domingo, 25 de julho de 2010

AJÈJÈ, A VIGÍLIA DO CAÇADOR



Àgo ye êgbön!

Para João Carlos de Odé Olobomi, o tão popular Deodé, um dos sacerdotes mais polêmicos que o nosso Batuque já conheceu, o Rio Grande do Sul é que, verdadeiramente, é a terra dos Orixás.
Trazidos na bagagem cultural de africanos escravizados, os Orixás são as divindades do povo iorubá, cuja origem está na Nigéria e em parte da atual República do Benin, povo de importância marcante para o mundo religioso afro-brasileiro. O Batuque, nome popular da religião dos Orixás no Rio Grande do Sul, é o fruto gaúcho de matriz iorubana, que tem como característica tradicional a formação de sacerdotes que perpetuam o axé transgeracionalizado. Os Orixás são divindades criadas por nosso único Deus, Olódùmarè, e enviados à Terra para perpetuação do axé, o poder criador de Deus.
Mãe Stella de Oxossi, Ialorixá do Axé Opô Afonjá, diz que “a religião dos Orixás é lúdica, festiva, alegre, de partilha, de boa mesa, plena de vida e fragrâncias. As comunidades heterogêneas das religiões afro-brasileiras são sementes da paz de que o mundo tanto precisa para continuar a existir. Na religião dos Orixás se festejam com especial júbilo duas etapas na vida do religioso: a iniciação - o nascimento para o Orixá - e a morte, na qual o iniciado nasce para o mundo dos ancestrais.”
De fato há um ìtàn, um mito que diz que Olu Odé – o grande chefe Caçador – encontrou uma órfã Nupé no mercado principal de Ketu, seu reino. A garotinha estrangeira parecia uma cabrita levada. Odé, emocionado, resolveu adotá-la, dando-lhe o nome de Oyá: ligeira, rápida, em língua iorubá. Passou-se o tempo e o chefe caçador ensinou à filha tudo que sabia de feitiçaria, caçadas e estratégias de guerra, exercitando-a na generosidade e no gosto pela arte. Um dia Ikú, a morte, levou o grande Olu Odé, para a tristeza da bela Oyá, a qual durante sete dias e sete noites cantou e dançou em homenagem àquele que a amara tanto. Ela reuniu as ferramentas de caça de Odé, cozinhou as iguarias de que ele mais gostava, entoou cânticos os mais significativos em homenagem ao pai, dançando durante sete noites, na companhia dos colegas de caça de Olu Odé e de todos os amigos, que também dançaram, cantaram e celebraram a memória de um bravo; o grande provedor da aldeia. Durante o ajejè, os amigos confraternizaram-se e os desafetos congraçaram-se. Na última noite, os celebrantes reuniram todos os pertences, as comidas e ferramentas de Odé e foram depositar o ''carrego'' no pé de um Iroko, a árvore Òrisa, nas profundezas das matas.
Olódùmarè, inspirado pela dedicação de Oyá, lhe concedeu o título de Rainha dos espíritos, ficando com a responsabilidade de atravessar a alma do falecido entre os nove espaços de Òrun. Assim Odé se tornou o primeiro ancestral a ser cultuado, sendo chamado de Essá Akeran. E o ritual criado por Oyá foi o primeiro Arosun realizado.
Arosun é uma palavra iorubá e é a contração de duas outras: Ará (corpo) e Osun (sono). Arosun significa “o corpo que dorme”, pois para os iorubás “o sono é primo da morte”. Os bantos, que deram origem aos chamados candomblés de Angola, celebram o mucondo e os jejes, o sirrum ou azeri, também chamado de ''tambor de choro'' no Tambor de Mina maranhense, em cerimônias muito semelhantes. Nos rituais de passagem das religiões de matriz africana, costumam-se entoar cantigas em homenagem aos ancestrais de todas as nações. No candomblé Ketu o nome dado é axexê, corruptela de ajèjè, e o primeiro a ser homenageado nessa liturgia é Odé.
O arosun é uma cerimônia na qual os iniciados dançam, cantam, comem e bebem. A liturgia é pública e os visitantes são convidados para a partilha das iguarias. O traje branco é obrigatório. A cor branca é a utilizada nas celebrações de nascimento e transformação, sendo necessária nos ritos de passagem de todas as nações.
A Nação Ijexá celebrou o arosun de João Carlos de Odé em dezembro último, na esperança de que Oyá acolha o filho de seu Pai, com festa e alegria.
Ela, Senhora dos ventos e tempestades, filha adotiva do Senhor da caça, figura nas páginas do escritor filho de Odé Olobomi, irmão de Axé de Pai Gelson de Bará (meu Avô-de-Santo), Pai Graciliano de Iemanjá, Mãe Inajara de Oxum e tantos outros filhos da Matriarca de nossa nação, Mãe Miguela de Bará Ajelu.
Sim, Deodé era babalorixá e escritor. Escrevia sobre as aventuras do Povo-de-Santo e sobre os Orixás que tanto amava. Sua Avó-de-Santo, Mãe Jovita de Xangô, é a personagem principal em várias de suas histórias.
O intelectual, nascido em Rosário do Sul, escritor de Iemanjá quer falar contigo e O malandro e o gaudério era um legítimo filho de Odé e carregava as qualidades e os defeitos que esse Orixá relega aos seus filhos. No seu perfil no site de relacionamentos Orkut, ele mesmo se definiu como "teimoso, obstinado, perseverante, inquieto, líder, autêntico e acima de tudo amigo" e que sua paixão era escrever sobre o Batuque e, claro, a comida campeira.
O fato de ser meu Tio-Avô-de-Santo e de ambos participarem ativamente do Orkut, serviu para que nos aproximássemos e daí surgisse uma amizade ímpar. Isso não significa que concordávamos com tudo. Pelo contrário. É sabido que a concordância constante é burra e por isso discutimos várias vezes, mas sempre houve o respeito mútuo, além de minha consciência de sua posição hierárquica na nação que vivencio. Respeito esse só superado pelo próprio Pai Odé Olobomi.
Ele tinha algo de magnânimo. Um andar soberano típico dos Alaketus, reis descendentes do caçador Oxossi que governou Ketu, reino da Nigéria. Sua dança era melodiosa, graciosa, lembrava o ardil do caçador embrenhado no mato à espreita da caça. Seus passos rápidos, saltos giratórios e trejeitos revelavam o seu carisma. A primeira vez que o vi fiquei encantado. Corri para me atirar aos seus pés e “bater cabeça”, mas Ele não deixou. Suas palavras ainda ecoam em minha mente...
Vejam só. Agora me dou conta que estou escrevendo sobre o escritor das Histórias de Batuque. Aquele que já foi chamado de Jorge Amado do Sul. O filho de Odé que, como seu antepassado, se tornou ancestral.
A família religiosa de matriz africana é expandida: os mortos fazem tanto parte dela quanto os vivos. Neste contexto, Deodé nunca deixará de ser meu Tio-Avô-de-Santo e sua memória será cultuada; relembrada; e o desejo de sua volta, de seu renascimento no Àiyé, existirá enquanto cantarmos
Bàbá á tètè yà o! F'ára, f'orí lòna, Bàbá á tètè yà o! F'ára, f'orí, lòna
Que seu pai venha logo! Para que o corpo e a cabeça encontre o caminho e venha logo

Púpõ àÿç gbogbo!
Artigo enviado ao Jornal Bom Axé e não publicado.

O Ataque a Portilho Desvelado

Tem rolado na internet em sites de relacionamentos como o Orkut, o Twitter e até em blogs uma suposta manifestação pública em defesa dos animais contra uma suposta lei criada pelo Deputado Estadual Edson Portilho que autorizaria torturas e maus tratos aos animais.
Como diz o blogueiro Erick da Silva, do blog Aldeia Gaulesa, "a velocidade da difusão, aliada a um instantaneísmo de pouca capacidade crítica, permitem que se gerem alguns 'mal-entendidos' e interpretações errôneas de alguns fatos."
Concordo plenamente.
De fato é de se espantar como essa história se espalhou pela internet, pois seguidamente me deparo com ela. Principalmente em época de eleições.
Eu fui testemunha ocular do ocorrido e, por isso, vou dar os seguintes esclarecimentos.
A lei da qual tanto se fala é a Lei 11.915, de 21 de maio de 2003, que instituiu o Código Estadual de Proteção aos Animais, no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul. Essa lei foi criada pelo ex-Deputado Manoel Maria (PTB), pastor evangélico. na primeira redação da Lei ficava clara a sua intenção, pois ilegalizava as práticas religiosas de matriz africana.
Não passou no legislativo.
Então o ex-Deputado Manoel Maria não se deu por vencido e redigiu a Lei de forma a torná-la dúbia e passar pelo crivo dos deputados. E conseguiu.
Felizmente a Mãe Dilce de Oxum ficou sabendo e ligou para Pai Pedro de Oxum Docô, que mobilizou toda a comunidade africanista de Porto Alegre e Região Metropolitana para nos unir contra a tal Lei. A mobilização fez surgir uma Comissão em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras que mais tarde se tornou a Congregação Estadual em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras, o CEDRAB, sob a liderança de Mãe Norinha de Oxalá, Baba Dyba de Iemanjá, Mãe Angélica de Oxum e Mãe Valdete de Bará, que atua até hoje e da qual sou integrante.
A Comissão denunciou a intolerância religiosa promovida pela Lei do Pastor Manoel Maria inclusive nos noticiários televisivos locais. Isso fez com que alguns parlamentares quisessem participar das deliberações. O Prof. Edson Portilho foi um deles. De fato o que mais se dedicou à nossa causa.
A 11.915 já estava sancionada, então, o melhor a fazer, era criar um adendo à Lei de forma a proteger a nossa liberdade de culto, pois, em algumas cidades do interior, já estavam ocorrendo repressões jurídicas e policiais com fechamentos de templos, multas e até prisão de uma Mãe-de-Santo do município de Rio Grande.
O Prof. Portilho foi ímpar ao se posicionar à favor da diversidade, à tolerância, ao respeito pelas religiões afro-brasileiras.
Na postagem anterior eu postei uma discussão que tive com as ambientalistas que iniciaram essa proposta. Acompanhe.

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