terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Gbobo ohun ti a bà se ni ayé l'a o kunlẹ̀ rò ni Ọ̀run: processo escatológico no Batuque do Rio Grande do Sul

Todas as religiões possuem uma complexidade teológica. E toda teologia pressupõe estudos a respeito de três elementos fundantes nas crenças religiosas: a teogonia (origem das divindades), a cosmogonia (origem do universo) e a escatologia (fim último de todas as coisas). Este artigo pretende expôr alguns elementos da escatologia nas religiões de matriz africana com enfoque no Batuque do Rio Grande do Sul, apresentando dogmas, doutrinas, liturgias e divindades relacionadas com o tema, a partir de uma epistemologia construída sobre um diálogo entre elementos teóricos da Filosofia, da Teologia e da História das Religiões.

Leia o artigo completo clicando AQUI:

Ao citar este texto use a seguinte referência:

SILVEIRA, Hendrix. Gbobo ohun ti a bà se ni ayé l'a o kunlẹ̀ rò ni Ọ̀run: processo escatológico no Batuque do Rio Grande do Sul. Identidade!. Vol. 17, nº 02, 2012. p. 247-258.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quindim: doce africano ou português?

Sempre quando falo que o quindim é um doce africano levantam-se pessoas para defender a teoria de que na realidade seria português; que foram os portugueses que inventaram a receita, etc., o que me deixou intrigado e dei uma pesquisada para saber mais a respeito.

Essa discussão já gerou polêmicas até em redes sociais, pois na religião de matriz africana do Rio Grande do Sul, o Batuque, o quindim é largamente utilizado e é empregado como alimento sagrado da Orixá Oxum. É daí que surgem os questionamentos, pois como poderia um doce português ser ofertado a uma divindade africana?

A resposta parece ser bem simples: este doce é amarelo, feito de ovos e é doce. E todos estes elementos fazem parte do culto à Oxum. Estes pontos, no entanto, não legitimam a teoria de que sejam africanos, pois as religiões tradicionais africanas tiveram que ser adaptadas ao novo contexto geográfico e tiverem que se utilizar de elementos disponíveis aqui para a manutenção do culto. Claro que se observou algumas nuances que ajudariam na identificação do que os Orixás aceitariam ou não em seu culto e a cor e o sabor (azedo ou doce) foram símbolos significativos nessa identificação.

Mas para descobrirmos se este doce é africano ou português precisamos visitar a História da Gastronomia e entender que, muitas vezes uma receita "matriz" pode dar origem a novas receitas gerando novos pratos. Costuma-se afirmar que a receita original do quindim é portuguesa, pois existe um doce luso que se chama brisa-do-lis que utiliza dois terços dos ingredientes do quindim. Enquanto o quindim é feito de gema de ovo, açúcar e coco ralado, a brisa-do-lis é feita de gema de ovo, açúcar e amêndoas.

Ebô pupá - oferenda de Oxum
Como só muda um ingrediente na receita, alguns costumam afirmar a origem lusa do quindim. No entanto, minha esposa, Patricia Peixoto, que é profissional em confeitaria, diz que ao mudar-se algo numa receita, mesmo que seja apenas um ingrediente, o doce já não é o mesmo e muda até de nome. Ela nos lembra da queijadinha que é um doce feito de gema de ovo, açúcar e queijo ralado; o papo-de-anjo é um doce feito com gema de ovo, açúcar e fermento de bolo; o pastel-de-belém que é feito de gema de ovo, açúcar e nata; o barquete cujo recheio é feito de gema de ovo, açúcar e essência de baunilha; o pastel-de-santa-clara cujo recheio é o mesmo do barquete; e os fios-de-ovos feitos com gema de ovo, açúcar e água.

A ideia de pratos diferentes por possuírem ingredientes diferentes embora haja uma receita "matriz" também podem ser percebidos em outros tipos de alimentos, por exemplo: a massa feita de leite condensado e enrolada de forma esférica, se for coberta com açúcar se chama branquinho; se for coberta com coco ralado e um cravo passa a ser beijinho; se for com bolinhas de arroz passa a se chamar crispys. Até a tão conhecida torta de bolacha só é chamada assim se for feita com bolachas do tipo maria, se for feita com a do tipo champanhe, passa a se chamar pavê. 

É claro que não podemos negar a participação portuguesa na confecção desse doce, pois tanto o açúcar quanto o coco (e a té mesmo as galinhas) foram introduzidos no Brasil pelos portugueses ainda no século XVI. Especificamente o coco foi introduzido no estado da Bahia e foi lá que, provavelmente, as africanas escravizadas criaram o doce tão popular - afinal quem cozinhava naquela época? Não existia coco em Portugal, logo não pode ser um doce português, ainda que a receita "matriz" seja portuguesa. No entanto, também não existia coco em África, o que também indica que não é um doce africano.

Mas se diz que a palavra quindim é de origem africana, provavelmente pertencente à língua quimbundo. Então podemos concluir que o quindim é um doce feito com receita portuguesa, com nome africano, mas criado no Brasil por negras africanas escravizadas. É brasileiro, enfim.

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Referências
http://pt.wikipedia.org/wiki/Quindim
http://www.docesregionais.com/brisas-do-lis-leiria/
http://vibeurbana.blogspot.com.br/2011/11/visite-portugal-culinaria.html
http://www.terradococo.com/2009/06/origem-da-cultura-do-coqueiro.html
http://www.fruticultura.iciag.ufu.br/coqueiro.html
http://www.nutrociencia.com.br/upload_files/arquivos/Hist%C3%B3ria%20do%20coco.pdf
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Nota
Contribuiu para este artigo Patricia Sant'Anna Peixoto, Ialorixá e profissional em confeitaria há 22 anos.

sábado, 13 de outubro de 2012

Prefeita negra em cidade alemã!

Se alguém ainda não sabia... a Prefeita eleita na cidade de Dois Irmãos, Tânia da Silva, do PMDB, além de mulher e separada, é negra.

E suas longas tranças afros deixam claro que ela não tem vergonha de suas origens.
Tânia Terezinha da Silva é natural de Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre, mas quando ainda criança seus pais fixaram residência em Dois Irmãos. É enfermeira e venceu as eleições para a prefeitura de Dois Irmãos com 51,67% dos votos, quebrando vários tabus.

Dois Irmãos é um município gaúcho intimamente ligado à imigração alemã no Rio Grande do Sul, pois em 1825 recebeu os 2 primeiros imigrantes alemães, menos de um ano após São Leopoldo, o primeiro núcleo. A cultura do município preserva as origens alemãs em festas e comemorações, além da língua falada em muitos lares. Dos 27.572 habitantes da cidade, apenas 6,13% consideram-se negros ou pardos.

Parabéns, Prefeita Tânia da Silva!

*Recebido por e-mail do Prof. Ms. Jorge Euzébio Assumpção*

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

II Dida Ara - Encontro Nacional de Religião Afro e Saúde

Eutanásia, pesquisa com células tronco, inseminação artificial, transplante de órgãos, mudança de sexo, tatuagens e piercings... Como a religião de matriz africana lida com isso? Descubra participando.
Clique na imagem abaixo para maiores informações.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Porque devo estudar Afroteologia*

Ao contrario do que muitos pensam o estudo da teologia não se restringe apenas aos cristãos, intelectuais e acadêmicos. A teologia é tarefa para todos, de todas as religiões. Não é um meio de se destacar entre os sábios e entendidos em matéria de religião, também não é um estudo direcionado em conhecer a totalidade da revelação de Olódùmarè ao Homem, pois certamente isto não irá acontecer, visto que nossa limitação não pode compreender a revelação de Olódùmarè de forma completa, pois ele é eterno e infinito, ao passo que somos seres limitados como diz o provérbio "ọwọ́ ọmọdé ò tó pẹpẹ, tàgbà ò wọ kèrègbè" (A mão de uma criança não consegue alcançar uma prateleira, a mão de um adulto não entra dentro de um porongo). É um meio de termos um relacionamento mais próximo com o Eterno, de conhecermos seus atributos, sua vontade, a teologia nos leva ao encontro da graça de Olódùmarè. Não somente um meio de exercício do intelecto, numa tentativa de conhecer a vontade de Olódùmarè para nós, mas uma dádiva dEle com o propósito de se fazer conhecido por meio dos Onìmọ̀ Mẹ́fà, ou as “Seis Sabedorias”, e isto é para todos que desejarem se esmerar no estudo deles.

O professor e teólogo Solano Portela em Seu artigo por Título O Estudo da teologia e as Escrituras diz: “Estudar teologia não é uma área segregada à academia teológica; não pertence à esfera de intelectuais maçantes que se preocupam em descobrir e firmar termos técnicos incompreensíveis aos demais mortais; não é monopólio daqueles que escrevem livros meramente para adquirir a respeitabilidade e admiração de seus colegas docentes; nem pertence a mosteiros anacrônicos, que procuram se aproximar de Deus distanciando-se do mundo que Ele criou. Mas é tarefa de todas as pessoas”.

O estudo da teologia afro-brasileira é uma tarefa para todo africanista. Erramos quando não nos esforçamos no conhecimento e reflexão do que chamo de Onìmọ̀ Mẹ́fà, os seis elementos que fundamentam a nossa teologia (IfáOrikiAdúràOrinÒwe Orò, respectivamente texto sagrado, louvações, preces, rezas, provérbios e ritos). O provérbio à ì gbọ́’fá là ń wò’kè, Ifá kan ò sí ńpárá nos adverte que quem sabe a solução para uma pergunta é Ifá e que não adianta olhar para outro lugar porque isso não traria ou ajudaria a achar a reposta ou solução. Corremos sério risco de cairmos no engano cometendo erros que podem nos levar a uma fé errônea.

Uma teologia sadia, livre de pressupostos individuais e achismos humanos, feita com análise cuidadosa, certamente nos ajudará a encontrar um caminho mais seguro na busca da maturidade. O estudo e reflexão dos Onìmọ̀ Mẹ́fà, acompanhado das práticas litúrgicas (Orò) e da humildade e submissão às divindades, resultará numa compreensão mais profunda sobre a natureza de Olódùmarè, das próprias divindades (Òrìṣà, Vodun, Nkisi) e dos ancestrais, como também nos dá maior clareza quanto a nossa identidade de matriz africana, nos levando ao exercício de uma espiritualidade mais centralizada nos pressupostos civilizatórios africanos.

Nesse estudo, Teologia e exercício religioso devem ser dois amigos inseparáveis, pois ambos devem caminhar juntos. Teologia sem exercício religioso resulta em racionalismo teológico onde o estudante corre sério risco de desenvolver uma espiritualidade focada na razão sem muitas experiências relacionais ou quase nenhuma intimidade com o Transcendente. O grande perigo que permeia é colocar a razão acima da fé. Teologia sem exercício religioso produz teólogos com pensamentos liberais em extremo, pois a falta de exercício religioso e humildade no estudo da teologia aniquila a fé.

Exercício religioso sem teologia resulta em uma fé alienada. Fé que não reflete, não pensa, não constrói convicções seguras nos Onìmọ̀ Mẹ́fà, fé que está sujeita a manipulação, fé aprisionada nos grilhões da ignorância resultando num analfabetismo teológico, fé induzida pelas massas, pelo falso discurso, fé vacilante. Como bem disse John Stott: “Crer é também pensar”. Fé que não pensa impede o avanço da maturidade. Assim a fé se torna fideísmo.

A teologia também exerce papel importante no tocante ao questionamento de certas tradições, formalismos e legalismos, males que permeiam os Ilé Àṣẹ ultrapassados. São dogmas e tradições criados e impostos por homens e mulheres que em nome de sua Casa ou Nação, coloca-os acima dos Onìmọ̀ Mẹ́fà, onde tais ideologias não encontram sustentação teológica. A teologia estudada à luz dos Onìmọ̀ Mẹ́fà alarga a visão, fazendo o africanista enxergar novos horizontes, fazendo análises, releituras e reinterpretações numa perspectiva mais africanista, com bases mais sustentáveis da revelação de Olódùmarè aos seres humanos. Não que através da teologia sejamos transportados para outra esfera com pensamentos liberais e críticos, ao ponto de negar fundamentos, mas uma análise que busca um relacionamento amoroso com Olódùmarè, com as divindades, com os ancestrais e com o próximo, livres das interpretações, ritos e tradições baseadas em idiossincrasias. É na teologia que encontramos a liberdade de expressão onde por meio da liberdade revelada nos Onìmọ̀ Mẹ́fà, poderemos formar uma linha de pensamento teológico livre de manipulações e pressupostos humanos onde o teólogo passa a desenvolver uma teologia reflexiva equilibrada, passando assim a uma melhor compreensão de questões como a relação Ọ̀run-Ayé, Liderança, fé, Escatologia, predestinação e livre arbítrio, dentre outros temas dentro do campo da teologia. 

A teologia é tarefa para todos porque Olódùmarè deseja em seu infinito amor amar e ser amado. É o Ser Supremo que através da Afroteologia deseja se revelar a toda à humanidade. O ser humano em seu estado de individualização e egoísmo está se incapacitando de conhecer Olódùmarè, e somente por intermédio dos Onìmọ̀ Mẹ́fà é encontrada esta possibilidade. É neste cenário que entra o estudo da Afroteologia. A Afroteologia cumpre seu papel dando a todos a possibilidade de conhecer e desfrutar da maravilhosa graça de Olódùmarè revelada nos Onìmọ̀ Mẹ́fà.

Para muitos simplesmente ler produções sobre as tradições de matriz africana de antropólogos, etnólogos, sociólogos, historiadores ou psicólogos, brasileiros ou nigerianos é o suficiente para entendê-la. Para outros, e isto eu lamento, estes estudos são usados como um meio de se destacar entre os demais numa maneira de alimentar o ego se promovendo como detentores da verdade numa tentativa vã de serem canonizados ou reconhecidos como sábios. Deve-se fazer teologia simplesmente para Servir a Olódùmarè, às divindades, aos ancestrais e aos irmãos. O tempo de estudo, as pesquisas, o investimento financeiro e tudo mais, são puro desperdício se a motivação não for servir no e para o Ọ̀run-Ayé.

Aos estudantes de afroteologia cabe a árdua tarefa de levar as tradições de matriz africana a trilhar no caminho de uma verdadeira espiritualidade, uma vida ética e moralmente dignificada pelo sagrado, ensinar uma teologia que revele a graça de Olódùmarè como de fato ela é, sem camuflagem, sem artifícios humanos, uma teologia que parte do coração de Olódùmarè, que coloca os Onìmọ̀ Mẹ́fà como centro, uma teologia que produz vida, e vida com abundância.

Àṣẹ!

* Adaptado do texto Porque devo estudar Teologia de Marcos Aurélio Dos Santos.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Religião afro atacada em Pelotas

Não tem fim os ataques torpes a religião de matriz africana. A prova de que jornalistas escrevem o que bem entendem sem se preocupar que suas opiniões gerem massa crítica vilipendiadora e inconstitucional esta bem representada em duas postagens do jornalista Rubens Filho, no blog Amigos de Pelotas.


A obliquidade cultural do Sr. Rubens Filho, no tocante às religiões de tradição africana, fica evidente já no título grosseiro do texto e que segue no próprio. O autor critica a publicação da notícia como algo "normal". Parece que o nobre jornalista discorda dessa normalidade. Talvez, para ele, seja anormal rituais religiosos que incluem a imolação de animais. Talvez normal seja a imolação apenas nos templos do capitalismo onde são "oferecidas" ao deus Lucro meio milhão de animais por dia para uma população ávida por produtos de couro e "Macs-alguma-coisa". Talvez normal seja comprar carnes num açougue e imaginar que elas brotaram do solo. Talvez seja normal que sacerdotes católicos - ao invés de sacerdotisas africanistas - abençoassem a reforma do Mercado Municipal. Daí a laicidade da prefeitura, com toda a certeza, não seria questionada.

O autor ainda demonstra sua ignorância com relação às religiões de matriz africana ao questionar, usando entre aspas, a palavra "beneficente" do templo que realizou a cerimônia. A pergunta é: o autor investigou o referido templo para levantar suspeitas sobre as atividades sociais e comunitárias do mesmo ou apenas leu uma notícia num jornal e saiu publicando sua opinião pessoal e visivelmente intolerante à cultura e religião do outro?

A crença na existência de uma divindade, o Bará, que protege os mercados e alimenta a prosperidade desses lugares não é uma exigência universal. Assim como não é exigência que se acredite em Krshna, Buda, Alá, Yavé ou Jesus Cristo. O âmbito das crenças é individual e particular, mas o respeito às crenças alheias é o que torna os seres humanos verdadeiramente civilizados.

O que se espera de seres culturalmente evoluídos é a tolerância com relação à outras culturas e manifestações religiosas. Dizer que o ritual foi uma "chinelagem" não é menos desrespeitoso que o bispo chutar a santa na TV, pois todas as religiões são recheadas de símbolos sagrados que devidamente ritualizados dão forma à crença e a uma hierofania num coletivo comunal.

Em outra postagem o jornalista se equivoca ao lançar mão do conceito constitucional de laicidade do Estado. Equívoco porque, como a maioria das coisas aliás, os brasileiros desconhecem o sentido das palavras e associa laicidade com arreligiosidade. O que é um erro, crasso devo acrescentar. A laicidade do município de Pelotas garante que todos os religiosos têm liberdade para executar suas liturgias sem embaraçamento. A laicidade não proíbe as manifestações religiosas, pelo contrário, garante apenas que não existe uma religião de Estado. E o artigo 5º da Constituição Federal ainda garante essa liberdade em espaços públicos. Espaço público não significa "espaço de governo", nem "espaço da maioria", mas sim espaço de todos. Então os atos litúrgicos executados no Mercado Municipal estão legalmente amparados.

Entre os comentaristas a coisa se multiplica inclusive acusando-nos de pessoas medievais, primitivas, involuídas. Conceitos estes que estão ultrapassados pela comunidade científica mundial, pois já se sabe que não existe cultura inferior ou superior, evoluída ou involuída, primitiva ou moderna. O que existe é a cultura do outro e como tal deve ser respeitada. Não é necessário que se aprove os comportamentos culturais de outrem, mas é crucial que, para que haja paz social, se respeite o diferente.

O Bará do Mercado é uma tradição na religião afro-gaúcha e foi tombado como patrimônio imaterial na cidade de Porto Alegre.


Aqui um manifesto público de entidades contra o vilipêndio. https://docs.com/MC44

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Record ataca religiões afro, novamente

Termo cunhado pelo Teólogo Afro Jayro Pereira de Jesus, Afrotheofobia se refere a discursos e práticas de todo o tipo que discriminem e preconceituam as religiões de matriz africana e afro-brasileiras. As religiões afro foram perseguidas ao longo da história humana devido a uma série de fatores, todos ideológicos. O principal perseguidor, desde sempre, foi o cristianismo tanto direta quanto indiretamente.
O que motiva essa perseguição, penso, é um dos elementos mais importantes dessa religião: o conceito de bem e mal, ou melhor, o seu maniqueísmo. Para os cristãos o bem e o mal são forças distintas que se originam em “seres” distintos. Assim o “bem” tem origem em Javé, enquanto o “mal” tem origem no diabo. Estas ideias teológicas possuem fundamentação em Agostinho de  Hipona, que publicou em 426 o seu “Cidade de Deus”, onde descreve o mundo dividido entre o dos homens (o mundo terreno, sem deus e por consequência à mercê do diabo) e o dos céus (o mundo espiritual, livre do mal e do diabo). A cidade de deus seria aquela que estivesse em plena conformidade com os desígnios desse deus, fundamentado em suas escrituras sagradas. Isto significa que tudo o que não estivesse em conformidade com essas escrituras, pertence ao diabo.
O que surge daí é a Idade Média.
Durante a Idade Média ouve uma grande perseguição à todas as formas religiosas que não estavam em conformidade com a bíblia. Assim as religiões tradicionais europeias foram associadas ao diabo e sua prática foi esmagada pela Igreja.
Hoje vemos algo idêntico.
Recentemente foi ao ar uma matéria jornalística no programa Domingo Espetacular da Rede Record de Televisão, onde o repórter Michael Keller associa assassinatos à práticas religiosas africanas. A matéria é completamente tendenciosa. O mais curioso é ver que o repórter utiliza as mesmas expressões utilizadas pela Santa Inquisição durante a Idade Média para definir as práticas ritualísticas ugandenses.
Na edição de chamada da matéria já demonstra a má-fé dos jornalistas da Record ao falar de crianças assassinadas e mostrar cenas de rituais que, no decorrer da reportagem, percebemos que não tem nada a ver com os fatos.
Já no início da reportagem Keller fala sobre as décadas de atraso econômico do país, mas não diz que é devido à exploração colonial inglesa e seu decorrente abandono após a independência em 1962. Depois afirma o crescimento fantástico que o país está tendo, mas associa isso à supostos rituais que incluiriam assassinatos de crianças.
O termo que usa é “sacrifícios de seres humanos” e não assassinato, ou seja, ele atribui caráter religioso aos assassinatos com a intenção óbvia de desqualificar a religiosidade local. Mas não só isso: ao dizer que para cada prédio existe um assassinato, Keller quer que acreditemos que essas são práticas típicas do país, o que é desmentido em seguida já que aparecem várias notícias em jornais, entrevistas com pais inconformados e fundações que lutam contra o infanticídio. Isto por si só já demonstra que esses assassinatos não são uma expressão cultural ou religiosa, mas sim um fato social que é combatido pela população.
Keller visita templos e sacerdotes numa tentativa débil de relacionar uma coisa à outra. A narrativa que dá sobre as imagens é de pura má fé. Com certeza esse “profissional” matou as aulas de antropologia na faculdade que estudou. Chama os templos de "casas de feitiçaria" e as sacerdotisas de "bruxas" tal qual um inquisidor medieval. Não entende os rituais que presencia, nem busca entendê-los, apenas os descreve segundo seu entendimento pessoal completamente desconectado de seus propósitos teológicos e sociais.
É público e notório que a Record pertence ao Bispo fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo e que as igrejas neopentecostais, mas esta em especial devido ao imenso poder econômico que possui, declararam guerra às religiões de matriz africana. Essa matéria, visivelmente encomendada pela Igreja, é mais uma demonstração da articulação cristã na tentativa de caluniar as religiões de matriz africana. Não é de hoje que somos acusados de assassinos de crianças, mas devido à inexistência de provas a Igreja mandou seus repórteres direto na origem de nossa religião, a África, para, numa tentativa vil, provar que falam a verdade.
É triste ver um veículo concedido por nós cidadãos se dedicar à vilipendiar inescrupulosamente uma cultura exclusivamente para fins próprios. A história está se repetindo. O próximo passo é queimar pessoas em praça pública. Se o caro leitor compactua com isso, se mantenha sentado, mas se não, então junte-se ao movimento pela liberdade religiosa.

Axé.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Encontrei uma parte deste texto enquanto fazia uma limpa na minha estante, vendo o que poderia ser descartado e o que eu deveria manter. Ele é antigo, de 05 de fevereiro de 2006, mas acho que é bem pertinente para este momento em que, novamente, os inconformados discutem a validade das cotas na UFRGS. No texto que tenho está assinado por Antônio Lima, e está com a data já mencionada. Não sei quem é nem sei se foi ele o autor do texto. Vasculhando pela internet não tive dificuldades em encontrar o texto completo noutro blog e o reproduzirei na íntegra.
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Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Estudantes racistas da UFRGS exercendo sua inteligência
 superior para dar vasão á sua liberdade de expressão.
Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.

A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?

O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!

Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?

Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo):

1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc;

2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego;

3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função;

4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro;

5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça;

6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir; 

7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça;

8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele;

9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação;

10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura;

11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça;

12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira";

13) Sempre tive professores da minha raça;

14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação;

15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu;

16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça; 

17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça;

18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira;

19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo;

20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio;

21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal;

22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades;

23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.

Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.

Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!



terça-feira, 29 de maio de 2012

Oficinas de Temática Afrodescendente

I Seminário Estadual de Estudos das
Religiões de Matriz Africana
Desde 2006, quando trabalhei no Memorial do Rio Grande do Sul, desenvolvi e realizo duas oficinas voltadas para a compreensão da temática afrodescendente. Estas oficinas já atenderam cerca de 30 escolas (algumas repetiram em anos seguidos), totalizando juntas mais de 5 mil espectadores entre alunos e professores desde as séries finais do Ensino Fundamental até cursos de graduação na PUC, Unilasalle e FAPA; além de cursos de formação para funcionários no Hospital Cristo Redentor e em terreiros afro-gaúchos.

Agende as oficinas em sua instituição ou templo através dos fones (51) 33547119 (Oi fixo) - 91771712 (Claro) - 85614469 (Oi) - 82855783 (Tim) - 93178662 (Claro). Valores acessíveis.

Abaixo release das oficinas.

1 - Oficina Educação Anti-Racista e a História e Cultura Africana e Afro-Brasileira

Formação no Hospital Cristo Redentor
O racismo no Brasil existe de forma naturalizada o que torna a compreensão da necessidade da luta anti-racista muito difícil de ser assimilada. Isto se deve aos mecanismos criados historicamente para segregar o negro em nossa sociedade. Esta oficina resgata a História dos africanos e seus descendentes na África e no Brasil como proposta de superação deste racismo à partir dos parâmetros preconizados pela Lei 10.639/03.
Com o objetivo de compreender os processos que geraram o racismo existente na sociedade brasileira de hoje e sugerir formas e métodos para a sua superação, trabalhando os seguintes conteúdos: a dinâmica do racismo no Brasil; história e cultura da África; as etnias africanas e seu legado; a dinâmica da escravidão no Brasil e o negro na sociedade de hoje.


2 - Oficina Religião e Religiosidade Africana e Afro-Brasileira

Nos deparamos, nos dias de hoje, com um crescente investimento de pessoas mal esclarecidas na fomentação da intolerância religiosa. Isto se dá por total desconhecimento por parte do agressor a qualquer religião que não seja a professada por ele. As religiões de matriz africana são religiões que foram discriminadas desde a época da escravidão até os dias atuais. Esta oficina resgata a História, a Teologia e a Filosofia das culturas religiosas africanas como proposta para a superação da intolerância para com as religiões afro-brasileiras.
O objetivo dessa oficina é compreender os processos históricos dos africanos e afro-descendentes e sua cosmovisão, gerando, assim, um sentimento de tolerância e, sobretudo, respeito à cultura afro-religiosa.
Formação de Professores da SEC
na Casa de Cultura Mário Quintana
Para tanto, serão trabalhados os seguintes conteúdos: a História e Cultura da África; as etnias africanas e suas permanências na religiosidade do brasileiro; a dinâmica da escravidão no Brasil; e a Cosmovisão africana.


Como metodologia para ambas as oficinas serão utilizadas aulas dialogadas onde nos apropriamos do conhecimento empírico dos alunos para construir o conhecimento crítica e reflexivamente com o auxílio de músicas, vídeos e exposição de slides.

Como material de apoio será necessário o uso de projetor de vídeo (datashow) e caixa de som com possibilidade de acoplação do notebook; ou retroprojetor e aparelho de CD; ou TV e DVD.

Estas oficinas tem como público alvo professores e alunos do ensino superior, do ensino médio, das séries finais do ensino fundamental, do ensino profissionalizante, da educação de jovens e adultos (EJA), afro-religiosos e demais interessados.

Em dia único cada oficina tem duração média de uma hora e trinta minutos (1h30min), mas há a possibilidade de desmembramento para buscar maior profundidade dos temas trabalhados totalizando até oito horas.


Meu currículo pode ser visto na Plataforma Lattes.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Qual a classificação das religiões afro?


 Existem muitas teorias a respeito da classificação das religiões de matriz africana. Alguns estudiosos às classificam como sendo animistas, pois entendem que os Orixás são as forças ou elementos que animam a natureza. Alguns esotéricos até chamam os Orixás de Elementais, pois entendem que Eles são como estes seres protetores da natureza. Outros pesquisadores entendem que os Orixás são deuses, pois possuem templos dedicados à Eles, poderes capazes de realizar feitos incríveis e que podemos interagir diretamente com Eles. Há ainda uma terceira teoria que afirma o monoteísmo dessas religiões com base na análise da figura de Olódùmarè, que é completamente deixada de lado pelas teorias anteriores.
Olódùmarè (ou Ọlọ́runỌba-Ọ̀run, etc.) é entendido pelos iorubás como sendo o seu Deus. Detentor dos poderes que possibilitam e regulam toda a existência, tanto no Ọ̀run (mundo imaterial, transcendente) como no Àiyé (mundo material, imanente). É de Olódùmarè que vem o Àṣẹ, a força imaterial divina, poder de criação e transformação de todas as coisas.
Teólogos, desde Santo Agostinho de Hipona, têm afirmado que Deus é o ser supremo, princípio gerador do mundo nas religiões. O que sustenta o monoteísmo é a crença na existência de um único Deus que é a origem de todas as coisas existentes, sendo descrito com atributos de perfeição: infinitude, imutabilidade, eternidade, bondade, conhecimento e poder. Além destes, existem três atributos específicos que são amplamente divulgados: onisciência, onipotência e onipresença.
Em Olódùmarè encontramos todos esses elementos, pois Ele é o Criador, pois tudo aquilo que existe, inclusive os Orixás, todas as formas de espíritos, todos os seres viventes, e o próprio trabalho da criação da Terra, têm sua origem nEle; é rei, pois os iorubás o veem como um rei com majestade única e incomparável; é Juíz, pois todos os atos dos homens e até dos Orixás não escapam ao seu julgamento; é onipotente, pois para Ele nada é impossível; é imortal, pois a morte é criação sua e não pode submeter-lhe; é único, por isso não existe formas de culto, imagens ou pinturas, pois não pode ser comparado; é onisciente, possui a plena consciência; é transcendente, pois está acima do mundo; é entendido como sagrado tão ritual como eticamente.
Os Orixás, pelo contrário, não são deuses, pois não possuem essas qualidades. Os Orixás foram criados por Olódùmarè e ganharam dEle seus poderes, assim cada Orixá é entendido como uma manifestação de Olódùmarè, mas não Ele mesmo.
Cada Orixá tem demandas específicas e receberam de Olódùmarè poderes para realizá-las. São intercessores dos homens junto a Deus e expressam a vontade de Deus junto aos homens. Em Teologia comparada com o cristianismo, os Orixás seriam criações semelhantes aos anjos. Possuem amplos poderes, mas não são oniscientes, pois dependem de Ọ̀rúnmìlà para tomar decisões; não são onipotentes, pois dependem uns dos outros para executar suas tarefas com plenitude; não são onipresentes, pois sua presença tem que ser evocada. Por isso tudo os Orixás não podem ser confundidos com deuses.
Se somente Olódùmarè é Deus, então a classificação das religiões de matriz africana só pode ser o monoteísmo.

Referências

ADÉKỌ̀YÀ, Olúmúyiwá Anthony. Yorùbá: tradição oral e história. Terceira Imagem: São Paulo, 1999.
BENISTE, José. Ọ̀run-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a terra. 6ª ed. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2008. 336p.
BOTAS, Paulo Cezar Loureiro. Carne do sagrado, Edun Ara: devaneios sobre a espiritualidade dos orixás. Koinonia Presença Ecumênica e Serviço/Vozes: Rio de Janeiro/Petrópolis, 1996.
DEUS. Wickipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Deus>. Acesso em: 24 maio 2012.
DEUS. Enciclopédia Microsoft Encarta 2001. Microsoft Corporation, 2001. 1 CD-ROM.
ÌDÒWÚ, E. Bólájí. Olódùmarè: God in yorùbá belief. Longmans: Londres, 1968.
KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. 3ª ed. Europa-América: Portugal, 1999.
SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, aṣèṣè e o culto égun na Bahia. Petrópolis: Vozes, 1986.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Curso de Iorubá em Porto Alegre

Recebi hoje um e-mail do Prof. Dr. - e meu amigo pessoal - Norton F. Corrêa divulgando um curso de Iorubá ministrado pelo Prof. Gideon Babalola Idowu na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre.

O Prof. Corrêa ainda informa o que segue:

"O Prof. Idowu, africano da etnia Iorubá, graduado em Letras pela UFRGS e com estudos nos EUA, é autor de uma ótima gramática iorubá, recentemente reeditada [Uma abordagem moderna ao yorùbá (nagô): Gramática, Exercícios, Mini Dicionário].
Meu amigo pessoal desde muitos anos, quando estudou e se radicou em Porto Alegre, me auxiliou, muitas vezes, na tradução de palavras utilizadas no batuque. É um profissional muito sério, competente e profundo estudioso da língua Iorubá, características estas pelas quais o recomendo.
Assim, peço aos amigos o obséquio de divulgar o curso através de seus sítios e redes de relacionamento, pelo que agradeço.
Maiores informações no sítio www.edeyoruba.com ou com o Prof. Gideon, pelo email Gideon Idowu gidowu@gmail.com
Um grande abraço e tudo de bom para todos.
Norton F. Corrêa"


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Metodologia de pesquisa afro-religiosa

Uma discussão entre eu e um amigo num grupo do Facebook chamou a atenção de Bàbá Gilson de Obá que quis publicar no seu blog.

Transformei a discussão num pequeno texto sobre metodologia simplificada para a pesquisa sobre a religião afro.

Clique aqui para ler.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

SEMINÁRIO SOBRE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA



Visões a Respeito da Intolerância Religiosa, pensamentos e Críticas, o Caminho Rumo a Aceitação da Pluralidade Religiosa

Estabelecendo um diálogo inter-religioso esperamos conscientizar o público a respeito da diversidade cultural e do pluralismo religioso presente no país, mas que apesar de tudo constantemente vemos casos de intolerãncia . A partir desta análise e da compreenção do que é a fé do outro para assumirmos uma postura de respeito e tolerância e encontrar caminhos e soluções teóricas e práticas para não apenas estabelecer outros diálogos, mas realmente caminhar em busca da aceitação do outro.

A intolerância religiosa é tão antiga quanto a própria história da religião, o reconhecimento do outro como seu semelhante sempre foi um problema, negar o outro é de uma certa forma afirmar sua identidade a partir dessa negação, assim, como Reinhart Koselleck deixa claro ao pensar no contraconceito assimétrico, onde uma determinada sociedade indentifica-se ao negar outra, o que para Koselleck ocorre em pares dentro de três “regiões” semânticas: temporal, cultural e racial.

A religião é um elemento da cultura, um dos inúmeros componentes que a estrutura e dá a um povo simbolos que lhe dão uma identidade, coesão e sentimento de pertença. Mas, ao longo da história essa negação da religião e da cultura do outro gerou perseguições e conflitos.

Se a intolerância religiosa tem uma historicidade, a tolerância religiosa também possuiu a sua historicidade, dessa forma, podemos pontuar ao longo da história, casos de tolerância a entendendo dentro do conjuntos de estruturas mentais dos homens dos séculos que se passaram. O estabelecimento de um diálogo inter-religioso foi um fenômeno iniciado no século XIX, e que só hoje começa a dar seus primeiros frutos.

Apesar das semalhanças entre religiões os casos de intolerância religiosa provocaram milhões de mortes. Portanto, o Seminário sobre Intolerância Religiosa tem como objetivo que se fechem as portas para a intolerância não só a religiosa, mais também todas as outras, pois é a diversidade cultural que faz a espécie humana ser tão rica.

EXTRUTURA DO SEMINÁRIO

O primeiro dia será destinado a falar sobre intolerância e o segundo dia destinado a falar a respeito de tolerâcia religiosa. Sendo um seminário que propõe o dialogo inter-religioso, estão convidados sete representantes das seguintes religiões:

1- Catolicismo – Padre Carlos José Feeburg (engenheiro químico, matemático, teólogo e pároco da Igreja Santa Catarina);
2- Protestantismo – Reverendo Humberto Maiztegui Gonçalves (Teólogo e clérigo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil);
3- Judaísmo – A definir;
4- Islamismo – Sheik Abu Abdul Rahman Rodrigo Oliveira Rodrigues (teólogo e Imã da Comunidade Islâmica de Porto Alegre);
5- Budismo – Monja Kokai (psicóloga, psicoterapeuta e orientadora da prática Zen-Budista no Zen Vale dos Sinos);
6- Kardecismo – A definir
7- Africanismo – Bàbá Hendrix Adégbohún Ifáomi ti Òrùnmìlá (historiador, cientista das religiões e babalorixá do Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre).

Local: Paróquia Santa Catarina (Av. Souza Melo, 207 - Bairro Sarandi - Porto Alegre)
Data: 28 e 29 de abril
Horário: das 14h às 18h
Iscrições gratuitas pelo e-mail historiadroysen@hotmail.com
Organização e execuçãoVINÍCUS MARCELO SILVA (Graduando no curso de licenciatura em História da Fapa)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Lórògun - Rito de Guerra


O modo de produção econômico principal entre os povos africanos é a agricultura. A produção excedente é comercializada em grandes mercados. Mas a agricultura é uma atividade muito frágil: o tempo (incontrolável) e a mão-de-obra são fatores determinantes para a economia de uma região. Por isso muitos povos, na ansiedade de garantir uma subsistência durante o ano todo, travavam conflitos com a intenção de dominar regiões e assim cobrar tributos desses reinos. Com os iorubás não era diferente.
Existe ainda hoje um grande reino iorubá, no estado de Oxum, chamado Ijexá, origem da nossa Nação gaúcha. Este reino possui sua capital na cidade de Ilexá, onde cultua-se o Orixá Obokun que, embora sendo um Orixá da criação (Oxalá), é um guerreiro poderoso, tão importante na região que dá título ao rei (Obá Obokun).
Ogedengbe Obanla
Chefe guerreiro de Ijexá
Os Ijexás são um povo extremamente guerreiro. Travaram muitas guerras contra outras etnias iorubás para a manutenção dos seus domínios. E é aqui que entra a questão religiosa.
Para povos religiosos, como os iorubás, todas as instâncias da vida são sagradas, inclusive a guerra. É comum para muitos povos que, em tempos de paz, sejam realizados rituais (cantos, danças, beberagens, festins) de guerra. Na teologia desses povos não são apenas as pessoas que vão para a guerra, mas também suas divindades, os Orixás, e é aí que surge esse rito chamado de Lórògun (Rito de Guerra, em iorubá), ou como chamamos aqui “Mandar os Santos (ou Orixás) para a Guerra”.
Esse ritual consiste em três partes: a ida dos Orixás à guerra, o período de abstinência e o retorno dos Orixás. Na primeira parte, realizada à noite, os Orixás guerreiros se manifestam em seus “cavalos” durante um pequeno orô (rito). Após, o quarto-de-santo ficará fechado. Inicia-se então a segunda parte onde devemos nos abster de bebidas alcoólicas ou revitalizantes, carnes, sexo (diz-se que um filho concebido neste período poderia nascer com espírito brigão), qualquer coisa que nos agite, pois podem se transformar em brigas com consequências trágicas. Simbolicamente, este período de abstinência serve para nos lembrar dos períodos de guerra onde a comida é escassa e os nervos estão à flor da pele. A terceira parte é o retorno dos Orixás para casa, ritual realizado na parte da manhã, é uma grande festa de recepção onde todos os Orixás se manifestam. O sentimento é de alegria pelo Seu retorno, o que também simboliza o retorno a normalidade.
Na transposição dessa cultura ao Brasil, na época da escravidão, todos os rituais africanos tiveram que ser adaptados ao calendário católico. Assim, esse ritual africano é realizado na semana santa, com a primeira etapa na quarta-feira, a segunda na quinta e sexta-feira, e a terceira no sábado pela manhã.
Por causa da adaptação ao calendário litúrgico católico, muitas pessoas que desconhecem a história e os propósitos desse ritual, usaram a ideologia cristã para explicá-lo, mas como podemos ver esse ritual é tipicamente africano, faz parte das nossas raízes mais remotas e devemos realizá-lo com muito respeito e reverência.

Referências
ADÉKỌ̀, Olúmúyiwá Anthony. Yorùbá: tradição oral e história. Terceira Imagem: São Paulo, 1999.
AMIN, Samir. O desenvolvimento desigual: ensaio sobre as formações sociais do capitalismo periférico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976. 334 p.
OGEDENGBE: the legendary african warrior. Disponível em <http://www.ogedengbe.com>. Acesso em 03/04/12.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Umbanda na Vila São José - Porto Alegre


Sou morador da Vila São José desde que nasci. Vi esta vila crescer em número de casas e de centros de Umbanda o que me levou ao questionamento: como a Umbanda foi parar na Vila e por que os moradores a aceitaram apesar da crítica cristã sobre essa religião. Este trabalho vem ao encontro desses questionamentos na intenção de respondê-los se não totalmente ao menos em parte. Para tanto, me proponho a analisar os processos que levaram o povo da Vila São José a adoção da Umbanda como sua confissão religiosa. Identificarei a dinâmica da ideologia umbandista na Vila São José; a desconstrução dessas ideologias pela comunidade religiosa cristã no transcorrer do século e a reminiscência dessa concepção hoje; e a caracterização da religiosidade, da economia e das relações sociais dos moradores da vila.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

RÚBỌ ÒRÌṢÀ - As Oferendas na Religião Afro: usos e sentidos


Àgo yè égbòn!

Acreditamos que o nosso mundo, o Àiyé, é simbionte com o Òrun, o mundo transcendente. Tudo o que acontece aqui tem reflexo lá e vice-versa. O Òrun não é o céu como alguns antropólogos afirmaram. Pois não existe essa distância entre o Òrun e o Àiyé. O Òrun está aqui e agora, não podemos vê-lo, mas está aqui.
Oferendas no Ojubó do Ilé Àse Òrìsà Wúre
A terra pertence aos Òrìṣà, por isso os alimentos cultivados nela também pertencem à Eles. A relação das oferendas, que os leigos chamam de despachos, é de tributo aos Òrìṣà. Se nós nos alimentamos é graças ao Àṣẹ de fertilidade e fecundidade dos Òrìṣà manifestados nas plantações e nas culturas de animais de abate, então lhes oferecemos parte do alimento como agradecimento pela doação desse poder.
A urbanização do culto deturpou alguns desses conceitos mas sua essência é a mesma. Como os dois mundos são simbióticos, vemos em certos pontos do Àiyé espaços de ligação direta (como portais) com o Òrun. Estes espaços, então, se tornam sagrados para nós. Assim encruzilhadas, rios, praias, praças, pedreiras, mato e até trilhos de trem são entendidos como lugares sagrados, pois é onde os Òrìṣà se manifestam. Por isso as oferendas são deixadas nesses lugares.
Nas encruzilhadas Èṣù-Bara reina absoluto, pois o cruzamento dos caminhos simbolizam o poder de comunicação desse Òrìṣà que intercomunica pessoas e lugares; as Ìyába ou Òrìṣà femininas tem nos rios e praias - tanto de água doce quanto de água salgada - além de cachoeiras e lagos, Seu lugar sagrado, pois Elas são as grandes Mães que garantem a vida das águas; as praças infantis também são sagradas para nós, pois acreditamos que os Ibéji, os Òrìṣà crianças, ali estão protegendo os nossos filhos e netos; as pedreiras é lugar de Ṣàngó, pois o estrondo que fazem ao bater se assemelha ao trovão do qual esse Òrìṣà é dono; no mato temos uma infinidade de outros Òrìṣà: Ògún, YánsànỌdẹ, Ọtin, Òsányìn, Ṣànpònná, Ọbà.
Ògún é uma divindade ligada ao ferro e sua manipulação. É o Òrìṣà Alágbèdẹ (ferreiro) e, por extensão, das tecnologias, pois o Seu legado foi o conhecimento que permitiu à humanidade se desenvolver. Por isso entendemos que Ògún também é o Òrìṣà da tecnologia. Ele também é descrito como o Òrìṣà Asiwajú, ou seja, "o desbravador". É quem abre as estradas transformando o mato em cidade. Os trilhos de trem, por serem feitos de ferro e serem um tipo de estrada de ligação entre lugares, acabam se tornando espaços sagrados para esse Òrìṣà.
Algumas oferendas são feitas com uma intenção específica, para alcançar algum objetivo específico. Essas oferendas são chamadas de ebós, trabalhos, serviços, feitiços ou macumbas(1). Esses nomes – com exceção do termo ebọ, que significa "comida" em iorubá – foram dados por pessoas que desconhecem ou temem a religião afro ou ainda que associam a religião afro à práticas de "bruxaria"(2).
É crucial que estes ebọ sejam entregues em material biodegradável e em regiões onde a própria natureza se encarregue de absorvê-los e transformá-los em energia para a própria sobrevivência da Terra.
Barco ecológico.
No entanto, o advento da industrialização de produtos e a crescente urbanização de áreas antes destinadas ao culto, provocaram um desvio no conhecimento ecológico afro-brasileiro ao longo dos anos. Conscientes disso, produzimos cartilhas de sensibilização ecológica(3) e já existem oficinas de oferendas ecologicamente corretas, que minimizam o impacto no meio ambiente(4).
A religião de matriz africana é a única religião que realmente se preocupa com o meio ambiente, pois nossos  Òrìṣà são os vivificadores da natureza. Nossas práticas são em favor da manutenção da natureza e da vida. Ao cultuarmos os Òrìṣà garantimos a preservação do mundo.

Algumas pessoas mal intencionadas procuram degradar a religião dos Òrìṣà ao afirmarem que produzimos lixo e o despejamos em qualquer lugar de forma a tornar ambientes inabitáveis.

Ora, quem polui o meio ambiente são as indústrias que fabricam produtos descartáveis e da nossa sociedade que não tem a cultura da preocupação ecológica.
Os afro-religiosos não podem ser responsabilizados pela sujeira do mundo. Aliás, há um grande hiato entre "sujeira" e "oferenda". O primeiro é apenas o descarte de algo não mais utilizável, enquanto o segundo é o exercício de uma religiosidade, um ato sagrado. Ao chamar uma oferenda de lixo, a pessoa estará sendo intolerante, discriminatória e preconceituosa.
Quem nos acusa dessa forma não é diferente do pastor que chutou a "santa" em rede nacional. Para o pastor era apenas uma imagem de gesso e por isso não havia problema em chutar. Mas para milhões de pessoas aquela imagem de gesso era um símbolo de religiosidade e fé.
O mesmo acontece aqui. Quando alguém chama nossas oferendas de "lixo", está ofendendo o que para milhões de brasileiros é símbolo de religiosidade e fé.

Pùpó Àṣẹ gbogbo

Notas:
(1) Macumba é o nome de uma árvore do qual os quimbundos fabricavam tambores que acabavam recebendo o mesmo nome. As práticas religiosas bantu no Rio de Janeiro utilizavam este termo para se auto-designar, mas a demonização da palavra pela Igreja Católica fez com que o abandonassem trocando-o por outro mais respeitável: Candomblé de Angola
(2) O termo "bruxaria" figura aqui no sentido de práticas mágicas maléficas imaginadas pelo senso comum. De forma alguma me refiro às práticas ritualísticas pagãs ou neopagãs.
(3) http://www.fauers.com.br/meio_ambiente/cartilha_oferenda_ecolf3gica.html 
(4) http://jorgetioosala.wordpress.com/2012/01/24/oficina-de-barco-ecologico-para-yemonja/


Fontes:
BENISTE, José. Òrun-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a terra. 6ª ed. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2008. 336p.
CAUVIN, Jacques. Nascimento das divindades, nascimento da agricultura: a revolução dos símbolos no neolitico. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. 344 p.
CORRÊA, Norton F. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 1992.
SÁ JUNIOR, Mário Teixeira de. Fé cega justiça amolada: os discursos de controle sobre as práticas religiosas afro-brasileiras na república (1889/1950). In.: Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n. 9, Jan. 2011.
SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàde, asèsè e o culto égun na Bahia. Petrópolis: Vozes, 1986.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Game sobre Revolta dos Alfaiates está disponível para download





Carol Soledade

Núcleo de Jornalismo
Assessoria de Comunicação


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Jogo é financiado pela Fapesb, pelo programa Pró-Forte UNEB e tem apoio do CNPq. Imagens: Divulgação
Simular o cenário da sociedade baiana no fim do século XVIII, durante a Revolta dos Alfaiates (ou Revolta dos Búzios), resgatando a história e criando um espaço virtual no qual estudantes e professores podem discutir conceitos e significados sobre esse importante momento histórico.
Esses são os objetivos do novo game pedagógico Búzios: Ecos da Liberdade, que já está disponível para download no site www.comunidadesvirt uais.pro. br/buzios. A iniciativa foi desenvolvida pelo grupo de pesquisa Comunidades Virtuais de Aprendizagem, do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB.
A professora da universidade Lynn Alves, coordenadora do grupo de pesquisa, explica que o jogo é em versão 2D, no estilo adventure, desenvolvido em um software específico para animação, chamado Flash.
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Classes sociais menos favorecidas estão destacadas

“O personagem principal, Francisco Vilar, que é ficcional, é um mulato brasileiro que vai estudar Direito em Portugal. Ao concluir seus estudos, retorna para sua cidade natal, Salvador. O enredo, aliado ao conteúdo histórico da Revolta dos Alfaiates, busca imergir o game na atmosfera soteropolitana dos anos de 1798 e 1799, abordando o contexto econômico, político e social da época e temas como a escravidão”, conta Lynn.
Além de acesso ao jogo, Lynn explica que os usuários também podem ter contato com todo o material produzido para o game, a exemplo de orientações pedagógicas, memorial técnico e artigos produzidos pelo grupo.
“A Revolta dos Alfaiates é considerada o levante do fim do período colonial mais incisivo na defesa dos ideais de liberdade e igualdade dos cidadãos, propagados pela Revolução Francesa. O mais importante é que diferentes camadas da sociedade participaram do movimento, principalmente representantes de classes mais pobres e afrodescendentes” , reforça Lynn.
A coordenadora explica ainda que o jogo cria situações que favorecem a reflexão, a problematizaçã o e o confronto com a realidade atual.
personagens2
Game retrata personagens marcantes da época

“É importante ressaltar que Salvador foi a primeira capital do Brasil a adotar oficialmente o ensino da cultura negra. Todavia, continua ostentando uma realidade em que faltam respeito e valorização à etnia de sua população pobre”, observa a coordenadora.
O projeto do game - que retrata alguns personagens marcantes do acontecimento histórico, como Cipriano Barata, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luiz Gonzaga - é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e pelo programa Pró-Forte UNEB, além de contar com bolsas de iniciação científica oferecidas pelo CNPq.
Além de Búzios: Ecos da Liberdade, o grupo de pesquisa Comunidades Virtuais de Aprendizagem já desenvolveu outros games, a exemplo do Tríade, que trata sobre a Revolução Francesa, e Aventura no Polo, no qual os usuários aprendem sobre as matérias-primas produzidas por 15 empresas do Polo Industrial de Camaçari.
Informações: Comunidades Virtuais de Aprendizagem/ Campus I – Tel.: (71) 3117-2458

Links Interessantes

Ensino de história e cultura africana em sala de aula
http://www.slideshare.net/culturaafro/frica-1691445

Sociedades negras pré-históricas no Brasil

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