sábado, 25 de março de 2017

Batuque e Carnaval

Às vezes me aborreço com alguns batuqueiros...

Está tendo um polêmica porque sacerdotes e sacerdotisas do Batuque realizaram um ritual simbólico de lavagem do Porto Seco antes dos desfiles de carnaval que, por ordem do prefeito Marchezan do PSDB, foram proibidos de ser realizados na data tradicional talvez esperando uma desmobilização dos carnavalescos, que não houve.

Acontece que horas antes do início dos desfiles os bombeiros interditaram o sambódromo (porque é isso o que efetivamente é, ainda que tenha um nome mais abrangente) proibindo os desfiles alegando falta de segurança. Horas antes do desfile!

É mais do que óbvio que se trata de uma sabotagem da prefeitura à festa dos pobres e pretos. Quem não vê isso é cego ou age de má fé.

Ora, pois não é que há batuqueiros dizendo que isso é punição dos Orixás porque foi feito o rito simbólico? Sinceramente, são mentes colonializadas que não sabem nada de cultura africana e regurgitam achismos cristianocentrados como se fossem doutores em afroteologia. Para estes com certeza existe a dicotomia sagrado/profano (valor cristão) e vislumbram o Batuque como sagrado e o carnaval como profano, logo não poderiam misturá-los.

Lavagem da Sapucaí no Rio (foto: UOL)
Apedeutas... Certamente não sabem que para a Teologia das tradições de matriz africana não existe a dicotomia sagrado/profano, pois tudo é sagrado; que o Batuque e o carnaval guardam muito mais semelhanças que diferenças; que ambos se originam da cultura africana; que as escolas de samba de Porto Alegre e do Rio de Janeiro surgiram dentro das casas de religião (aliás lá no Rio tem lavagem do sambódromo há anos); que a grande maioria dos carnavalescos são pais ou mães de santo; que a ala das baianas é uma homenagem às antigas mães de santo (como tia Ciata), símbolos de resistência negra e afro-religiosa; que a percussão nas baterias vem dos tambores africanos; que o termo "bandeira" como sinônimo de filiação religiosa tem origem na bandeira das escolas de samba, assim como os estandartes dos centros de umbanda tem nos estandartes destas mesmas escolas; que o antigo ritual - hoje esquecido devido à capitalização - de as pessoas colocarem dinheiro no alá de Oxalá ao final das festas aos Orixás para arrecadar uma quantia que subsidiava o alabê no seu ofício sagrado é idêntico ao o que as escolas de samba faziam com sua bandeira ao final dos ensaios para arrecadar fundos para as fantasias e os desfiles... Enfim, são tantas coisas que ligam o Batuque e o Candomblé ao carnaval que os vejo como duas faces da mesma moeda.

Estive em dois ensaios na quadra da Império da Zona Norte e pude fazer muitas análises religiosas e sociológicas naquele espaço. O que mais me chamou a atenção foram os pequenos ritos de saudação cumpridos pelos elementos de algumas alas, o que lembrou muito o Batuque e fez eu aproximar ainda mais estas duas tradições de origem africana.

É lastimável que para alguns batuqueiros os problemas gerados pela incompatibilidade política e ideológica de nosso prefeito com o mundo marginalizado (leia-se Batuque e carnaval) têm uma origem metafísica no próprio mundo marginalizado. Isso é ser muito autofágico, sem falar na cosmovisão cristã de punição divina por ter cometido pecados.

Por favor gente, parem de atirar em nossos iguais sem nem ao menos ter pleno entendimento sobre os processos. Apontem suas armas para quem realmente merece: O PREFEITO!


Axé.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sobre brancos e turbantes*

Dia desses vi minha neta Sophia, de 5 anos, pegar a boneca de outra, a Lívia, de 2 anos. Logicamente a Lívia protestou, mas a atitude do pai delas foi de garantir o brinquedo com Sophia e usou de vários argumentos para tanto - desde "é apenas uma boneca" até que a outra deve aprender a compartilhar, etc. - que então passou a debochar da irmã.

Um outro fato também ocorreu por esses dias: uma jovem branca usava um turbante de estilo africano e foi interpelada por uma outra jovem, esta negra, identificada apenas como ativista, que teria dito que aquela não deveria usar turbantes afro porque é branca e isto seria uma apropriação cultural indevida. A jovem branca logo publicou em sua rede social de forma que foi totalmente apoiada por muitos brancos e até alguns negros.

O caso da menina foi marcado pela frase "vai ter branca de turbante sim". Uma apropriação descabida da expressão que tem sido usada por mulheres, negros, homossexuais e afro-religiosos na luta por inclusão de seus quadros em espaços "naturalmente" concedidos à brancos, homens, heterossexuais e cristãos. A frase é um brado político por inclusão de recortes da população historicamente marginalizados. O que a menina fez foi transformar este brado de batalha em mero deboche de criança mimada. E foi aplaudida por muitos.

A polêmica surge num crescimento de comportamentos conservadores por parte da sociedade branca que expõe seu repúdio às lutas das minorias sociais jocosamente chamados de "politicamente correto". Minorias no sentido aplicado por Anthony Giddens e não o imaginado pelo dep. Jair Bolsonaro, devo salientar. Essa mesma sociedade branca embebida de valores civilizatórios eurocentrados e cada vez mais mergulhados em paradigmas individualizantes que simplesmente expurgam o outro e suas lutas, ou seja, o que importa é o EU, o OUTRO tem sido cada vez mais relegado, descartado e, muitas vezes, atacado... 

Sim, é verdade. É fato histórico e sociológico que brancos, porque mais esvaziados da emotividade que relacionam signos e seus significados e mais cheios da racionalidade que utilitariza esses signos, se apropriam de aspectos de outras culturas e os transformam em produtos mercadológicos enriquecendo a si mesmos sem tributar à cultura ou povo original. É diferente quando se sabe o significado desses símbolos e os usa neste contexto, pois assim se está valorizando a cultura original. O problema é que raramente brancos tem essa visão. Geralmente a questão se torna meramente estética e desvinculada da origem.

No caso em questão temos que ter em mente que estamos falando de sentimentos coletivos de um grupo de seres humanos (negros) que foram historicamente alijados de tudo, até de sua humanidade E ainda hoje são subalternizados, marginalizados, considerados de segunda classe. Enquanto guardavam silêncio nas profundezas de sua resiliência estava tudo bem, mas agora que falam, bradam, se fazem ser ouvidos, querem silenciá-los. O racismo é mesmo perverso.

A ialorixá, bacharel em Direito, mestranda e ativista negra Winnie Bueno, em seu perfil do Facebook, aponta a relação de valor que essa sociedade dá neste tipo de debate:

"[...] a branquitude tá pouco se lixando para o significado que negros imprimem sobre qualquer coisa. O poder branco da aval para que as pessoas brancas façam o que elas querem, quando querem e como querem. Se uma pessoa branca decidir que vai usar cocar para homenagear os povos indígenas, ela vai e usa. Se uma pessoa branca decidir que ela vai ser de tradição de matriz africana, ela vai e é. Se uma pessoa branca decidir se apropriar de qualquer coisa que uma pessoa negra produziu , ela vai e se apropria. Porque ela tem aval da branquitude. Pessoas brancas são inquestionáveis."

Essa noção é perturbadora, pois imputa uma inquestionabilidade das ações de pessoas brancas, enquanto que a de não brancas é questionada o tempo tempo. Essa noção é cruel e perversa, pois legitima um grupo e deslegitima outro pelo mesmo motivo! É o racismo claro como água.

Em seu blog, a escritora e feminista negra Gabriela Moura reforça o que Bueno diz e ainda amplia ao denunciar que:

[...] Em uma sociedade racista, privilégio branco é não ter sua palavra posta em dúvida jamais, e, ainda por cima, ter a sua palavra usada para violentar verbal e psicologicamente TODA a população negra [...].

Wendy Loyola nos abre os olhos para o fato de que este caso não é meramente uma historinha fútil. Diz ela no Facebook:

"[...] matérias deste tipo servem para vilipendiar a militância negra reduzindo ela a um estereótipo de que todas as pessoas negras vão pedir brancos para retirarem o turbante e o acusarem de apropriação cultural. A militância negra deveria servir primeiramente para afirmar a condição da negritude como existente, porque ela é invisibilizada no país. porque a desumanização do negro ainda é uma realidade. Então quando acontece um caso muito específico como o uso de um turbante por causa de câncer e a pessoa diz "vai ter branco de turbante sim" sabemos que esta matéria ganha um sentido político de estereotipar o(s) movimento(s) negro(s) como sendo radicais e punitivos. Sabemos muito bem o que há por trás disso."

Sim sabemos, como apontei lá no início deste texto.

O problema se agrava quando os ouvidos que ouvem a menina branca e as mãos que tentam calar a voz negra são vivenciadores das tradições de matriz africana. Para nós o turbante (ou trunfa como chamamos) é um símbolo teológico de submissão ao nosso Orixá. Por isso - mesmo sendo um adereço tradicionalmente feminino - homens e mulheres o usam no cotidiano das vivências da fé de matriz africana. Seu sentido no intramuros das comunidades tradicionais de matriz africana é teológico e não meramente estético. Nas sociedades africanas como a iorubá, o turbante é um adereço exclusivamente feminino que se tornou símbolo de luta e resistência da mulher negra aos processos de subalternização. Sem deixar a estética de lado.

Ah a estética! Paulo Freire já denunciava como a sociedade brasileira subalternizava a estética não branca a afirmando como primitiva ou exótica. Até que uma menina branca resolve usá-la. Eis o diferencial denunciado aqui.

"As pessoas não entendem nada do que passamos, conseguem até dizer que professam a religião de nossos ancestrais e desrespeitam um símbolo histórico de luta e resistência das mulheres negras. Estamos empurradas nas piores posições sociais, as que estão na base da pirâmide social e não somos respeitadas socialmente. E aí as criaturas sem consciência social chegam e acham que nossa identidade é bobagem? Será que respeitam mesmo nossas tradições ancestrais ou apenas se apropriaram de nossa fé também? Uma mulher branca saindo de turbante é moderno! Uma mulher negra é batuqueira... O racismo e hipocrisia deste país é cada dia mais absurdo!"

Percebemos, então, que uma das causas para o que a educadora Patricia Pereira denuncia num debate no Facebook (acima) é que os brancos não são educados a ter consciência negra. Logo não se unem à luta, pois acham que é apenas os negros que precisam. Por isso a necessidade de que todos tenhamos consciência negra. No tocante a sacerdotes e sacerdotisas brancos/as é a mesma coisa. Muitos são apenas conhecedores de ritos. Não entendem nada sobre a cultura de onde se originaram e os contextos de suas práticas, logo se tornam mercadores porque estão mais vinculados à cultura branca ocidental de economia liberal do que à cultura negro africana de economia comunitária do qual deveriam ser os guardiões. É impreterível que brancos que vivenciam uma cultura africana precisam se enegrecer, ou reproduzirão meramente uma estética, uma casca.

"E os brancos de família negra? Entram nesse contexto?" - Pergunta alguém. Poucas pessoas assumem uma negritude por convicção de sua identidade. Quando acontece é majoritariamente para ter benefícios, mesmo que numa discussão como esta.

Penso que é uma questão de consciência e ética. Eu assumo a minha negritude,minha identidade negra, mas entendo que a cor da minha pele já me garante benefícios nesta sociedade racista. O fato de eu ser homem e heterossexual amplia ainda mais esses benefícios.

Meu pai era negro. Certamente foi várias vezes parado pela polícia na rua ou seguido por seguranças em lojas, etc. Eu nunca sofri nada disso mesmo tendo nascido e me criado no Morro da Cruz e hoje morando no Campo da Tuca. Ter consciência disso é que nos faz ter nojo desse sistema e querer mudá-lo. Por isso é imprescindível que os brancos entendam isso e se aliem a nós na luta contra o racismo, pois o racismo é um problema da sociedade, a nossa sociedade. Essa sociedade que é composta por brancos e negros. E se a sociedade é racista, então nós somos racistas. Precisamos mudar isso. É lógico que não falo isso para os negros, pois os negros sabem muito bem do que falo há centenas de anos. Falo é para os brancos que não possuem consciência negra.

Pereira conclui:

"Simpatizantes podem estar CONOSCO mas jamais pautar nossas lutas! Quem define o que consideramos ou não racismo somos nós. Ou então eles não simpatizam com nossa luta, apenas se apropriaram dela..."
Então esta discussão não é sobre quem pode ou não pode usar turbantes, mas sim quem pode ou não pode reclamar. Porque se uma menina branca reclama é vítima. Se for negra é vitimismo. E isso, meus caros, é racismo.

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* Devido a minha participação em debates sobre o caso resolvi compilar tudo o que postei e  postagens de outras pessoas que concordo para formar este micro ensaio,

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ancestralidade

Poesia de Birago Diop

Ouça no vento
o soluço do arbusto:
é o sopro dos antepassados...
Nossos mortos não partiram.
Estão na densa sombra.
Estão na árvore que agita,
na madeira que geme,
estão na água que flui,
na água que dorme,
estão na cabana, na multidão;
os mortos não morreram...

Nossos mortos não partiram:
estão no ventre da mulher,
no vagido do bebê e
no tronco que queima.
Os mortos não estão sob a terra:
estão no fogo que se apaga,
nas plantas que choram,
na rocha que geme,
estão na floresta,
estão na casa,
nossos mortos não morreram.

domingo, 30 de outubro de 2016

COMBATENDO A AFROTEOFOBIA: ARGUMENTOS JURÍDICOS E TEOLÓGICOS PARA A DEFESA DA SACRALIZAÇÃO DE ANIMAIS EM RITOS DE MATRIZ AFRICANA

Este artigo se propõe a apresentar argumentos tanto jurídicos quanto teológico-religiosos que sirvam para a defesa das práticas imolatórias de matriz africana contribuindo, assim, para que a luta de resistência travada por essas comunidades, diante destas ações persecutórias e inconstitucionais, seja mais justa.



Leia mais aqui.



Para citar este artigo use a seguinte referência:
SILVEIRA, Hendrix. Combatendo a afroteofobia: argumentos jurídicos e teológicos para a defesa da sacralização de animais em ritos de matriz africana. In: Simpósio Internacional da ABHR, II, 2016, Florianópolis. Anais do II Simpósio Internacional da ABHR. Florianópolis: online, 2016. p. 1-13. Disponível em: . Acesso em: 30 out. 2016.

sábado, 6 de agosto de 2016

Os terreiros de Batuque no RS*

Terreira é um termo genérico para os templos da tradição de matriz africana no Rio Grande do Sul, mas devido à influência da literatura sobre o candomblé o termo “terreiro” também tem sido empregado. Para Juana Elbein dos Santos, o terreiro é um espaço de propagação de valores civilizatórios africanos, são verdadeiras “mini Áfricas”:

Assim, o século XIX viu transportar, implantar e reformular no Brasil os elementos de um complexo cultural africano que se expressa atualmente através de associações bem organizadas, ẹgbẹ́, onde se mantém e se renova a adoração das entidades sobrenaturais, os òrìṣà, e a dos ancestrais ilustres, os égun. (SANTOS, 2002, p. 32)

Outra forma muito comum de chamar este espaço é “casa de religião”. Este último desperta curiosidade, pois, geralmente, os terreiros também são as moradias do/a sacerdote/sacerdotisa. Este termo talvez esteja alicerçado na compreensão de que é um lugar onde se pratica a religião, os ritos específicos e internos, pois para essa tradição não apenas aquele é o espaço sagrado. Encruzilhadas, matas, praias, cachoeiras e pedreiras são lugares tão sagrados quanto os terreiros, mas é ali em que são realizadas as iniciações e onde estão os altares das divindades, os Òrìṣà. Assim o terreiro se inscreve como um axis mundi, um local que liga o mundo material ao mundo espiritual e também um imago mundi.

[…] se o Templo constitui um imago mundi, é porque o Mundo, como obra dos deuses, é sagrado. Mas a estrutura cosmológica do Templo permite uma nova valorização religiosa: lugar santo por excelência, casa dos deuses, o Templo ressantifica continuamente o mundo, uma vez que o representa e o contém ao mesmo tempo. Definitivamente, é graças ao Templo que o Mundo é ressantificado na sua totalidade. Seja qual for seu grau de impureza, o Mundo é continuamente purificado pela santidade dos santuários. (ELIADE, 2010, p. 56)

Volney J. Berkenbrock (2007, p. 192) também vê no terreiro um espaço de unificação do cosmo, onde “os terreiros são como ilhas africanas, isoladas em uma realidade estranha, onde todo o universo (Orum e Aiye) está reunido. […] Ali pode ser trocado o Axé e garantida a dinâmica e a continuação da existência. Os terreiros são unidades completas e fechadas.”

Ilê Oxum Docô em Porto Alegre/RS
Contudo, materialmente, o que pode ser pensado dessa forma é o Yàrá Òrìṣà, o quarto de Òrìṣà ou “quarto de santo”, um cômodo da casa destinado aos altares onde ficam os assentamentos coletivos dos Òrìṣà (peji) e os implementos sagrados. Geralmente este quarto fica dentro da casa de moradia dos sacerdotes e é contíguo à uma sala grande de estar. Esta sala se torna o salão de ritos após ter seus móveis removidos em dias das festas religiosas. O terreiro, efetivamente, compreende todo o espaço do terreno. Os primeiros terreiros fundados na região de Porto Alegre ficavam fora da zona urbana, por isso dispunham de um grande espaço físico onde havia a casa de moradia dos sacerdotes, o Ilésin L'odè – uma casinhola onde ficam os assentamentos dos Òrìṣà L'odè (que ficam fora do Yàrá Òrìṣà): Èṣù L'odè, Ògún Avagan e Yánsàn  – além de um grande pátio para cultivo de plantas e ervas medicinais e litúrgicas, galinhas, cabritos e, em alguns casos, nos fundos, um espaço destinado ao Igbàlẹ̀, nome dado ao local de culto aos ancestrais.

Outro termo que vem sendo usado frequentemente, mas de forma muito recente também por influência do candomblé é Ilé (casa) ou Ilé Àṣẹ (casa de Axé), porém figura mais na nomenclatura dos terreiros do que propriamente como forma corrente de se referenciar o espaço.
Também de uso recente é Comunidade Terreiro ou Comunidade Tradicional de Matriz Africana. Este tem uso mais político já que o Governo Federal tem reconhecido os terreiros como espaços comunitários de resguardo de tradições africanas. A conceituação apresentada no Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana é a que melhor define os terreiros:

Povos e comunidades tradicionais de matriz africana são definidos como grupos que se organizam a partir de valores civilizatórios e da cosmovisão trazidos para o país por africanos para cá transladados durante o sistema escravista, o que possibilitou um contínuo civilizatório africano no Brasil, constituindo territórios próprios caracterizados pela vivência comunitária, pelo acolhimento e pela prestação de serviços à comunidade. (BRASIL, 2013, p. 12)

No site oficial da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República também há uma definição de comunidades tradicionais de matriz africana:

Comunidades tradicionais de matriz africana constituem espaços próprios de resistência e sobrevivência, que possibilitaram a preservação e recriação de valores civilizatórios, de conhecimentos e da cosmovisão trazidos pelos africanos, quando transplantados para o Brasil. Caracterizam-se pelo respeito à tradição e aos bens naturais; o uso do espaço para a reprodução social, cultural e espiritual da comunidade; e a aplicação de saberes tradicionais transmitidos através da oralidade. (BRASIL, acesso em 23 maio 2014)

Devido à forma como se perpetuou essa tradição no estado, principalmente em Porto Alegre, não existem terreiros tão antigos quanto os da Bahia. Desta forma só se pode conhecer o sistema de filiação religiosa dos sacerdotes gaúchos, a fim de se entender a perpetuação dessa mesma tradição.

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* Extrato de nossa dissertação de mestrado em Teologia intitulada: “Não somos filhos sem pais”: história e teologia do Batuque do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Faculdades EST, 2014. 134 f. Dissertação (Mestrado em Teologia – área de concentração Teologia e História) – Programa de Pós-Graduação em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, 2014. p. 65-67.

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Referências utilizadas no trecho

BERKENBROCK, Volney J. A experiência dos orixás: um estudo sobre a experiência religiosa no candomblé. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. 470 p.

BRASIL. Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (2013-2015). Presidência da República. Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. 2013.

______. Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Comunidades tradicionais. Disponível em: http://www.seppir.gov.br/comunidades-tradicionais-1. Acesso em: 23 maio 2014.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. 109 p.

SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, àṣẹ̀ṣẹ̀ e o culto égún na Bahia. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 264 p.

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