segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Racismo

OS NEGROS TAMBÉM SÃO RACISTAS?*

Àgo ye égbòn!

No último artigo eu expliquei o que era o ORKUT e como ele funcionava. A minha intenção é que aquele artigo sirva de introdução aos artigos subseqüentes (incluindo esse), pois vou falar constantemente sobre os debates e discussões que tenho assistido nas mais de 70 comunidades de que participo. Uma das discussões mais recentes é sobre a entrevista da ministra Matilde Ribeiro da Secretaria de Promoção Para a Igualdade Racial (SEPPIR) para a BBC Brasil. Nesta entrevista a ministra teria dito que é natural o racismo do negro em relação ao branco.
O jornalismo brasileiro não perdeu tempo. Num momento em que se discutem políticas públicas para negros na tentativa de igualar as suas chances e diminuir o abismo social entre eles e os brancos, a imprensa caiu “de pau” encima da ministra com a intenção exclusiva de desqualificar seu discurso e destituir de importância o papel da SEPPIR no cenário político-social do país. Ora, o jornalismo brasileiro sempre foi tendencioso e é corrente que nossas elites se aproveitem dele para iludir o povo e se manterem hegemonicamente no poder. Para isso é imprescindível que o sistema que regula e organiza a nossa sociedade seja sempre o mesmo. Esse sistema é invisível, porém presente em todas as esferas da sociedade; é possível qualificá-lo pois nosso sistema social privilegia quem for branco, homem, heterossexual e católico. Isso significa que quem não tiver estas características está fora do sistema, ou seja, não tem privilégios.
Os negros são discriminados pelos brancos desde que a Europa invadiu a África. Para que os negros fossem escravizados sem pesar na consciência do branco, foi criado o RACISMO, primeiro com uma justificativa religiosa (pois eles teriam essa cor de pele por castigo de deus), mais tarde com a abolição da escravatura no mundo e com o advento do evolucionismo e do positivismo, a justificativa seria científica para a superioridade de brancos sobre negros. Este é o conceito de racismo.
Muitos pensam que racismo, preconceito e discriminação são a mesma coisa. Esse tipo de erro é que provoca interpretações confusas sobre as relações étnico-raciais. A primeira coisa que devemos compreender é que o racismo contém preconceito e discriminação, mas o inverso não. Racismo é quando integrantes de um grupo racial acredita ser superior a outro ou outros grupos. A sociedade branca há centenas de anos, convicta de sua superioridade diante dos negros, os relega a posições sempre subalternas nesta mesma sociedade. Isso é fácil de evidenciar, pois vemos muitos negros desempenhando o papel de garis, seguranças, domésticas, pedreiros, engraxates... Além de que a maioria dos desempregados são negros. Mais de 75% da população carcerária é negra... Por outro lado é mínima a participação de negros em cargos de executivos, empresários, médicos, juízes, diretores em empresas, professores universitários.
Com tudo isso agora fica fácil entender que na realidade o discurso da ministra Matilde Ribeiro é para salientar o fato que, devido ao histórico de opressão de negros pelos brancos, é compreensível que alguns desenvolvam atitudes preconceituosas e até xenófobas com relação a brancos. É importante, então, que todos nós devamos ter consciência disso, pois a luta contra o racismo é muito mais difícil do que se pode imaginar já que está inserido em nossa própria cultura – a cultura de acreditar que ser branco é melhor que ser negro.



Pùpó àse gbógbó!

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* Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 25. Bom Axé Ed. Maio/2007. Pág. 28
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