
Digo isso porque a Nação Ijexá não cultua esse Orixá. Xangô Kamuká é um Orixá exclusivo da Nação Cabinda por isso peço antecipadas desculpas aos cabindeiros por qualquer erro que eu possa manifestar no que concerne a prática, cultura, tradição ou fundamentos dessa divindade tão enigmática.
O que sei sobre Kamuká é o que aprendi aqui e ali, com o que os cabindeiros me falavam ou com pessoas de outros lados que conheciam alguma coisa dele, além do que li em poucos livros como o do escritor e Babalorixá Paulo Tadeu Barbosa Ferreira e o do Prof. Dr. Norton Figueiredo Corrêa, além do que é postado nos tópicos das comunidades do Orkut como: “Nação Cabinda”, “Batuque do RS” e “Sou Batuqueiro Sim e Daí”. E o que sei é que Kamuká só seria cultuado na cabinda e que nenhuma outra nação deveria ou poderia cultuá-lo, pois esse Orixá é o do fundador dessa nação.
O que sei também é que o assentamento desse Orixá é feito no balé, pois teria ele grande aproximação com eguns. Meu tio-avô carnal, Cláudio de Oxum Docô, falecido babalorixá de Cabinda me disse inclusive que nem devemos pronunciar esse nome (Kamuká) dentro de casa, pois poderia atrair algum tipo de mal, porém sou totalmente cético sobre isto. Dizem ainda que Kamuká reside no cemitério, mais precisamente no forno (lugar onde se cremam os ossos) e que, por conta disso, se prestaria só ao dano. Esses são alguns dos motivos pelos quais não se dá cabeça de filhos para esse Orixá (que a essa altura me pergunto se é Orixá mesmo).
Vejam bem, não estou afirmando nada, estou apenas relatando o que me contaram.
Por outro lado tenho minhas pesquisas históricas e o que encontrei é que, segundo Norton Corrêa, quem fundou a nação Cabinda em Porto Alegre foi um africano chamado Gululu. No entanto a insistência dos descendentes de Cabinda em afirmar que o surgimento dessa nação se dá com o Esá (título que se dá a pais e mães-de-santo falecidos) Valdemar Antonio dos Santos, me leva a questionar se Gululu e Valdemar não seriam a mesma pessoa.
Cabinda é uma região da África que já foi independente, mas que hoje é uma província de Angola. Seus habitantes são originários do tronco lingüístico bantu e são os Bakongo, Bauoio, Baluango, Basundi, entre outros. Gululu é um nome notadamente bantu.Acredito que Gululu seja oriundo de Cabinda, provavelmente bakongo, pois essa etnia veio traficada para o Brasil em grande quantidade. Os Bakongo (singular Nkongo) cultuavam os Nkisi, espíritos mágicos ligados à natureza ou aos ancestrais. Na metafísica dos bantu, os Nkisi pertenciam ao seu lugar de origem e jamais eram movidos de lugar. Por isso, quando eles vieram para o Brasil, seus Nkisi ficaram na África. A sua profunda religiosidade os fez, então, serem atraídos para as religiões que conheceram aqui no Brasil. O catolicismo e as crenças indígenas os influenciaram e sincretizando-as com suas próprias crenças acabaram por dar origem à tão conhecida religiosidade popular do brasileiro.
Os sudaneses (complexo cultural Jeje-Nagô) vieram em menor número durante todo o processo escravagista sendo que em grande quantidade só a partir de século XIX. Diferentemente das crenças bantus, na metafísica dos sudaneses para onde iam suas divindades e ancestrais os acompanhavam. Por isso, ao chegarem no Brasil, trouxeram consigo sua cultura religiosa. É bem provável que uma parte dos bantus também tenham migrado para a religião desses sudaneses cultuando os Orixás.
É possível que Gululu seja um desses africanos de origem bantu que aprendeu a cultura dos Orixás aqui no Brasil com sudaneses, mas resolveu fundar uma sociedade religiosa com negros originários da mesma região, batizando sua nação, então, de Cabinda. Isso explicaria a cultura de Orixás e Voduns na nação de Cabinda que deveria cultuar Nkisi, mas não o faz. Mas isso não explica o Kamuká no culto.
Existe em Angola - bem distante de Cabinda por sinal - uma etnia bantu denominada Mbundu/Kamuka (http://www.embaixadadeangola.org/cultura/linguas/l_mbunda.html). Isso não diz muito exceto que a origem do nome Kamuká, agora comprovadamente, é bantu. E se hipoteticamente Gululu for o nome africano de Valdemar já que os escravizados eram batizados com nomes ocidentais quando chegavam no Brasil? Daí a coisa começa a se encaixar. Kamuká pode ser um Nkisi nsi, espírito ancestral ligado a um clã familiar. Esse espírito pode ser de um ente falecido que volta incorporado num descendente seu. Como se vê, a cosmogonia dos bantus é bem diferente da dos sudaneses. Entre esses últimos, espíritos de ancestrais (eguns) e divindades (Orixás) não se misturam e só os Orixás é que podem tomar “emprestado” o corpo de um humano.
Agora refletindo: se Valdemar (ou Gululu) cultuava Kamuká por que este era o Nkisi nsi de sua família, fica explicado o porquê de Kamuká não pegar mais filhos, nem de poder baixar em alguém. Por outro lado, também fica explicado do porquê desse “Orixá” ser cultuado próximo ou junto ao balé, pois na cosmogonia iorubá Kamuká seria um egun.
Espero ter contribuído para despertar o interesse nessa pesquisa. Por outro lado peço paciência para comigo aos cabindeiros que cultuam Kamuká de forma diferente da descrita nestas poucas linhas e sobretudo aos que não são da Nação Cabinda mas que também cultuam esse grandioso Orixá.

Pùpó Àṣẹ gbogbo!

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QUEM É KAMUKÁ? Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 32. Bellgrado. Janeiro/2008. Pág. 10

sábado, 24 de janeiro de 2009

Mensagem de um amigo

Olá, Hendrix, como foi a passagem do ano?



Tirei um tempinho e li não apenas o artigo em causa [Natal, Papai Noel, Kwanzaa e Batuque], mas todos os demais. Muito bons, bem escritos, mas com cuidado para evitar academicismos, tendo em vista o público alvo, além de recheados de informações interessantes, valiosas e sob perspectivas criticas. Tudo isto é fundamental para informar o pessoal de religião sobre quem são, como é a religião, sua prática. Como efeito paralelo, é bem possível que estejas estimulando o pessoal mais jovem a seguir tais passos, estudar, procurar saber além do que diz respeito apenas à prática religiosa. As religiões de matriz afro, como se sabe, foram, historicamente, e são, de uma forma ou outra, com menos ou mais sutileza, perseguidas, no máximo toleradas, além de desqualificadas, graças à tradição e "raça" da maioria de seus portadores (os que não herdaram a raça na genética, herdaram-na culturalmente, pois se negrizaram, psicologicamente, como digo). A leitura dos artigos memostrou que compreendes muito bem que um sacerdote, hoje, não pode se restringir, como disse, a tal prática. O que fazes - divulgando a religião, abordando assuntos a ela relacionados, democratizando informações não apenas sobre elas, mas sobre a cultura negra em geral, o papel que os negros exerceram na construção da economia brasileira, por exemplo, como participaram e participam da nossa história - são formas, também, de dar dignidade a seus praticantes, elevar sua auto-estima, ter orgulho de ser o que são. É entender, ainda, que a prática da religião depende, em gênero, número e grau, das condições de ser praticada e, portanto, remete a questão para a sociedade envolvente que, em última análise, vai participar da regulação destas condições.


Parabéns!

Grande abraço

Norton Figueiredo Corrêa*

São Luiz do Maranhão, 04 de janeiro de 2009 - por e-mail
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* Graduado em Ciências Socias pela UFRGS, mestrado em Antropologia Social pela UFRGS e doutorado em Ciências Sociais pela PUC/SP. Atualmente é professor adjunto I da Universidade Federal do Maranhão. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, atuando principalmente nos seguintes temas: Antropologia, Antropologia da religião, Antropologia de sistemas simbólicos, Religiões afro-brasileiras, Batuque do Rio Grande do Sul e Cultura popular.
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