quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quindim: doce africano ou português?

Sempre quando falo que o quindim é um doce africano levantam-se pessoas para defender a teoria de que na realidade seria português; que foram os portugueses que inventaram a receita, etc., o que me deixou intrigado e dei uma pesquisada para saber mais a respeito.

Essa discussão já gerou polêmicas até em redes sociais, pois na religião de matriz africana do Rio Grande do Sul, o Batuque, o quindim é largamente utilizado e é empregado como alimento sagrado da Orixá Oxum. É daí que surgem os questionamentos, pois como poderia um doce português ser ofertado a uma divindade africana?

A resposta parece ser bem simples: este doce é amarelo, feito de ovos e é doce. E todos estes elementos fazem parte do culto à Oxum. Estes pontos, no entanto, não legitimam a teoria de que sejam africanos, pois as religiões tradicionais africanas tiveram que ser adaptadas ao novo contexto geográfico e tiverem que se utilizar de elementos disponíveis aqui para a manutenção do culto. Claro que se observou algumas nuances que ajudariam na identificação do que os Orixás aceitariam ou não em seu culto e a cor e o sabor (azedo ou doce) foram símbolos significativos nessa identificação.

Mas para descobrirmos se este doce é africano ou português precisamos visitar a História da Gastronomia e entender que, muitas vezes uma receita "matriz" pode dar origem a novas receitas gerando novos pratos. Costuma-se afirmar que a receita original do quindim é portuguesa, pois existe um doce luso que se chama brisa-do-lis que utiliza dois terços dos ingredientes do quindim. Enquanto o quindim é feito de gema de ovo, açúcar e coco ralado, a brisa-do-lis é feita de gema de ovo, açúcar e amêndoas.

Ebô pupá - oferenda de Oxum
Como só muda um ingrediente na receita, alguns costumam afirmar a origem lusa do quindim. No entanto, minha esposa, Patricia Peixoto, que é profissional em confeitaria, diz que ao mudar-se algo numa receita, mesmo que seja apenas um ingrediente, o doce já não é o mesmo e muda até de nome. Ela nos lembra da queijadinha que é um doce feito de gema de ovo, açúcar e queijo ralado; o papo-de-anjo é um doce feito com gema de ovo, açúcar e fermento de bolo; o pastel-de-belém que é feito de gema de ovo, açúcar e nata; o barquete cujo recheio é feito de gema de ovo, açúcar e essência de baunilha; o pastel-de-santa-clara cujo recheio é o mesmo do barquete; e os fios-de-ovos feitos com gema de ovo, açúcar e água.

A ideia de pratos diferentes por possuírem ingredientes diferentes embora haja uma receita "matriz" também podem ser percebidos em outros tipos de alimentos, por exemplo: a massa feita de leite condensado e enrolada de forma esférica, se for coberta com açúcar se chama branquinho; se for coberta com coco ralado e um cravo passa a ser beijinho; se for com bolinhas de arroz passa a se chamar crispys. Até a tão conhecida torta de bolacha só é chamada assim se for feita com bolachas do tipo maria, se for feita com a do tipo champanhe, passa a se chamar pavê. 

É claro que não podemos negar a participação portuguesa na confecção desse doce, pois tanto o açúcar quanto o coco (e a té mesmo as galinhas) foram introduzidos no Brasil pelos portugueses ainda no século XVI. Especificamente o coco foi introduzido no estado da Bahia e foi lá que, provavelmente, as africanas escravizadas criaram o doce tão popular - afinal quem cozinhava naquela época? Não existia coco em Portugal, logo não pode ser um doce português, ainda que a receita "matriz" seja portuguesa. No entanto, também não existia coco em África, o que também indica que não é um doce africano.

Mas se diz que a palavra quindim é de origem africana, provavelmente pertencente à língua quimbundo. Então podemos concluir que o quindim é um doce feito com receita portuguesa, com nome africano, mas criado no Brasil por negras africanas escravizadas. É brasileiro, enfim.

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Referências
http://pt.wikipedia.org/wiki/Quindim
http://www.docesregionais.com/brisas-do-lis-leiria/
http://vibeurbana.blogspot.com.br/2011/11/visite-portugal-culinaria.html
http://www.terradococo.com/2009/06/origem-da-cultura-do-coqueiro.html
http://www.fruticultura.iciag.ufu.br/coqueiro.html
http://www.nutrociencia.com.br/upload_files/arquivos/Hist%C3%B3ria%20do%20coco.pdf
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Nota
Contribuiu para este artigo Patricia Sant'Anna Peixoto, Ialorixá e profissional em confeitaria há 22 anos.
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