quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Batuqueiro de Verdade Vota em Batuqueiro!

Será que isso é possível?
Após as eleições municipais de 2008 escrevi no meu perfil do Orkut que “de novo não temos representantes na câmara municipal!”, e complementei “êta povinho burro!”. De imediato Mãe Viviane de Iansã me chamou a atenção: “Não chama de burro. É politicamente incorreto de tua parte. [...] Esse fato não foi isolado. Tem continuidade e razões. Busque a explicação, esqueça por enquanto a conseqüência. Burro é uma justificativa emocional, e muito fácil para estes dados.”

Ela tem razão mais uma vez. Fui emotivo, passional, mas por outro lado era essa a minha intenção mesmo. Queria provocar as pessoas que lessem essa frase. Queria provocar essa reflexão. Queria que elas pensassem um pouco. Será que ganhamos alguma coisa nesta eleição?

Somando os votos de todos os candidatos a vereança de Porto Alegre ligados ao povo-de-santo, totalizariamos 5.610 votos, muito  longe ainda dos 7.046 votos que o carioca e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus Waldir Canal conseguiu para se eleger. Isso se dá pela nossa falta de união. E essa falta de união é devido a falta de consciência política de que juntos somos mais fortes que separados. Enquanto pensarmos egoisticamente, nunca deixaremos de ser tribos medievais submetidos aos desmandos dessas igrejas eletrônicas.
A única festa que poderíamos fazer é que o pastor Almerindo Filho, aquele da Universal que criou a lei contra os despachos, só obteve 12 votos. Digo poderíamos porque, com certeza, isso foi uma manobra da Universal. Almerindo já estava “queimado” e o povo ficaria de olho nele e nos seus projetos. Sabendo que o brasileiro tem a memória curta, a Universal elegeu um carioca para a câmara porto-alegrense que agora se candidata à Câmara Federal, ou seja, vai atuar direto em Brasília, pois sabemos que se elegerá; e sua plataforma política com certeza não será a nosso favor. Durante sua campanha na TV, em 2008, passa o tempo todo calado (quem sabe até para esconder o sotaque, pois sabem dos ranços que o gaúcho tem com “estrangeiros”), e é o bispo Émerson Carlos, líder da IURD no Rio Grande do Sul, quem diz: – Olá, Deus abençoe a todos. Este é Waldir Canal, meu candidato a vereador... – bastou para que toda a Igreja votasse nele. O mesmo se repete na sua campanha atual, é o bispo Romualdo Panceiro quem lhe apresenta na TV.


Agora temos uma nova chance de mudar a ideia de que "batuqueiro não vota em batuqueiro". Podemos eleger um ou mais representantes nossos à Assembléia Legislativa. Se realmente somos 80 mil casas em todo o estado, se cada casa tiver 10 filhos-de-santo, somos 800 mil eleitores que podem colocar nossos representantes ocupando a cadeira de deputado para, principalmente, nos proteger de leis criadas pelos evangélicos para nos cercear a liberdade de culto.
O meu voto vai para o Pedro de Oxum (14188), não só porque ele é meu Pai-de-Santo há 10 anos, nem porque há 10 anos eu o conheço, confio nele a ponto de lhe entregar meu ori e o da minha esposa. Nem por ele ser um verdadeiro religioso, que exerce a prática cotidiana do auxílio espiritual a quem o procura, como todos nós babalorixás e ialorixás fazemos. Nem por realizar festas públicas aos Orixás, cumprir obrigações, fazer chão todos os anos sob a mão de seu Pai-de-Santo, Pai Gelson de Bará Lodê. Meu voto vai para o Pedro de Oxum porque ele foi escolhido pelos próprios religiosos para ser seu representante.
Foi em meados de 2009 que alguns afro-religiosos preocupados com as próximas eleições movimentaram a rede de relacionamentos Orkut, na maior comunidade de discussão sobre o Batuque do RS, no sentido de pensar num possível candidato a representante nosso na Assembléia. Para isso foram feitas enquetes e o Pedro de Oxum foi conclamado a ser o nosso candidato. De início relutou, indicou outros nomes, mas não fugiu ao compromisso que lhe outorgaram.
Pedro de Oxum não caiu do céu como candidato. Não resolveu ser candidato por conta própria, nem se colocou neste papel como objetivo pessoal.
Pedro de Oxum foi escolhido pelos próprios afro-religiosos para ser candidato porque acreditamos que ele pode nos defender na Assembléia, além de criar leis e projetos que possam valorizar positivamente nosso povo.
Dia 03 de outubro vote 14188 - PEDRO DE OXUM - o candidato do Axé que faz campanha de axó, guia no pescoço e carrega o nome do seu Orixá. Não há nada mais legítimo que isto.
Àse o
Hendrix Ifáomi Silveira

Professor e Bàbálórìsà



domingo, 25 de julho de 2010

AJÈJÈ, A VIGÍLIA DO CAÇADOR



Àgo ye êgbön!

Para João Carlos de Odé Olobomi, o tão popular Deodé, um dos sacerdotes mais polêmicos que o nosso Batuque já conheceu, o Rio Grande do Sul é que, verdadeiramente, é a terra dos Orixás.
Trazidos na bagagem cultural de africanos escravizados, os Orixás são as divindades do povo iorubá, cuja origem está na Nigéria e em parte da atual República do Benin, povo de importância marcante para o mundo religioso afro-brasileiro. O Batuque, nome popular da religião dos Orixás no Rio Grande do Sul, é o fruto gaúcho de matriz iorubana, que tem como característica tradicional a formação de sacerdotes que perpetuam o axé transgeracionalizado. Os Orixás são divindades criadas por nosso único Deus, Olódùmarè, e enviados à Terra para perpetuação do axé, o poder criador de Deus.
Mãe Stella de Oxossi, Ialorixá do Axé Opô Afonjá, diz que “a religião dos Orixás é lúdica, festiva, alegre, de partilha, de boa mesa, plena de vida e fragrâncias. As comunidades heterogêneas das religiões afro-brasileiras são sementes da paz de que o mundo tanto precisa para continuar a existir. Na religião dos Orixás se festejam com especial júbilo duas etapas na vida do religioso: a iniciação - o nascimento para o Orixá - e a morte, na qual o iniciado nasce para o mundo dos ancestrais.”
De fato há um ìtàn, um mito que diz que Olu Odé – o grande chefe Caçador – encontrou uma órfã Nupé no mercado principal de Ketu, seu reino. A garotinha estrangeira parecia uma cabrita levada. Odé, emocionado, resolveu adotá-la, dando-lhe o nome de Oyá: ligeira, rápida, em língua iorubá. Passou-se o tempo e o chefe caçador ensinou à filha tudo que sabia de feitiçaria, caçadas e estratégias de guerra, exercitando-a na generosidade e no gosto pela arte. Um dia Ikú, a morte, levou o grande Olu Odé, para a tristeza da bela Oyá, a qual durante sete dias e sete noites cantou e dançou em homenagem àquele que a amara tanto. Ela reuniu as ferramentas de caça de Odé, cozinhou as iguarias de que ele mais gostava, entoou cânticos os mais significativos em homenagem ao pai, dançando durante sete noites, na companhia dos colegas de caça de Olu Odé e de todos os amigos, que também dançaram, cantaram e celebraram a memória de um bravo; o grande provedor da aldeia. Durante o ajejè, os amigos confraternizaram-se e os desafetos congraçaram-se. Na última noite, os celebrantes reuniram todos os pertences, as comidas e ferramentas de Odé e foram depositar o ''carrego'' no pé de um Iroko, a árvore Òrisa, nas profundezas das matas.
Olódùmarè, inspirado pela dedicação de Oyá, lhe concedeu o título de Rainha dos espíritos, ficando com a responsabilidade de atravessar a alma do falecido entre os nove espaços de Òrun. Assim Odé se tornou o primeiro ancestral a ser cultuado, sendo chamado de Essá Akeran. E o ritual criado por Oyá foi o primeiro Arosun realizado.
Arosun é uma palavra iorubá e é a contração de duas outras: Ará (corpo) e Osun (sono). Arosun significa “o corpo que dorme”, pois para os iorubás “o sono é primo da morte”. Os bantos, que deram origem aos chamados candomblés de Angola, celebram o mucondo e os jejes, o sirrum ou azeri, também chamado de ''tambor de choro'' no Tambor de Mina maranhense, em cerimônias muito semelhantes. Nos rituais de passagem das religiões de matriz africana, costumam-se entoar cantigas em homenagem aos ancestrais de todas as nações. No candomblé Ketu o nome dado é axexê, corruptela de ajèjè, e o primeiro a ser homenageado nessa liturgia é Odé.
O arosun é uma cerimônia na qual os iniciados dançam, cantam, comem e bebem. A liturgia é pública e os visitantes são convidados para a partilha das iguarias. O traje branco é obrigatório. A cor branca é a utilizada nas celebrações de nascimento e transformação, sendo necessária nos ritos de passagem de todas as nações.
A Nação Ijexá celebrou o arosun de João Carlos de Odé em dezembro último, na esperança de que Oyá acolha o filho de seu Pai, com festa e alegria.
Ela, Senhora dos ventos e tempestades, filha adotiva do Senhor da caça, figura nas páginas do escritor filho de Odé Olobomi, irmão de Axé de Pai Gelson de Bará (meu Avô-de-Santo), Pai Graciliano de Iemanjá, Mãe Inajara de Oxum e tantos outros filhos da Matriarca de nossa nação, Mãe Miguela de Bará Ajelu.
Sim, Deodé era babalorixá e escritor. Escrevia sobre as aventuras do Povo-de-Santo e sobre os Orixás que tanto amava. Sua Avó-de-Santo, Mãe Jovita de Xangô, é a personagem principal em várias de suas histórias.
O intelectual, nascido em Rosário do Sul, escritor de Iemanjá quer falar contigo e O malandro e o gaudério era um legítimo filho de Odé e carregava as qualidades e os defeitos que esse Orixá relega aos seus filhos. No seu perfil no site de relacionamentos Orkut, ele mesmo se definiu como "teimoso, obstinado, perseverante, inquieto, líder, autêntico e acima de tudo amigo" e que sua paixão era escrever sobre o Batuque e, claro, a comida campeira.
O fato de ser meu Tio-Avô-de-Santo e de ambos participarem ativamente do Orkut, serviu para que nos aproximássemos e daí surgisse uma amizade ímpar. Isso não significa que concordávamos com tudo. Pelo contrário. É sabido que a concordância constante é burra e por isso discutimos várias vezes, mas sempre houve o respeito mútuo, além de minha consciência de sua posição hierárquica na nação que vivencio. Respeito esse só superado pelo próprio Pai Odé Olobomi.
Ele tinha algo de magnânimo. Um andar soberano típico dos Alaketus, reis descendentes do caçador Oxossi que governou Ketu, reino da Nigéria. Sua dança era melodiosa, graciosa, lembrava o ardil do caçador embrenhado no mato à espreita da caça. Seus passos rápidos, saltos giratórios e trejeitos revelavam o seu carisma. A primeira vez que o vi fiquei encantado. Corri para me atirar aos seus pés e “bater cabeça”, mas Ele não deixou. Suas palavras ainda ecoam em minha mente...
Vejam só. Agora me dou conta que estou escrevendo sobre o escritor das Histórias de Batuque. Aquele que já foi chamado de Jorge Amado do Sul. O filho de Odé que, como seu antepassado, se tornou ancestral.
A família religiosa de matriz africana é expandida: os mortos fazem tanto parte dela quanto os vivos. Neste contexto, Deodé nunca deixará de ser meu Tio-Avô-de-Santo e sua memória será cultuada; relembrada; e o desejo de sua volta, de seu renascimento no Àiyé, existirá enquanto cantarmos
Bàbá á tètè yà o! F'ára, f'orí lòna, Bàbá á tètè yà o! F'ára, f'orí, lòna
Que seu pai venha logo! Para que o corpo e a cabeça encontre o caminho e venha logo

Púpõ àÿç gbogbo!
Artigo enviado ao Jornal Bom Axé e não publicado.

O Ataque a Portilho Desvelado

Tem rolado na internet em sites de relacionamentos como o Orkut, o Twitter e até em blogs uma suposta manifestação pública em defesa dos animais contra uma suposta lei criada pelo Deputado Estadual Edson Portilho que autorizaria torturas e maus tratos aos animais.
Como diz o blogueiro Erick da Silva, do blog Aldeia Gaulesa, "a velocidade da difusão, aliada a um instantaneísmo de pouca capacidade crítica, permitem que se gerem alguns 'mal-entendidos' e interpretações errôneas de alguns fatos."
Concordo plenamente.
De fato é de se espantar como essa história se espalhou pela internet, pois seguidamente me deparo com ela. Principalmente em época de eleições.
Eu fui testemunha ocular do ocorrido e, por isso, vou dar os seguintes esclarecimentos.
A lei da qual tanto se fala é a Lei 11.915, de 21 de maio de 2003, que instituiu o Código Estadual de Proteção aos Animais, no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul. Essa lei foi criada pelo ex-Deputado Manoel Maria (PTB), pastor evangélico. na primeira redação da Lei ficava clara a sua intenção, pois ilegalizava as práticas religiosas de matriz africana.
Não passou no legislativo.
Então o ex-Deputado Manoel Maria não se deu por vencido e redigiu a Lei de forma a torná-la dúbia e passar pelo crivo dos deputados. E conseguiu.
Felizmente a Mãe Dilce de Oxum ficou sabendo e ligou para Pai Pedro de Oxum Docô, que mobilizou toda a comunidade africanista de Porto Alegre e Região Metropolitana para nos unir contra a tal Lei. A mobilização fez surgir uma Comissão em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras que mais tarde se tornou a Congregação Estadual em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras, o CEDRAB, sob a liderança de Mãe Norinha de Oxalá, Baba Dyba de Iemanjá, Mãe Angélica de Oxum e Mãe Valdete de Bará, que atua até hoje e da qual sou integrante.
A Comissão denunciou a intolerância religiosa promovida pela Lei do Pastor Manoel Maria inclusive nos noticiários televisivos locais. Isso fez com que alguns parlamentares quisessem participar das deliberações. O Prof. Edson Portilho foi um deles. De fato o que mais se dedicou à nossa causa.
A 11.915 já estava sancionada, então, o melhor a fazer, era criar um adendo à Lei de forma a proteger a nossa liberdade de culto, pois, em algumas cidades do interior, já estavam ocorrendo repressões jurídicas e policiais com fechamentos de templos, multas e até prisão de uma Mãe-de-Santo do município de Rio Grande.
O Prof. Portilho foi ímpar ao se posicionar à favor da diversidade, à tolerância, ao respeito pelas religiões afro-brasileiras.
Na postagem anterior eu postei uma discussão que tive com as ambientalistas que iniciaram essa proposta. Acompanhe.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

DEBATE VIRTUAL COM AMBIENTALISTAS EM 2004




>>>E-mail enviado por Juliana Gonçalves, estudante de biologia da UFRGS, em 25/07/2004

O deputado Edison Portilho de Porto Alegre teve a feliz idéia de criar um projeto de lei que permita que os animais sejam torturados e sacrificados em rituais religiosos. ... .
O Deputado Edison Portilho, sabendo que iria ser "lavado" pelos protetores dos animais, fez a seguinte trama: marcou a apresentação para votação da lei num dia de julho mas fez um chamado urgente e marcou a reunião às pressas, mais cedo. Os únicos avisados foram os demais deputados e todas as religiões afros estavam lá dando pressão neles. Ou seja: não havia defesa. Os animais não tiveram oportunidade de se terem pessoas que os representassem. Quem poderia responder por eles? E aconteceu o que mais temíamos: houveram 32 votos contra os animais e apenas 2 a favor. 
Agora imaginem o que já acontece: gatinhos e cachorrinhos têm os olhos arrancados, dentes tirados e são cortados em vários pedaços para fazer o tal Banho de Sangue. Os animais que não servem mais para o ritual são mortos a sangue frio: pauladas, chutes e pisões. Agora imagine se eles fossem amparados por lei para fazerem isso!!! Os animais não teriam nem chance de revidar. ... Por favor, vamos ajudar os nossos animaizinhos, eles têm o direito de viver e mais: direito de defesa contra crueldade. 
A única forma de contrariar essa lei e fazer um abaixo-assinado e o governador perceber que essa lei tem que ser vetada. Olhem nessa página e veja quantos assinaram. Seu nome ficará seguro, essa lista é somente para ajudar os animais. Não custa nada. Acessem a página, cliquem na parte cinza onde esta escrito: PREVIEW YOUR SIGNATURE. Você só precisa do numero do RG. Se quiserem saber mais, procurem nas páginas do Google, os ambientalistas já estão se mobilizando mas eles não podem fazer nada sem o seu apoio."

>>>E-mail enviado por mim como resposta, em 27/07/2004

Bom dia cara Juliana. 
Tens que me desculpar, mas gostaria de saber de onde tu tiraste estas informações fantasiosas?
Sinceramente, creio que os filmes do Stephen King aguçaram a tua imaginação.
Nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas. Os únicos animais utlizados são: galináceos, caprinos, ovinos e suínos. Ou seja, animais que podem ser consumidos totalmente pelos praticantes.
A religião africana não permite o desperdício, por isso o animal é aproveitado completamente: carnes e miúdos são utilizados nos mais variados tipos de pratos desenvolvidos pela gastronomia africana. O mocotó e a feijoada são pratos típicos da religião, pois foram criados pelos escravos utilizando partes dos animais que, até então, não eram ingeridas.
Nós damos tanto importância à vida, que um africanista não pode trabalhar em um matadouro, por exemplo. Pois não podemos matar um animal só para a alimentação. Este animal deve ser antes sacralizado, ou seja, ofertado primeiro aos orixás, para depois sim, poder ser comido.
Nós não buscamos a lei para podermos maltratar os animais com liberdade. Buscamos a lei para termos garantida a liberdade de culto e liturgia.
Os neopentecostais, munidos de uma persuasão ímpar, estão usando vocês para se baterem de frente conosco. E vocês nem perceberam!
A intenção dos evangélicos não é proteger os animais, mas sim, garantir a vitória na sua pretensa “guerra santa” contra os africanistas. Para isso, seus representantes na Assembléia (como o deputado Manoel Maria) criam leis de caráter ambientalista mas dúbia e interpretativa. Quem a lê pensa que se trata de proteção aos animais, quando na verdade, oculto nas entrelinhas, querem é colocar uma religião milenar e seus praticantes na ilegalidade.
Mas para não sofrerem represálias por intolerância religiosa, ficam por trás da moita incitando discórdias, enquanto vocês, ambientalistas dão a cara pra bater, e serem chamados de intolerantes (porque é religião), racistas (porque é religião de negros) e discriminadores (porque é religião de negros e pobres).
Reflitam bem sobre este assunto que é muito sério. Se formos colocados na ilegalidade, seremos perseguidos, agredidos e presos. Tal qual na época da ditadura militar. Isso sim é que é voltar à pré-história social.
Qualquer dúvida, ou se quiserem conversar ou debater a respeito, pode me mandar um e-mail.
Axé!

>>>E-mail enviado por Juliana Gonçalves, em 28/07/2004, em resposta ao meu e-mail anterior

Olá pessoal,
Alguns de vocês devem ter recebido o email que segue abaixo em resposta ao e-mail que enviei ao grupo sobre a lei que regulamenta o sacrifício de animais em cultos no nosso estado.
Não sei se alguém de fato se sentiu tocado pelas palavras de "Sandro de Oxalá" mas de qualquer forma acho importante esclarecer, se este alguém existe, algumas coisas.
As informações não são fantasiosas, é fato cotidiano animais mutilados nas esquinas em meio a oferendas, eu moro perto de uma "encruzilhada" e rolam coisas medonhas no meio da noite.
Qualquer ritual que realize sacrifício de animais ou mal-tratos a estes, é por mim abominado, sendo ele de origem africana ou não, mas já que nosso caro "Sandro de Oxalá" entrou na questão, sugerindo uma absurda conspiração por trás de nossa petição, tenho a declarar:
A liberdade de crença e religião é assegurada pela nossa constituição e pelos direitos humanos, portanto ninguém será perseguido, agredido, nem preso.
Contudo, é claro que cultos que realizam sacrifícios de animais não têm a simpatia de pessoas que defendem a vida, nem a minha, mas outro direito assegurado por nossa constituição é a liberdade de opinião, que assim como a de crença deve ser respeitada.
A lei, recentemente sancionada, concede ao ser humano o direito de tirar a vida de outro animal. Se os praticantes de rituais africanistas repudiam a falta de respeito aos animais que se observa em certos rituais religiosos não há motivos para tanta preocupação!

Pela liberdade de opinião, decisão, crença e DIREITO A VIDA.
Tenho dito.


>>>E-mail enviado por Luna Camargo, em 31/07/2004, em resposta ao meu e-mail anterior

Olá Hendrix de Oxalá,
Eu admito a minha ignorância a respeito de religiões, tanto africanistas como evangélicas... o que não me impede de ver muitas vezes em encruzilhadas animais sacrificados que eu não acredito poder ser usado na alimentação posteriormente. 
Para mim não importa se o animal é doméstico ou não, isso não vem ao caso, até porque sou vegetariana e acredito que não precisa se matar nenhum animal para alimentação. 
O que coloco em critica aqui é os títulos que você deu a nós "naturalistas" de racistas, intolerantes e etc., não concordo que estou sendo manipulada, até porque a religião evangélica sim me repudia, com a sua exploração explicita a um povo ingênuo, muito pelo contrário das africanistas das quais até tenho alguns amigos praticantes e já recorri muitas vezes a eles para auxilio espiritual. 
Quanto ao racismo nada mais datado do que apelar pra esse lado em pleno século 21 com alto processo de globalização e miscigenação de raças principalmente aqui no Brasil. a única coisa que queremos por meio deste e-mail circulante é parar com a matança desnecessária, eu não acredito que os deuses queiram ter animais sacrificados em vão, não existem outras maneiras de oferendas?
Por favor gostaria de ter mais esclarecimentos sobre os tipos de cultos por vocês praticados para não ser injusta.

>>>Minha resposta a ambas, em 01/08/2004

Bom dia cara Juliana e minha cara Luna!

Como o assunto é o mesmo, responderei às duas neste e-mail, Ok?

Acho que devo algumas explicações...

1° - Nós africanistas sempre utilizamos um nome religioso. É um tipo de cognome ou apelido que nos diferencia dos não iniciados e, ao mesmo tempo, nos identifica entre a comunidade africanista. Geralmente é um nome próprio ou apelido, seguido do orixá ao qual tu és consagrado.

2° - É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua. É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses "despachos". Esses ritos remetem à época da escravidão e ao tempo em que os escravos eram perseguidos pelos padres católicos. O grande medo que os católicos tinham da magia negra européia, motivou esse povo sofrido a se defender utilizando esses conceitos. Infelizmente isso se perpetuou até nossos dias. Nós, africanistas conscientes, buscamos uma melhor compreensão da filosofia e principalmente da teologia africana, através de estudo metodologicamente aprofundado sobre o tema. Para tanto foi fundado o Egbé Orun-Aiyé - Sociedade Afro-brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras. Seguidamente o egbé promove cursos e palestras com professores especializados em teologia e culturas negras. Se quiserem saber mais www.egbeorunaiye.blogspot.com
A nossa maior preocupação é conscientizar as pessoas que ainda fazem esse tipo de coisa, que isso não é religião africana. A religião africana tem como conceitos básicos: NÃO DESPERDIÇAR; NÃO MATAR SE NÃO FOR COMER e NÃO DISCRIMINAR. Esses conceitos não são disseminados porque, para o africano, a vida não está em separado da religião. Segundo a cosmovisão africana tudo é sagrado, tudo é de Deus. Não há motivos para se criar "10 mandamentos", por exemplo. Mas, para se obter qualquer coisa de Deus, deve-se primeiro devolver-lhe uma parte. Assim, para se comer pipoca, deve-se antes ofertar a Deus um punhado. Do mesmo jeito se quiseres comer feijão, canjica, churrasco, ou galeto.

3° - Sou a quinta geração da minha família que é africanista. Minha tia-bisavó, Augusta de Ogum, contava como a polícia entrava a cavalo nos templos, em meio a rituais religiosos, e quebrava tudo a patadas e cassetetes. Pessoas eram machucadas, sem observância de idade ou sexo, simplesmente porque estavam praticando a sua espiritualidade. Nós temos cicatrizes que passaram de geração após geração. Tínhamos nos esquecido delas até surgir essa polêmica. Não queremos ter nossos rituais sagrados interrompidos pela polícia, porque intolerantes religiosos elegeram seus representantes na Assembléia, na Câmara, ou no Senado, para condenar nossos rituais à ilegalidade. Todo o mundo sabe que o princípio mais básico de nossa religião é a sacralização de animais. Proibir isto é proibir nossa religião.

4° - Respeito muito a opinião das pessoas porque é através das opiniões que aprendemos sobre elas.

5° - Embora os evangélicos sejam contra o africanismo, são os neopentecostais (Universal, Igreja Internacional da Graça de Deus e dissidentes) que fizeram dessa aberração social, uma verdadeira guerra santa contra nós. O pastor evangélico Dep. Manuel Maria se perfilou atrás dos ambientalistas para por fim a religião africana da maneira mais ardilosa: a Constituição. Claro que se ele usasse o seguimento evangélico para se defender, seria facilmente derrotado. Espertamente preferiu usar um seguimento sério, sem cunho religioso, para defender seu intento. Sob a capa do ambientalismo eles incitam a discórdia entre dois seguimentos que deveriam estar unidos para inibir o uso errôneo do sacrifício dos animais.

6° - Claro que existem outras formas de se agradecer ou de suplicar aos Orixás suas benesses. Oferendas incruentas, utensílios ou roupas que podem ser usadas por eles enquanto manifestados em seus neófitos, e sacrifícios comedidos em rituais dentro dos templos, onde mais tarde, todos poderão comungar com os Orixás, comendo a carne e miúdos em pratos cozidos.
 Muitas pessoas dizem que nossos rituais são primitivos: que "em pleno século XXI...", ora, o cristianismo nasceu ontem ou há 2000 anos atrás? E o Hinduísmo? E o Budismo?
 Será que é dado anestesia para cada uma das cerca de mil galinhas mortas todos os dias na Avipal?
Será que os bois não sofrem nos matadouros? Ou nos rodeios, onde são atadas cordas apertadas em sua virilha, ou enfiam tocos de madeira em seu ânus? A castração é indolor?
Não seria hipocrisia uma pessoa defender os animais na segunda sendo que comeu uma bela churrascada no domingo?
Só mesmo quem é como a Luna, uma vegetariana, pode realmente se manifestar contra a morte exacerbada de animais.
 À propósito minha cara Luna, o racismo, intolerância e discriminação existem sim. Se quiseres te mando um trabalho que apresentei na FAPA sobre o racismo.
 Novamente me disponho a todos que quiserem conversar...

Pupo axé gbogbo! (Muito axé para todos!)

PS.: Eu existo sim.

>>>Resposta de Juliana Gonçalves, em 05/08/2004

Olá Hendrix,
Você se contradice algumas vezes... desde a última opinião que me enviaste.

"Nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas."
"É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses "despachos". "

"É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua."
"NÃO DESPERDIÇAR; NÃO MATAR SE NÃO FOR COMER"

Mas não vou entrar nessa questão.
Eu acho que tu ainda não compreendeu, que eu, estudante de biologia, e muitas outras pessoas não assinam a petição para ir contra religião alguma. Tu já até conheces minha opnião, não acho correto o sacrifício de animais em rituais, mas também não acredito nas mesmas coisas que você. 
Então o que eu gostaria que você entendesse é que estou contra que essa prática seja legal, prática que esta contida em algumas religiões, mas as religiões não devem ser proibidas, elas devem encontrar outras maneiras de adorar suas divindades, satisfaze-las enfim. 
Se formos partir do princípio que tudo que é feito em nome de uma religião(seja ela qual for) não deve ser repreendido, temos de tomar como corretas e lícitas práticas como sacrifício de crianças em rituais, ato realizado algum tempo atrás por uma religião ou crença(seja la o que era).
Em minha opinião sacríficio e mal-tratos de animais em rituais é crime.
Segundo os direitos dos animais também é, pois...

ARTIGO 3: 
a) Nenhum animal será submetido a maus tratos e a atos cruéis. 
b) Se a morte de um animal é necessária, ela deve ser instantânea, sem dor ou angústia.

Também sou contra os abusos cometidos nos rodeios, touradas e pseudoespetáculos do gênero. Quanto ao abate de animais para consumo de carne, antes de se abater o gado é feito o atordoamento para que ele não sofra. E não é menos defensor dos animais aquele que come carne por motivo algum.
Estou aberta a debater o assunto,

>>>Minha resposta em 08/08/2004

Bom dia minha cara Juliana!

Antes de tudo, gostaria de dizer que estou gostando dessas conversas on-line e acho que seria ótima uma conversa ao vivo... quem sabe no futuro? [Nota: Isso nunca aconteceu]

Também gostaria de dizer que eu não me contradisse.
A Luna, em seu mail, me afirmou o seguinte:"eu admito a minha ignorância a respeito de religiões, tanto africanistas como evangélicas... o que não me impede de ver muitas vezes em encruzilhadas animais sacrificados que eu não acredito poder ser usado na alimentação posteriormente."
Para respondê-la, eu fiz a seguinte afirmação: "É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua. É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses 'despachos'."
Antes, eu tinha escrito a ti dizendo que "nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas."
Isto nos faz pressupor que quem executa rituais de sacrifício de animais (domésticos ou não) e os deposita nas encruzilhadas, NÃO SÃO AFRICANISTAS. Eu, como africanista consciente, apoio a proibição de "despachos" contendo animais. É lamentável que, com tanta gente passando fome, existam pessoas que desperdiçam comida jogando nas ruas!
A legislação tem que ser mais clara neste sentido. Não se pode simplesmente proibir o sacrifício de animais, pois isto impediria o livre exercício do direito a cultos e liturgias de nossa religião.
O inciso VI do artigo 5° da Constituição Federal, nos garante que são "invioláveis a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias." Ora, o pressuposto básico de nossa liturgia é justamente a sacralização de animais. Então qualquer ato do governo ou da assembléia no sentido de nos proteger, só está fazendo cumprir a lei.
Além disso, a religião afro-brasileira, além de crença religiosa, também figura como manifestação da cultura popular, estando, portanto, protegida pelo parágrafo 1° do artigo 215 que diz: O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e dos outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
Ainda há a Declaração Universal dos Direitos do Homem que, segundo o artigo XVIII, garante a “todo  homem o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Então Juliana, eu volto a afirmar que os despachos e oferendas nas ruas, praias, bosques ou pedreiras são um direito legal nosso. Entretanto, se este despacho ou oferenda conter um animal morto, ele está fugindo às tradições africanas, não sendo protegido pela lei. Então não há o porquê dos ambientalistas se alvoroçarem e tentarem impedir uma prática religiosa sendo que o objeto de sua perseguição não faz parte de sua liturgia.
Veja bem: a população africanista do Rio Grande do Sul é enorme (só na minha rua existem uns quatro templos), se todos fossem largar animais mortos nas ruas teríamos uma montanha em cada esquina não achas? O que prova que não são os africanistas que cometem esses erros. Quem faz esse tipo de coisa são pessoas não esclarecidas sobre a verdadeira religião africana. Pensam que são bruxos ou feiticeiros à la européia, e que não terão que prestar contas quando retornarem à massa de origem. É com essas pessoas que nós, africanistas conscientes, estamos tentando fazer contato, no intuito de fazê-los compreender a verdadeira religião da África, com um processo que chamamos de reafricanização através de estudos sobre a história, a filosofia e a teologia africana.

As religiões fazem parte de um processo cultural lento e profundamente enraizado na vida das pessoas. Sendo cultura, sua mudança não surge do dia para a noite, da forma como o mundo capitalista gosta de resolver as coisas. Não há como substituir a sacralização de animais em nossos rituais. Isso é parte integrante e irrefutável de nossa liturgia.

A propósito, nós africanistas somos classificados pela lei como iguais a qualquer outro ser humano. O inciso VIII do artigo 5° diz que "ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei." Isso significa que se algum doente matar outro ser humano, atribuindo este ato à ritual religioso, além de não ser protegido ainda terá que acarretar com as sansões previstas em lei. O que apoiamos sem restrições, é claro!

A nossa religião não prevê maus tratos. O animal é muito bem tratado nos templos, até chegar a hora de devolver aos Orixás o axé sagrado, para que assim possamos comungar com Eles.
Quem sofre maus tratos são os animais de rodeios e outros eventos afins. São para esses que vocês devem apontar seus interesses de defesa.

Ainda estou disponível a discussão.

Pupo axé gbogbô!
(Muito axé pra todos!)

>>>Não houve mais resposta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Negros Albinos: a mentira propagada

Àgo ye égbòn

Há cerca de um mês atrás uma colega do curso de história da Fapa me pediu uma opinião sobre albinos africanos, pois ficou interessada e queria escrever um trabalho sobre eles e queria fontes.

Ela ficou espantada com a minha resposta, pois as informações que possuía era de que essas pessoas eram maltratadas, discriminadas e que fugiam da fúria de pessoas supersticiosas que acreditavam que poderiam utilizar seus membros amputados para realizar feitiços e bruxarias. Perguntei-lhe de onde tirou essas ideias malucas e disse que foi de um vídeo que recebeu de amigos da internet. Pedi-lhe que me mandasse o tal vídeo para que eu analisasse.


O que vi foi um engendro medonho da realidade conspirado e executado por, pelo que parece, evangélicos brancos elitistas e racistas contra as religiões africanas e o povo africano. Isso não é incomum. Principalmente nesta época em que a sociedade luta por cotas para as minorias étnicas nas universidades e os afro-religiosos lutam por respeito às suas crenças e cultura.

O pseudo-documentário não revela fontes. É apenas um emaranhado de fotos que, de forma alguma, representam o que está descrito nos textos que os acompanham. Pelo contrário, mostram os albinos sempre num contexto de coletividade. Os textos apresentados não passam de falácia infundada daqueles que, criminosamente, tentam criar opinião pública sobre algo que a maioria não conhece.

Se aproveitam da falta de conhecimento do povo brasileiro com relação aos nossos irmãos africanos para degradarem sua cultura e inteligência com fins claramente destrutivos.

Sou um empenhado estudioso da História da África e de seus conflitos e nunca li nada parecido. Muito pelo contrário. Pierre Verger diz em seu livro Orixás: Deuses da África e do Novo Mundo (Ed. Corrupio) que os albinos, assim como os que possuem alguma deficiência, são entendidos como de origem divina, pois foram criados por Oxalá e, por isso mesmo, são tratados com muito respeito e dedicação, pois zombar de tais pessoas seria o mesmo que zombar da própria divindade que os criou.

Esses slides são racistas porque diminuem o intelecto dos africanos a meros supersticiosos e ignorantes; é intolerante porque discrimina as crenças africanas ao afirmar mentiras de bruxarias com membros humanos; é reducionista porque faz o leitor pensar que a África é um território homogênio, onde todos possuem a mesma cultura e identidade.

Por fim é um dos vídeos mais nojentos que já vi na minha vida.

Desconsidere-o totalmente, pois não tem embasamento algum, senão na vontade daqueles que querem desacreditar a legitimidade da luta pelas cotas e pelo respeito à cultura e religiosidade afro-descendente.

Pùpó Àse gbogbo!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Mídia: a grande educadora

Àgo ye égbòn!

Na segunda-feira passada (15/03/10) assisti a palestra Mídia, Educação e Cidadania: uma perspectiva crítica, ministrada pelo Prof. Pedrinho Guareschi, na Fapa.

Guareschi, sem dúvida nenhuma, possui um currículo invejável com três graduações (Filosofia, Teologia e Letras), uma especialização em Sociologia, mestrado e doutorado em Psicologia Social em universidades estadunidenses, dois pós-doutorados também nos gringos (a útima em Cambridge em 2002). Já deu aulas até em Harvard e, atualmente, é professor convidado da UFRGS além de Conferencista Internacional. Com certeza é um vulto importante da intelectualidade brasileira.

No entanto, o que expôs não foi nenhuma novidade para quem participa de movimentos sociais. Sabemos há muito tempo que a mídia manipula as mentes humanas. Que nos impurra goela abaixo valores da elite branca machista, homofóbica e cristianocêntrica. Que faz, através de seu poder, reprogramar as pessoas que passam a maior parte de suas vidas trabalhando e cujo único "divertimento" são os programas apresentados na TV.

Mas porque isso acontece? Segundo o professor, é porque vivemos numa sociedade midiada; desenvolvemos uma cultura midiada. Para explicar isto, Guareschi nos apresentou as teses que dão sustentabilidade a essa afirmativa.

A sua primeira tese é de que a mídia constrói a realidade, pois o que está sendo veiculado, na cabeça das pessoas, é o que existe. Quando um assunto pára de ser veiculado é como se deixasse de existir. Veja, por exemlo, o caso Collor.
Fernando Collor de Melo começou sua carreira política no partido que apoiava a ditadura, o ARENA. Com a ajuda da mídia foi eleito presidente do Brasil em 1990 por ser o "caçador de marajás". Mas as atitudes políticas de Collor desagradaram a elite o que culminou no seu impeachment. Collor ficou fora da mídia por um período o que resultou na perda da eleição a governador de Alagoas em 2002. Mas em 2005 foi produzida uma matéria especial com ele que foi exibida no Fantástico, que deu um novo "gás" a imagem de Collor. O resultado foi a sua eleição para senador em 2006.

A seguda tese de Guareschi diz que a mídia imprime valores. Ele afirma que quem está na mídia sempre se elege, pois a mídia é a janela daquilo que as pessoas querem mostrar. Aqui, Guareschi se aproxima de Guy Debord em seu "A sociedade do espetáculo". Debord diz que, para a sociedade do espetáculo, não importa o que se é, mas sim o que se parece ser. Neste contesto o caso Collor também se encaixa: quando foi conveniente o hoje senador foi o "guardião da moralidade", depois o corrupto e em seguida o injustiçado. Um outro exemplo é a confusão que o publico faz entre os atores e seus personagens. Muitos profissionais que representaram papéis de vilões em novelas se queixaram de terem sido abordados rispidamente por passantes quando encontrados pelas ruas. O caso de  Beatriz Segall é o mais notório. Quase foi espancada nas ruas por causa de Odete Roitman, personagem que interpretava na novela Vale Tudo de 1988. Podíamos encontrar até camisetas com os dizeres "Eu odeio Odete Roitman" no mercado de trabalhadores ambulantes em Porto Alegre.

A terceira tese versa sobre a pauta de discussão. Guareschi acredita que a mídia é responsável até pelo que as pessoas discutem em suas vidas privadas. Os caras pintadas no caso Collor é um bom exemplo. Instigados pela mídia, jovens do Brasil todo foram às ruas para derrubar o então presidente. Nas novelas não é diferente e as pessoas discutem em seus ambientes de trabalho e residências com quem o personagem deveria ficar ou como o vilão destrói a vida das pessoas-personagens. O BBB também é outro incitador de discussões. Quem fica e quem sai, as brigas e romances. Tudo é motivo para que a audiência se prorrogue para fora das telas. Temas mais desejáveis com homossexualidade, lesbianismo, sexo e gravidez na adolescência também são temas utilizados, mas assim que termina a novela é como se esses problemas também terminassem. Embora haja um resgate deles, de vez enquando.
É o caso de Sinhá Moça. Em meados de 2006, quando se debatia a necessidade de cotas para minorias étnicas nas universidades, foi produzido o remake dessa novela. Se na primeira versão ela serviu para reforçar a ideia errônea de que os escravizados eram submissos e que dependiam da jovem sinhá branca para não serem molestados, a intenção do remake foi a de reforçar estes valores instituídos e provocar no debate a reflexão de que as deficiências sociais negras eram fruto de sua própria índole submissa e dependente.
Passados quatro anos, o assunto das cotas volta à baila e, novamente, a Globo reprisa a tal novela com intenção óbvia: manipular o público para que não queira que as cotas continuem existindo.

Por fim o prof. Guareschi atentou para a necessidade de entendermos que somos aquilo que aprendemos ser e que a TV e o rádio tem papel fundamental nessa educação. Nos lembrou que o sujeito da educação é o educando e não o educador como as empresas de comunicação querem fazer entender. Também nos lembrou de que as empresas de comunicação não sãos as donas dos meios de comunicação, mas sim concessionárias e que por isso deveriam atuar em favor do povo e não em favor da elite empresarial brasileira. Enfim nos deu subsídios mais efetivos para estabelecermos um debate crítico sobre esta questão.


Pùpó Àse gbogbo!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ITAN: O MITO YORUBÁ

Àgo ye ègbón!


Um dos equívocos mais frequentes que tenho observado entre os batuqueiros se refere ao tratamento dado aos Ìtàn. as histórias míticas dos Orixás. Costuma-se chamar estas histórias de lendas, termo que não exprime a realidade que se intenciona neste tipo de narrativa.
O interessante é que quando falamos sobre a religião da antiguidade ocidental, sempre nos referimos a mitologia greco-romana, nunca lenda greco-romana. O mesmo não ocorre com a religião africana cujas histórias mitológicas são sempre referendadas como lendas em um flagrante ato de racismo.
Mas qual a diferença entre lendas e mitos?

Lenda é uma narrativa fantasiosa transmitida pela tradição oral através dos tempos. Tem caráter fictício. Muitas lendas não estão ligadas a temporalidade ou a geografia como, por exemplo, as histórias de lobisomens, vampiros, fantasmas e assombrações. Já outras são bem regionalizadas como Boitatá, Mula-Sem-Cabeça e Saci Pererê que só aparecem no Brasil. Pelo fato de serem repassadas oralmente, as lendas podem sofrer alterações à medida em que vão sendo recontadas e não é incomum sabermos de histórias de pessoas conhecidas ou conhecidos de conhecidos que viram lobisomens ou Boitatá.
Devido à essas características, além do cientificismo ocidental de entender que a lenda é um tipo de narrativa que depende exclusivamente da credulidade de pessoas incultas, ao considerarmos os Ìtàn como lendas, costuma-se diminuir a sua importância, imaginando que são meras historinhas ilustrativas. Em função disso, há aqueles que descartam os Ìtàn por acharem que mais atrapalham que agregam. Para estes, me parece que ao desqualificar a importância dos Ìtàn, terão maior domínio sobre suas vontades e sobre os outros.
Existem, também, os que acham que os Ìtàn são a História real, fato verídico, ocorrido há muito tempo atrás. Para estes, se justificaria a ideia de que os Orixás foram homens e mulheres que viveram na Terra e que devido a grandes feitos não teriam morrido de forma natural, mas sim transcendido a materialidade tornando-se Orixás. A maioria dos antropólogos defendem essa ideia conceituando os Orixás como ancestrais divinizados.
Eles embasam suas teorias na própria visão africana de Ìtàn, pois os iorubás acreditam que estes versos em forma de poema contam a história de seu povo, tal qual o livro Gênesis, contaria a história do povo judeu.
Mas para os historiadores que se debruçam sobre as religiões, tanto o Torá (texto sagrado judaico onde estão reunidos os livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) quanto o Odu Ifá (onde os Ìtàn estão descritos) são narrativas mitológicas, ou seja, mitos cujo papel se diferencia em muito da História e da lenda.

É muito comum tratarmos o mito como sendo uma mentira, ilusão, ou até lenda, o que é um erro, evidentemente. Os mitos são narrativas tradicionais que procuram explicar o mundo por meio do sobrenatural. A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a épocas primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou com os "primeiros" homens (história ancestral). Mas o verdadeiro objeto do mito é a apresentação de um conjunto de ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo.
Para Clyde W. Ford, terapeuta estadunidense e fundador do IAM – Institute of African Mithology, Washington, “[...] essas aventuras de heróis [ou divindades] são mais do que o enredo da história; elas falam, por metáforas, da aventura humana pela vida. Os desafios do herói são nossos... Assim, muitos traços que o herói demonstra para responder os desafios da jornada simbolizam aqueles recursos pessoais a que todos nós devemos recorrer para enfrentar os desafios da vida.”
São vários os tipos de mito: mitos cosmogônicos (teorias da formação do universo), mitos escatológicos (destino último do mundo e da humanidade), mitos sobre o tempo (concepção cíclica ou linear do tempo), mitos teogônicos (origem dos deuses e heróis), etc.
Segundo o professor de História das Religiões, Ricardo Fitz, todas as culturas antigas possuem os seus mitos e eles são importantes para a legitimação do sentimento ético e moral de uma sociedade. É igualmente importante que esses mitos sejam sempre passados às próximas gerações por meio da tradição oral. Isso possibilita uma flexibilização desses mitos que se adaptam às sociedades em seu tempo histórico.
Conservar os mitos em registro escrito os mantêm estagnados, gerando o fundamentalismo tão recorrente em religiões como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo que se baseiam em escrituras que acabam se tornando sagradas justamente para impedir a sua mudança.
Com a mudança dos Estados teocráticos por Estados democráticos de Direito, o poder controlador dos mitos foi relegado à esfera religiosa. Assim surgiram as cátedras de Exegese e Hermenêutica como fontes interpretativas dos textos sagrados (orais ou impressos) para a atualidade, seguindo o novo contexto político-social.
Os  Ìtàn são os textos sagrados da religião iorubá, assim como o Torá o é para os judeus, a Bíblia para os cristãos e o Alcorão para os islâmicos. É imprescindível que os babalorixás e as ialorixás tenham esse entendimento.

Os Ìtàn não são histórias para entretenimento. É a fonte de explicação para tudo o que envolve nossa religião. Desde a criação do Universo, dos Orixás e dos homens, até o porque de uma pessoa não se dar com outra, passando pela estruturação da religião, o porque dos sacrifícios, das iniciações, o que ocorre após a morte, estão relatados nos Ìtàn que compõe o Odu Ifá.
O conhecimento sobre os Ìtàn são cruciais para o desenrolar do sistema de jogo de búzios adotado no Rio Grande do Sul, de forma que o “olhador” que não os conheça nunca passará de um adivinhador, alguém que usa de intuição para prever o futuro das pessoas – esse é o motivo de sabermos de tantas falhas por aí.
Ìtàn é mito. É texto oral sagrado. É o sangue que dá vida ao nosso Batuque.


Púpò àse gbogbo!

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Sugestão de leitura
O herói com rosto africano: mitos da África de Clyde W. Ford, ed. Selo Negro. 
Uma bela viagem pela sabedoria africana e em especial pela rica mitologia do continente negro. Habitado por centenas de grupos étnicos, esse universo revela um sem-número de lendas populares e mitos das mais diversas fontes. Compartilhando seu pensamento com três expressivos mitólogos - Adolph Bastian, C. G. Jung e Joseph Campbell - o autor nos apresenta um livro riquíssimo, que inclui um mapa detalhado dos povos e mitos da África.
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