quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Reminiscências e rupturas entre o Batuque do Rio Grande do Sul e a religião tradicional yorùbá

Esta comunicação é embasada na monografia homônima apresentada à disciplina de Introdução às Ciências da Religião, ministrada pelo Prof. Dr. Oneide Bobsin, no curso de Mestrado Acadêmico em Teologia, que cursamos, e trata da religião tradicional Yorùbá em seu locus espaço-temporal, a religião de matriz africana estruturada no Rio Grande do Sul denominada Batuque, e as relações de proximidade e distanciamento entre elas. Tem como objetivos se inscrever numa tentativa de levantar dados epistêmicos numa comparação entre a RTY e o Batuque, procurando estabelecer reminiscências e rupturas no que tange a vários processos. Devo salientar, também, que este trabalho tem como finalidade um avanço de ordem pessoal e que serve de primeiros passos para uma maior compreensão do fenômeno que é a transposição da RTY da Nigéria ao Rio Grande do Sul. A metodologia é a comparativa entre pesquisa bibliográfica e nossa experiência vivencial como sacerdote do Batuque. Para esta comunicação apresentaremos elementos teológicos dessa tradição e as do Batuque em comparação. Estudando a RTY, tendo por base os fatores políticos, econômicos, sociais, históricos e religiosos percebidos nesta civilização à época pré-colonial, assim como a percepção da reminiscência destes mesmos aspectos na sociedade afro-americana como um todo, podemos concluir que, de fato, é perceptível os aspectos que permaneceram e os que se transformaram com a diáspora, estes últimos principalmente pela cristianização, ocidentalização e embranquecimento dos vivenciadores.

Leia o artigo completo clicando AQUI:

Ao citar este texto use a seguinte referência:

SILVEIRA, Hendrix. Reminiscências e rupturas entre o Batuque do Rio Grande do Sul e a religião tradicional yorùbá. In: CONGRESSO DA ANPTECRE, 4., 2013, Recife. ARAGÃO, Gilbraz S.; CABRAL, Newton Darwin A (Orgs.). Anais do IV Congresso da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Teologia e Ciência da Religião: o futuro das religiões no Brasil. São Paulo: ANPTECRE, 2013. p. 1787-1809.

Afroteologia: elementos epistemológicos para se pensar numa teologia das religiões de matriz africana

Estudando Teologia logo nos deparamos com algumas especificidades teológicas que observa recortes sociais como a teologia feminista, a latino-americana, a indígena e a negra. No entanto, a despeito dos discursos de diversos autores que promovem a alteridade dos saberes, o respeito à cultura do outro e seu posicionamento diante do mundo, ainda evidenciamos uma forte tentativa de “cristianocentrar” o diálogo. Neste contexto existe a Teologia Afro-Negra que é a tentativa negra de se valorizar positivamente diante do cristianismo, cujas teologias não contemplam a cultura negra. Então para diferenciarmos a Teologia Afro-Negra cristã da Teologia das religiões de matriz africana consideramos prudente o termo afroteologia. Consideramos o termo afroteologia em detrimento de Teologia yorùbá ou fòn, ou ewe, ou kimbundo, etc., por acreditarmos que existem “organizadores civilizatórios invariantes” que estão na base das religiões de matriz africana, tanto no continente africano (em suas várias formas étnicas) quanto nas afro-diaspóricas (candomblé, Batuque, tambor de mina, xangô, santería e vodu). A afroteologia então é a teologia própria das religiões de matriz africana. Parte de princípios próprios da visão de mundo ancestral africana, que lhe confere uma relação singular entre o significante e o significado; lhe emprega sentidos próprios seguindo a lógica cultural das observações desse povo sobre o mundo visível e invisível.

Leia o artigo completo clicando AQUI:

Ao citar este texto use a seguinte referência:

SILVEIRA, Hendrix. Afroteologia: elementos epistemológicos para se pensar numa teologia das religiões de matriz africana. In: Deus na sociedade plural: fé, símbolos, narrativas: anais do congresso da SOTER / Sociedade de Teologia e Ciências da Religião. Belo Horizonte: PUC Minas, 2013. p. 1133-1143.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ilê Oxum Docô tem nova consultora

O Ilê Oxum Docô é uma casa de culto aos Orixás conhecida internacionalmente. Devido a grande procura por parte do público, o Ilê possui um quadro de consultores semelhante ao o que ocorre nos grandes templos africanos, e a mais nova integrante desse quadro é Ìyá Patricia de Ọya.


Ìyá Patricia de Ọya é descendente de uma linhagem de mulheres negras sacerdotisas do culto aos Orixás. Sua avó, Mãe Wilma de Yemọjá,  foi uma conhecida Mãe-de-Santo no município de Viamão e sua mãe, Itacira de Xapanã, tem mais de 50 anos de vasilha. Ìyá Patricia foi iniciada por Pai Pedro de Oxum Docô em 2006, recebendo seus axés em 2009 devido a grande dedicação e fé no culto aos Orixás.


Além de consultora no Ilê Oxum Docô, Ìyá Patricia também é a Ìyákékeré do Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre, casa de culto aos Orixás que fundou ao lado de seu marido Bàbá Hendrix de Ọ̀rúnmìlà, e está estudando para prestar vestibular na área de Filosofia. Especialista em problemas amorosos - talvez até por influência de sua Orixá, Ọya Nikẹ -  Ìyá Patricia atende todos os dias com hora marcada.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Vigiar e Punir

Desde a questão do ladrão da hornet branca que foi baleado pelo policial que não lhe deu voz de prisão, mas sim agiu como um xerife ao estilo do velho oeste estadunidense e mais recentemente o caso dos animais roubados de um laboratório, tenho lido no facebook uma onda de pessoas defendendo a ação pistoleira do policial e propostas de que testes laboratoriais sejam feitos em seres humanos ao invés de animais. Ainda sugerem que seja feito em pedófilos e assassinos e há aqueles que incluem políticos corruptos. Isso me fez lembrar do seriado televisivo DEXTER, que narra as ações de Dexter Morgan que misturam (ou confundem) a ideia de um serial killer com um justiceiro, pois Dexter é um psicopata que teve sua compulsão por assassinatos direcionada exclusivamente a criminosos de todo o tipo. 

O cristianismo, como agente construtor da cultura ocidental, pressupõe elementos de justiça oriundos do direito romano e que estão amplamente vinculados a punição. Assim o punir é entendido como um mecanismo de correção e, por conseguinte, de justiça. Michel Foucault, filósofo francês do século passado, escreveu o livro "Vigiar e Punir" tentando analisar o sistema penal ocidental e que lança luz sobre como somos criados na perspectiva da vigilância (termo muito utilizado na bíblia, mas aparentemente interpretado de outras formas pelas igrejas) e da punição.

Com isto podemos aludir que somos criados para sermos juízes dos outros. Estamos sempre vigilantes, não sobre nós mesmos como sugere a bíblia, mas dos outros. Julgamos todo mundo o tempo todo. E quase sempre os condenamos. E alguns ainda exortam a que tipo de punição a pessoa condenada merece. E ainda há aqueles que se tornam os carrascos. Me parece que nossa sociedade está cada vez mais julgadora e, sobretudo, condenadora.

Os marginalizados são frequentemente intitulados como seres inferiores e por isso merecem as punições a eles imposta. Isto muito me lembra a escravidão moderna. Os negros eram tratados como seres inferiores, sujos espiritualmente e essa "sujeira" era visível materialmente através da cor de sua pele e de seus hábitos primitivos. À eles o trabalho escravo era uma purga para seus pecados ancestrais, a escravidão era uma forma de redimi-los ante a Deus pelo pecado cometido por Cam à Noé. O negro era um sub-humano, um ser inferior do qual o branco podia exercer todo seu sadismo sem prejuízo de sua própria humanidade.

Da mesma forma agem hoje aqueles que apoiam e divulgam as ideias discutidas neste textículo: o marginal, o pedófilo, o assassino e o político corrupto estão abaixo da categoria de seres humanos, por isso matá-los ou realizar testes laboratoriais com eles não maculam a humanidade daqueles, pelo contrário, é até uma forma de puni-los por terem se atrevido a afrontar a ordem estabelecida pelos homens e mulheres de bem, vulgo, seres humanos. Confundem vingança com justiça.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Idade é posto: a hierarquia do Batuque

É muito comum as pessoas acharem que no Batuque não há hierarquia exceto a que separa filhos de pais e mães de santo. Ledo engano. O Batuque, como é típico de toda religião de matriz africana, possui uma rigorosa hierarquia.

Toda hierarquia no Batuque está alicerçada na ancestralidade e senioridade iniciática. Ou seja, quanto mais velho iniciaticamente falando, mais alto é o seu posto, logo mais venerável é a pessoa. Esse venerabilidade, contudo, não é gratuita, pois exige uma responsabilidade.

No Batuque existem 3 níveis iniciáticos: Bori, Pronto e Pronto com Axés. O Pronto com Axés será sempre hierarquicamente superior ao Pronto, que por sua vez é superior ao Bori. Além desses 3 ainda há as pessoas que chamamos de "cabeça lavada" ou omieró e ainda os que cumpriram obrigação de Oribibó. Estes ficam abaixo dos boris na escala hierárquica. Embora possamos contar na hierarquia do Batuque, os leigos estão tecnicamente fora dela, já que seu vínculo com a casa é essencialmente descomprometido. O leigo, muitas vezes é chamado de cliente, porque tem fé na força dos Orixás consultando o oráculo e realizando oferendas e trabalhos, mas não há vínculo direto com a casa. Contudo são os contribuidores financeiros da casa, o que garante seu funcionamento.

Em cada um desses níveis ainda há a hierarquia do tempo de iniciação. Assim um pessoa que tem 8 anos de bori e 30 anos de idade é considerada hierarquicamente mais velha que outra que tenha 4 anos de bori e 60 de idade. A idade fisiológica é irrelevante para a hierarquia que é sempre espiritual, embora seja observada.

O tempo de casa também é irrelevante, pois uma pessoa que tem 15 anos de casa e 10 de apronte é mais velha que outra que tenha 20 anos de casa e 5 de apronte.

Contudo não é fácil ser o mais velho. O mais velho é o mais responsável e, por consequência, o mais respeitável. Isso exige desse mais velho um comportamento ética e moralmente exemplar. Modelar para os mais novos. O poder dos mais velhos não é subjugar os mais novos, mas torná-los aptos a chegar no seu nível de conhecimento e sabedoria. O mais velho não pode ser um ditador ou general, tão pouco um displicente e fraco. O mais velho é quem ajuda a manter o nome do Ilê com honras e ajuda o babalorixá ou ialorixá a ensinar os mais novos a se comportar e a cumprir as tarefas que devem ser cumpridas. Enfim, ajuda a manter a ordem no terreiro. Mas lembre-se de que todo terreiro precisa se renovar para se manter fortalecido, por isso a presença dos mais novos é importante, então os respeite, tenha paciência com eles, pois eles serão os mais velhos de amanhã.

Aos mais novos cabe o exercício da humildade. Saber ouvir é aprender. Obedecer é, antes de mais nada, cumprir com o que deve ser feito. Todo o trabalho no terreiro é sagrado e deve ser feito com seriedade e abnegação. Esqueça de seus títulos acadêmicos, de seus postos profissionais ou de seu status social. Eles não valem nada aqui. Esqueça até mesmo do tipo de relação que tenhas com o Pai ou Mãe de Santo da casa. No terreiro és apenas o mais novo, um integrante de uma comunidade que já existe muito antes de ti, então respeite os irmãos mais velhos, pois são eles que vão te ensinar a lida do terreiro. Peça a sua bênção sempre que os vir e não esfregue sua mão em seus rostos, pois isto é faltar com o respeito. Deixe que eles o façam por conta própria. Aprenda tudo o que puder de cabeça baixa, com humildade e respeito. Jamais mande nos mais velhos, nem ao menos lhes peça para fazerem algo. Eles sabem o que deve ser feito e vão fazer. Não deixe seu conhecimento pré-adquirido atrapalhar no novo ensinamento que está recebendo. Lembre-se que os mais velhos são o esteio da casa da qual escolheste frequentar e que eles já estavam lá antes de tu chegar.

Os filhos de santo que tem casa aberta devem se lembrar que na casa de seu Pai ou Mãe de Santo estão sujeitos também a essa hierarquia. Assim um filho ou filha de santo com casa aberta é hierarquicamente inferior a um irmão ou irmã seu que tenha mais anos de vasilha que ele, embora não tenha seus Orixás em casa.

É assim que as coisas são num terreiro.




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