sexta-feira, 25 de maio de 2012

Qual a classificação das religiões afro?


 Existem muitas teorias a respeito da classificação das religiões de matriz africana. Alguns estudiosos às classificam como sendo animistas, pois entendem que os Orixás são as forças ou elementos que animam a natureza. Alguns esotéricos até chamam os Orixás de Elementais, pois entendem que Eles são como estes seres protetores da natureza. Outros pesquisadores entendem que os Orixás são deuses, pois possuem templos dedicados à Eles, poderes capazes de realizar feitos incríveis e que podemos interagir diretamente com Eles. Há ainda uma terceira teoria que afirma o monoteísmo dessas religiões com base na análise da figura de Olódùmarè, que é completamente deixada de lado pelas teorias anteriores.
Olódùmarè (ou Ọlọ́runỌba-Ọ̀run, etc.) é entendido pelos iorubás como sendo o seu Deus. Detentor dos poderes que possibilitam e regulam toda a existência, tanto no Ọ̀run (mundo imaterial, transcendente) como no Àiyé (mundo material, imanente). É de Olódùmarè que vem o Àṣẹ, a força imaterial divina, poder de criação e transformação de todas as coisas.
Teólogos, desde Santo Agostinho de Hipona, têm afirmado que Deus é o ser supremo, princípio gerador do mundo nas religiões. O que sustenta o monoteísmo é a crença na existência de um único Deus que é a origem de todas as coisas existentes, sendo descrito com atributos de perfeição: infinitude, imutabilidade, eternidade, bondade, conhecimento e poder. Além destes, existem três atributos específicos que são amplamente divulgados: onisciência, onipotência e onipresença.
Em Olódùmarè encontramos todos esses elementos, pois Ele é o Criador, pois tudo aquilo que existe, inclusive os Orixás, todas as formas de espíritos, todos os seres viventes, e o próprio trabalho da criação da Terra, têm sua origem nEle; é rei, pois os iorubás o veem como um rei com majestade única e incomparável; é Juíz, pois todos os atos dos homens e até dos Orixás não escapam ao seu julgamento; é onipotente, pois para Ele nada é impossível; é imortal, pois a morte é criação sua e não pode submeter-lhe; é único, por isso não existe formas de culto, imagens ou pinturas, pois não pode ser comparado; é onisciente, possui a plena consciência; é transcendente, pois está acima do mundo; é entendido como sagrado tão ritual como eticamente.
Os Orixás, pelo contrário, não são deuses, pois não possuem essas qualidades. Os Orixás foram criados por Olódùmarè e ganharam dEle seus poderes, assim cada Orixá é entendido como uma manifestação de Olódùmarè, mas não Ele mesmo.
Cada Orixá tem demandas específicas e receberam de Olódùmarè poderes para realizá-las. São intercessores dos homens junto a Deus e expressam a vontade de Deus junto aos homens. Em Teologia comparada com o cristianismo, os Orixás seriam criações semelhantes aos anjos. Possuem amplos poderes, mas não são oniscientes, pois dependem de Ọ̀rúnmìlà para tomar decisões; não são onipotentes, pois dependem uns dos outros para executar suas tarefas com plenitude; não são onipresentes, pois sua presença tem que ser evocada. Por isso tudo os Orixás não podem ser confundidos com deuses.
Se somente Olódùmarè é Deus, então a classificação das religiões de matriz africana só pode ser o monoteísmo.

Referências

ADÉKỌ̀YÀ, Olúmúyiwá Anthony. Yorùbá: tradição oral e história. Terceira Imagem: São Paulo, 1999.
BENISTE, José. Ọ̀run-Àiyé: o encontro de dois mundos: o sistema de relacionamento nagô-yorubá entre o céu e a terra. 6ª ed. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2008. 336p.
BOTAS, Paulo Cezar Loureiro. Carne do sagrado, Edun Ara: devaneios sobre a espiritualidade dos orixás. Koinonia Presença Ecumênica e Serviço/Vozes: Rio de Janeiro/Petrópolis, 1996.
DEUS. Wickipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Deus>. Acesso em: 24 maio 2012.
DEUS. Enciclopédia Microsoft Encarta 2001. Microsoft Corporation, 2001. 1 CD-ROM.
ÌDÒWÚ, E. Bólájí. Olódùmarè: God in yorùbá belief. Longmans: Londres, 1968.
KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. 3ª ed. Europa-América: Portugal, 1999.
SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, aṣèṣè e o culto égun na Bahia. Petrópolis: Vozes, 1986.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997.

2 comentários:

Luiz L. Marins disse...

Prezado Hendrix.

O conceito iorubá sobre Olódùmarè é completamente diferente deste que tú expõe, baseado em Idowu (um pastor evangélico).

Peço por favor que examine o material no link abaixo, que deixei temporariamente aberto para ti.

https://skydrive.live.com/redir?resid=71DEA5FE230A32D4!6087&authkey=!ABVpRLokgpIEji0

O link será deletado após tua confirmação do download.

Àse o !

Bàbá Hendrix ti Òrúnmìlà disse...

Achei excepcional este trabalho de baba King. Entretanto existem alguns pontos que tem que ser levados em conta: King é sociólogo e não teólogo. Isso significa que as categorias de análise que utiliza são da sociologia. Estas categorias privilegiam o pensamento racional aristotélico que se atém a materialidade do fato. A teologia é um campo que reflete sobre as coisas do sagrado não como algo material, paupável, mas como algo que tem origem no transcendente e, por isso, se distingue substancialmente do imanente. Então o fato de itans narrarem de Olodumare consultar Ifá ou pedir que outra divindade cure seu filho não torna Olodumare menos onipotente ou onisciente, assim como o problema do mal não fica sem resposta diante de um Deus bondoso. Falta à King uma bagagem de estudos conceituais e metodológicos em teologia. Só assim ele poderá realmente teologizar.

Entenda que a teologia são reflexões filosóficas sobre as teogonias e cosmogonias. Embora outras ciências respondam certos aspectos da religião e do sagrado, elas não conseguem contemplar com totalidade o que essas manifestações são. Então o estudo sociológico, filosófico, antropológico, psicológico ou histórico das religiões nunca serão completos sem o aspecto teológico. Murad e Libâneo dizem que as ciências humanas, quando estudam as religiões, tentam entender como os homens veem Deus. Já a teologia seriam estudos que tentam entender como Deus vê os homens.

Mas gostei muito do que li.

Axé

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