segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sagrado e segredo

É muito comum vermos nas redes sociais questionamentos de iniciados - ou candidatos a iniciação - sobre essa ou aquela feitura de Orixá.

Questiono o porquê deste tipo de indagação assim em redes públicas, pois, afinal, as respostas não seriam secretas? Eu, como babalorixá, diria que se alguém quer saber sobre as feituras de Orixás que se converta a uma Tradição de Matriz Africana sendo iniciado numa comunidade, pois o culto aos Orixás é secreto.

Foto: Odum Orixás
Edição: Bàbá Gilson de Ọbà
Contudo são tantos livros e artigos científicos escritos tanto por acadêmicos quanto
por sacerdotes descrevendo passo à passo essas coisas que me pergunto onde foi parar o sagrado da tradição de matriz africana?

Por que nossa tradição permitiu que acadêmicos adentrassem nossos portões com suas máquinas fotográficas, cadernetas de anotações e canetas, para exporem como se fórmulas de bolo fossem nosso mais puro sagrado? Sagrado e Segredo têm uma mesma origem etimológica o que demonstra que o sagrado só o é enquanto for segredo. Logo, a perda do segredo dessacraliza o sagrado. E é exatamente isto o que acontece.

O estudante é ensinado nas academias a ver nossa tradição como, no máximo, um mundo exótico. Raramente há um mergulho na nossa fé. E até o acadêmico que é vivenciador de nossa tradição tende a questionar sua fé, pois aprende na academia que deve se distanciar de sua vivência para poder observar e analisar o seu "objeto" de pesquisa de forma ética. Como se analisá-lo sobre o prisma de sua própria fé fosse anti-ético.

Nunca vi ninguém perguntar como se consagram os padres da igreja Católica. Talvez seja porque isso não é tão exótico quanto uma feitura de iaô ou um apronte.

O que clamo à reflexão aqui é sobre a ética com relação ao sagrado das tradições de matriz africana. Nosso sagrado não é exposição de arte, nem receita de bolo, nem divertimento público. Nosso sagrado é uma axiologia, um axioma, uma ontologia. É uma matriz civilizatória.

Àṣẹ.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Livro sobre Batuque pode ser adquirido direto com autor

O Prof. Dr. Norton Figueiredo Corrêa, professor da Universidade Federal do Maranhão e autor do livro O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de religião afro-rio-grandense, que é referência nos estudos antropológicos sobre o Batuque, tradição de matriz africana típica do Rio Grande do Sul, nos informa que seu livro pode ser adquirido diretamente com ele.

O livro, que também está disponível pelo site OLX, pode ser adquirido pelo preço de 50 reais, mais frete (em torno de 9,00, para o RS).

O Prof. Norton ainda informa que o livro adquirido vai com dedicatória personalizada.

O quê: O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. 2ª ed. São Luís: Editora Cultura & Arte, 2006. 296p.
Quanto: R$ 50,00 + frete
Onde: OLX ou nortonfc38@gmail.com

domingo, 4 de maio de 2014

Soteriologia Batuqueira

Soteriologia é o estudo da salvação da alma humana. A palavra é formada a partir dos termos gregos σωτήριος [Soterios], que significa "salvação" e λόγος [logos], que significa "estudo".

Cada religião oferece um tipo diferente de salvação e possui sua própria soteriologia. Para o cristianismo a salvação é estabelecida através de Jesus Cristo e tem relação com alguns sacramentos como o batismo e a redenção dos pecados. Também se relaciona com a graça, um dom gratuito e sobrenatural dado por Deus para conceder à humanidade todos os bens necessários à sua existência e à sua salvação. As denominações cristãs têm suas próprias reflexões teológicas sobre graça e salvação, mas é certo que uma se relaciona com a outra.

No fim, para que a alma de um cristão seja salva, ele tem que ter sido batizado e se arrependido de seus pecados, assim poderá ascender ao Céu pela eternidade.

Outras tradições religiosas como o judaísmo e o islamismo também possuem sua soteriologia. E as tradições de matriz africana também.

Para as tradições de matriz africana (Batuque, candomblé, tambor de mina, nagô-egbá, santería, vodu) a soteriologia está arraigada no cumprimento dos ritos. Não basta a fé, não bastam os bem-dizeres, não basta uma vida regrada e caridosa sem o cumprimento dos ritos necessários.

Nossa soteriologia implica no processo de ancestralização. É através da ancestralização que nosso espírito tem garantida a vida eterna.

É necessário para que haja essa ancestralização que a pessoa tenha realizado os ritos de Borí e de Ìsinkú.

Borí é o rito que proporciona a cosmologização da pessoa. Este rito o individualiza e o complexifica diante do cosmo e do sagrado. É um rito de renascimento, pois a pessoa nasce para a fé afro e também é um rito que lhe confere uma aumento da força que ele próprio é.

Ìsinkú é o rito funerário (aròsúnàṣẹ̀ṣẹ̀, tambor de choro, sírrum, mukondo). Se o borí é um rito de individualização, o Ìsinkú é um rito de desindividualização para que haja a possibilidade de retorno a massa de origem. Assim como nascemos de um ventre materno para o mundo dos vivos, o Ìsinkú proporciona o nascimento da mesma pessoa para o mundo dos mortos, dos ancestrais. Quanto maior for o nível iniciático desta pessoa tanto mais complexo será o Ìsinkú dedicado à ela.

No Batuque é muito comum ficarmos sabendo de algumas pessoas que pedem para que não sejam realizados seu Ìsinkú, o aròsún. Às vezes é a própria família carnal que, por não fazer parte da tradição ou por comodismo, se nega a realizar estes ritos. Acredito que isto acontece devido à questão econômica, pois ritos funerários costumam ser muito dispendiosos. Contudo é um erro vital para a salvação da alma do falecido negar-lhe, mesmo que por desejo próprio, a realização do aròsún.


Sem borí e sem aròsún não há ancestralização, logo a alma não se salvará, não irá para um dos 9 espaços de Ọ̀run, não conhecerá os Òrìṣà, nem se juntará aos ancestrais. Sempre que um expoente do movimento negro vem a falecer logo vem os comunicados de pessoas ou entidades civis exortando-o ao status de ancestral. Mas como isto poderia ocorrer se a pessoa sequer fez um borí? Logicamente isto não significa que sua alma não terá salvação, não, claro que não. Depende apenas da fé que o falecido tinha em vida. Mas jamais será um ancestral de acordo com a soteriologia de nossa fé.


Pior é aquele que cumpriu todos os preceitos religiosos em vida, mas eximiu-se do Ìsinkú. Este, além de não ter a alma salva, nem conhecer a terra dos Òrìṣà ou dos ancestrais, ainda não poderá renascer. Ficará vagando até ser esquecido se transformando em algo terrível: almas penadas e assombrações.

Alguém já viu um cristão, judeu ou islâmico pedindo para não ter um funeral de acordo com sua fé? Então por que, "por amor de Dadá" (como diz meu amigo Baba Diba de Yemọjá), um batuqueiro pode não querer ter o seu? Ainda que a família carnal inadvertidamente lhe negue o rito, a família religiosa jamais poderá fazê-lo. A vida é comunitária e a morte também.

Àṣẹ
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...