sábado, 6 de agosto de 2016

Os terreiros de Batuque no RS*

Terreira é um termo genérico para os templos da tradição de matriz africana no Rio Grande do Sul, mas devido à influência da literatura sobre o candomblé o termo “terreiro” também tem sido empregado. Para Juana Elbein dos Santos, o terreiro é um espaço de propagação de valores civilizatórios africanos, são verdadeiras “mini Áfricas”:

Assim, o século XIX viu transportar, implantar e reformular no Brasil os elementos de um complexo cultural africano que se expressa atualmente através de associações bem organizadas, ẹgbẹ́, onde se mantém e se renova a adoração das entidades sobrenaturais, os òrìṣà, e a dos ancestrais ilustres, os égun. (SANTOS, 2002, p. 32)

Outra forma muito comum de chamar este espaço é “casa de religião”. Este último desperta curiosidade, pois, geralmente, os terreiros também são as moradias do/a sacerdote/sacerdotisa. Este termo talvez esteja alicerçado na compreensão de que é um lugar onde se pratica a religião, os ritos específicos e internos, pois para essa tradição não apenas aquele é o espaço sagrado. Encruzilhadas, matas, praias, cachoeiras e pedreiras são lugares tão sagrados quanto os terreiros, mas é ali em que são realizadas as iniciações e onde estão os altares das divindades, os Òrìṣà. Assim o terreiro se inscreve como um axis mundi, um local que liga o mundo material ao mundo espiritual e também um imago mundi.

[…] se o Templo constitui um imago mundi, é porque o Mundo, como obra dos deuses, é sagrado. Mas a estrutura cosmológica do Templo permite uma nova valorização religiosa: lugar santo por excelência, casa dos deuses, o Templo ressantifica continuamente o mundo, uma vez que o representa e o contém ao mesmo tempo. Definitivamente, é graças ao Templo que o Mundo é ressantificado na sua totalidade. Seja qual for seu grau de impureza, o Mundo é continuamente purificado pela santidade dos santuários. (ELIADE, 2010, p. 56)

Volney J. Berkenbrock (2007, p. 192) também vê no terreiro um espaço de unificação do cosmo, onde “os terreiros são como ilhas africanas, isoladas em uma realidade estranha, onde todo o universo (Orum e Aiye) está reunido. […] Ali pode ser trocado o Axé e garantida a dinâmica e a continuação da existência. Os terreiros são unidades completas e fechadas.”

Ilê Oxum Docô em Porto Alegre/RS
Contudo, materialmente, o que pode ser pensado dessa forma é o Yàrá Òrìṣà, o quarto de Òrìṣà ou “quarto de santo”, um cômodo da casa destinado aos altares onde ficam os assentamentos coletivos dos Òrìṣà (peji) e os implementos sagrados. Geralmente este quarto fica dentro da casa de moradia dos sacerdotes e é contíguo à uma sala grande de estar. Esta sala se torna o salão de ritos após ter seus móveis removidos em dias das festas religiosas. O terreiro, efetivamente, compreende todo o espaço do terreno. Os primeiros terreiros fundados na região de Porto Alegre ficavam fora da zona urbana, por isso dispunham de um grande espaço físico onde havia a casa de moradia dos sacerdotes, o Ilésin L'odè – uma casinhola onde ficam os assentamentos dos Òrìṣà L'odè (que ficam fora do Yàrá Òrìṣà): Èṣù L'odè, Ògún Avagan e Yánsàn  – além de um grande pátio para cultivo de plantas e ervas medicinais e litúrgicas, galinhas, cabritos e, em alguns casos, nos fundos, um espaço destinado ao Igbàlẹ̀, nome dado ao local de culto aos ancestrais.

Outro termo que vem sendo usado frequentemente, mas de forma muito recente também por influência do candomblé é Ilé (casa) ou Ilé Àṣẹ (casa de Axé), porém figura mais na nomenclatura dos terreiros do que propriamente como forma corrente de se referenciar o espaço.
Também de uso recente é Comunidade Terreiro ou Comunidade Tradicional de Matriz Africana. Este tem uso mais político já que o Governo Federal tem reconhecido os terreiros como espaços comunitários de resguardo de tradições africanas. A conceituação apresentada no Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana é a que melhor define os terreiros:

Povos e comunidades tradicionais de matriz africana são definidos como grupos que se organizam a partir de valores civilizatórios e da cosmovisão trazidos para o país por africanos para cá transladados durante o sistema escravista, o que possibilitou um contínuo civilizatório africano no Brasil, constituindo territórios próprios caracterizados pela vivência comunitária, pelo acolhimento e pela prestação de serviços à comunidade. (BRASIL, 2013, p. 12)

No site oficial da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República também há uma definição de comunidades tradicionais de matriz africana:

Comunidades tradicionais de matriz africana constituem espaços próprios de resistência e sobrevivência, que possibilitaram a preservação e recriação de valores civilizatórios, de conhecimentos e da cosmovisão trazidos pelos africanos, quando transplantados para o Brasil. Caracterizam-se pelo respeito à tradição e aos bens naturais; o uso do espaço para a reprodução social, cultural e espiritual da comunidade; e a aplicação de saberes tradicionais transmitidos através da oralidade. (BRASIL, acesso em 23 maio 2014)

Devido à forma como se perpetuou essa tradição no estado, principalmente em Porto Alegre, não existem terreiros tão antigos quanto os da Bahia. Desta forma só se pode conhecer o sistema de filiação religiosa dos sacerdotes gaúchos, a fim de se entender a perpetuação dessa mesma tradição.

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* Extrato de nossa dissertação de mestrado em Teologia intitulada: “Não somos filhos sem pais”: história e teologia do Batuque do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Faculdades EST, 2014. 134 f. Dissertação (Mestrado em Teologia – área de concentração Teologia e História) – Programa de Pós-Graduação em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, 2014. p. 65-67.

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Referências utilizadas no trecho

BERKENBROCK, Volney J. A experiência dos orixás: um estudo sobre a experiência religiosa no candomblé. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. 470 p.

BRASIL. Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (2013-2015). Presidência da República. Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. 2013.

______. Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Comunidades tradicionais. Disponível em: http://www.seppir.gov.br/comunidades-tradicionais-1. Acesso em: 23 maio 2014.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. 109 p.

SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, àṣẹ̀ṣẹ̀ e o culto égún na Bahia. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 264 p.

domingo, 19 de junho de 2016

Pensando Afroteologicamente as religiões de matriz africana

O estudo teológico nos incita a pensar a nossa espiritualidade de forma lúcida e inteligente. As várias Teologias que se apresentam nos dias de hoje nos mostram definitivamente que há a possibilidade de se pensar teologicamente de acordo com os recortes em que as estruturas sociais se apresentam. Já não é mais concebível se pensar que a Teologia é de exclusividade do Cristianismo, outras tradições religiosas vêm despontando com relativa isonomia diante desta área do conhecimento que há dois milênios vem sendo desenvolvida academicamente. Agora é a vez das Tradições de Matriz Africana como o Batuque e o Candomblé também refletirem sobre sua própria espiritualidade. Este artigo apresenta possibilidades de construção de uma Afroteologia a partir de elementos epistemológicos negro-africanos, mas instrumentalizados por conceitos da Teologia hermeneutizadas para essa realidade.


Leia o artigo completo clicando AQUI:


Ao citar este texto use a seguinte referência:

SILVEIRA, Hendrix. Pensando afroteologicamente as religiões de matriz africana. Cadernos da ESTEF. N. 56. 2016/1. p. 89-102.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Tradição de Matriz Africana ou Povo de Terreiro: há diferenças?

Tem surgido nas disputas políticas um debate desnecessário sobre alguns conceitos utilizados em nossas lutas por Direitos. Afinal que termo devemos usar: Comunidades Tradicionais ou Povo de Terreiro?

O termo Comunidades Tradicionais foi instituído pelo Decreto Presidencial nº 6.040 de 7 de fevereiro de 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais e que compreende os “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”.

No site do Instituto EcoBrasil encontramos a afirmação de que "para ser reconhecido como comunidade tradicional, precisa trabalhar com desenvolvimento sustentável." "Estima-se que cerca de 4,5 milhões de pessoas fazem parte de comunidades tradicionais atualmente no Brasil, ocupando 25% do território nacional, representados por caboclos, caiçaras, extrativistas, indígenas, pescadores, quilombolas, ribeirinhos, entre outros."


Os vivenciadores das tradições de matriz africana não se encontravam neste conceito. Originalmente os termos mais utilizados para autodefinição de vivência numa tradição de matriz africana no Rio Grande do Sul era o "de religião". Em conversas ouvíamos: "sou de religião", "ela é de religião", "minha família é toda de religião", etc. Estas expressões remetem ao pertencimento ao Batuque, principalmente, mas também umbandistas se autoreferendavam dessa forma.

Em meados dos anos 2000 surge o termo "africanista" e "africanismo". Esta é uma má apropriação do termo acadêmico, pois o africanista é aquele que estuda a África (História, Geografia, etc.) e não propriamente o que o vivencia. Africanismo é a corrente de estudos interdisciplinares que tem como objeto a África. Surge então o termo afro-religioso, em parte devido ao amplo uso do termo religiões afro-brasileiras pela Antropologia.

Religiões afro-brasileiras são muitas. É toda e qualquer que tenha ao menos algum elemento de origem africana em sua composição. Neste quesito entra, além do candomblé, batuque, tambor de mina e o nagô do Recife, também a umbanda, quimbanda, babaçuê, catimbó, barquinha, jurema, encantaria e muitas outras expressões amalgamadas de religiosidade.

Nos parece que a partir de 2003, com a promulgação da lei 10.639 que instituiu o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas de todo o país, buscou-se uma separação do que tem uma origem mais direta africana do que não tem. Assim instituiu-se o termo religiões de matriz africana para tipificar as tradições que se estabeleceram por aqui e que pouco ou nada tem de elementos alienígenas à África.

Em julho de 2013 participamos da Plenária Nacional de Povos de Matriz Africana que preparava para a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Nessa plenária difundiu-se o termo Tradições de Matriz Africana a partir do lançamento, em janeiro do mesmo ano, do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, que conceitua os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana da seguinte forma:

Povos e comunidades tradicionais de matriz africana são definidos como grupos que se organizam a partir de valores civilizatórios e da cosmovisão trazidos para o país por africanos para cá transladados durante o sistema escravista, o que possibilitou um contínuo civilizatório africano no Brasil, constituindo territórios próprios caracterizados pela vivência comunitária, pelo acolhimento e pela prestação de serviços à comunidade.
Neste ínterim os Centros de Umbanda e Kimbanda ficam de fora.

Pensando nisso a Comissão que tinha a atribuição de criar o Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul construiu um novo conceito que juntasse todas as tradições de matriz africana e as religiões afro-brasileiras num único projeto político. Surge o conceito de Povo de Terreiro que é assim definido:

Por Povo de Terreiro fica compreendido o conjunto de mulheres e de homens vivenciadores de Matriz Africana e Afro-Umbandistas, que foram submetidos, compulsoriamente, ao processo de desterritorialização, bem como de desenraizamento material e simbólico, civilizatoriamente falando, de várias partes do continente africano, cuja visão de mundo não maniqueísta e/ou dicotomizada e por conta do rigor teórico da oralidade, ressignificaram, na dispersão pelas Américas, sua cosmovisão de forma amalgamada devido aos elementos culturais invariantes, onde operaram, portanto, um “ativo interculturalismo” que se (re) territorializou geotopograficamente, sob os fundamentos da xenofilia em que se consubstanciou toda uma dinâmica intercultural e transcultural.

Neste conceito as comunidades tradicionais de matriz africana estão contempladas e aliadas à Umbanda e à Kimbanda que ficam de fora do conceito de Tradição de Matriz Africana que se refere exclusivamente aos terreiros de Batuque e Candomblé.

Então não há erro ao usarmos a expressão Povo de Terreiro para definirmos o conjunto dos vivenciadores das tradições de matriz africana e também os umbandistas e kimbandeiros, tampouco a expressão Tradição de Matriz Africana fica prejudicada.

Conceitos são criados por pessoas, assim como a ação política, contudo o que nos suleia é a ética do Ubuntu. Mais do que meramente uma formalidade no discurso político, devemos realmente assumir uma postura de unidade, respeitando os que chegaram primeiro e construíram formas e ações políticas neste estado e promovendo cada vez mais essa união para que juntos possamos lutar pela emancipação política de nosso povo, contra a concretização de um Estado teocrático cristão e contra a Afroteofobia que recrudesce no país.

Àṣẹ

Hendrix Silveira
(Bàbá Hendrix de Ọ̀rúnmìlà)
Bàbálórìṣà da Comunidade Tradicional de Matriz Africana Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre
Doutorando e Mestre em Teologia pelas Faculdades EST
Assessor Teológico do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul

sábado, 28 de novembro de 2015

Entendendo algumas questões de gênero nas Tradições de Matriz Africana

A sociedade ocidental é constituída sobre quatro pilares ideológico-culturais: a heteronormatividade, o racismo, o cristianocentrismo e o machismo. O machismo é a ideologia que sustenta que o homem é superior à mulher, logo merece as melhores posições, melhores salários, etc. Quando este sentimento de superioridade é exagerado, ou seja, quando há um total desprezo pelas mulheres e seu universo, estamos falando de misoginia.

Ser um "pilar ideológico-cultural" significa que a cultura de uma sociedade está arraigada destes valores, por isso dizemos que a cultura ocidental é machista, logo devemos rever estes aspectos culturais, pois a cultura não é engessada, ela pode ser remodelada - e de fato o é - de tempos em tempos. Para Braudel a cultura é "tempo longo", o que indica que suas perspectivas são mais duradouras e difíceis de serem revistas e reconstruídas, por isso Deleuze nos incita a "desconstruir" a cultura para reconstruí-la de forma a contemplar as hodiernas visões de mundo.

Para as Tradições de Matriz Africana como o Batuque e o Candomblé as questões de gênero nunca se colocaram como fator decisivo nas relações de poder dentro da comunidade tradicional. Ali homens e mulheres têm funções diferentes porque o trabalho é teológico, assim como a própria diferença de gênero o é.

Para as tradições africanas absolutamente tudo é sagrado. Inclusive o trabalho. Logo o trabalho se constitui numa "economia teologal", parafraseando Dussel. Um dos elementos de compreensão da humanidade a partir do sagrado é a questão do trabalho dentro das questões de gênero.

O falo é o símbolo representativo do poder sagrado masculino, enquanto que o útero é o símbolo do poder sagrado feminino. Assim todos os elementos com formato fálico (tais como a faca, a espada, a lança, o tambor, etc.) são sub-representações do falo, logo pertencem ao homem, pois potencializam e são potencializados por ele. Por isso as atividades masculinas estarem mais voltadas para a guerra, a caça, a pesca, etc.

Por outro lado o símbolo representativo do poder sagrado feminino é o útero, por isso o trabalho feminino é aquele em que o seu poder gerador de vida pode ser direcionado, como no plantio e no preparo dos alimentos. A visão machista de mundo diz que o lugar da mulher é na cozinha porque no mundo ocidental o lugar mais importante é a sala, onde o homem lê seu jornal, assiste seus programas de TV ou se reúne com os amigos. A cozinha é sempre um local de labuta (e a cosmovisão ocidental
é de que o trabalho é castigo divino), um lugar inferior onde as pessoas inferiores (mulheres) devem estar e se dedicar.

Ao contrário, para as sociedades africanas a cozinha é o local principal da casa. A panela tem o formato uterino e é nela que a mulher exercerá o seu poder gerador de vida na transformação do alimento cru em cozido para assim garantir a vida de sua família.

Como a mulher é um ser inferior para a sociedade ocidental, é desprezada e a instituição da monogamia é para evitar que o homem (o ser superior) tenha contato com muitas delas. Já na cosmovisão africana a mulher é sagrada, por isso a poligamia garante que o homem esteja rodeado de sacralidade.

Entrementes, para a sociedade africana a mulher não é superior, mas possui equidade com o homem em direitos e deveres. As diferenças de função estão relacionadas exclusivamente a visão de sagrado que se tem sobre o papel de homens e de mulheres no mundo visando sempre a complementaridade, simbiose e a continuidade da vida que é o fator primordial da filosofia e da teologia africana.

Àṣ o!

domingo, 1 de novembro de 2015

Egun e o Dia de Todos os Santos

Hoje é Dia de Todos os Santos para algumas igrejas cristãs como a católica, a ortodoxa, a anglicana e a luterana. Embora tenham divergências teológicas a respeito da celebração, todos prestam homenagem a memória de mártires que defenderam inabalavelmente sua fé diante de torturas e da iminência da própria morte. Foram exemplares e, por isso mesmo, são veneráveis modelos para os cristãos de todo o mundo.
Santo, em latim "sanctum", significa "separado" (ELIADE), ou seja, os santos são aqueles que já foram separados do mundo pela graça de Deus. Sejam eles conhecidos ou anônimos, todos são festejados nesta data.
Na tentativa de traçar uma estratégia de conversão dos africanos escravizados, a longo prazo, a igreja católica promoveu o sincretismo de alguns de seus santos com os Orixás.
O fato é que teologicamente os santos não são comparáveis aos Orixás, pois estes últimos são divindades criadas por Deus para a manutenção da criação, enquanto que os primeiros foram seres humanos que viveram e morreram. Se fizermos um estudo de teologias comparadas a figura dos santos cristãos está mais assemelhada a dos Eguns.
Eguns são seres humanos que tiveram uma vida exemplar. Quando vivos cumpriram plenamente o seu projeto mítico social (Odù), tiveram filhos, prosperaram, se tornaram sábios anciões. Tinham Ìwàpẹ̀lẹ̀, o bom caráter. Cumpriram fielmente todos os ritos da tradição yorubá. Se "santificaram" para usar uma expressão do cristianismo.
Egun não é qualquer espírito de falecido, mas sim o espírito de alguém que se tornou um ancestral ilustre que ganha culto, homenagens e festas. No Batuque o rito à Egun foi preservado minimamente segundo as tradições de Lesé Orixá. Muito diferente do vídeo anexado a esta postagem que é de um Lesé Egun - comunidade tradicional de matriz africana que cultua exclusivamente Eguns -, o Ilê Agboulá da ilha baiana de Itaparica, mas o princípio teológico e filosófico permanece o mesmo: o papel do Egun é de nos cobrar MORAL e ÉTICA, tanto com relação às liturgias que nos deixaram como legado quanto com as relações humanas que estabelecemos.
O Batuque não é a religião da bagunça, tampouco a tradição do "cada um faz o que quer". Batuque é uma tradição ética e carrega uma moral. Quem não entende isso está degradando-o, destruindo-o e prestarão sua conta.
Iku oo!


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