segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Idade é posto: a hierarquia do Batuque

É muito comum as pessoas acharem que no Batuque não há hierarquia exceto a que separa filhos de pais e mães de santo. Ledo engano. O Batuque, como é típico de toda religião de matriz africana, possui uma rigorosa hierarquia.

Toda hierarquia no Batuque está alicerçada na ancestralidade e senioridade iniciática. Ou seja, quanto mais velho iniciaticamente falando, mais alto é o seu posto, logo mais venerável é a pessoa. Esse venerabilidade, contudo, não é gratuita, pois exige uma responsabilidade.

No Batuque existem 3 níveis iniciáticos: Bori, Pronto e Pronto com Axés. O Pronto com Axés será sempre hierarquicamente superior ao Pronto, que por sua vez é superior ao Bori. Além desses 3 ainda há as pessoas que chamamos de "cabeça lavada" ou omieró e ainda os que cumpriram obrigação de Oribibó. Estes ficam abaixo dos boris na escala hierárquica. Embora possamos contar na hierarquia do Batuque, os leigos estão tecnicamente fora dela, já que seu vínculo com a casa é essencialmente descomprometido. O leigo, muitas vezes é chamado de cliente, porque tem fé na força dos Orixás consultando o oráculo e realizando oferendas e trabalhos, mas não há vínculo direto com a casa. Contudo são os contribuidores financeiros da casa, o que garante seu funcionamento.

Em cada um desses níveis ainda há a hierarquia do tempo de iniciação. Assim um pessoa que tem 8 anos de bori e 30 anos de idade é considerada hierarquicamente mais velha que outra que tenha 4 anos de bori e 60 de idade. A idade fisiológica é irrelevante para a hierarquia que é sempre espiritual, embora seja observada.

O tempo de casa também é irrelevante, pois uma pessoa que tem 15 anos de casa e 10 de apronte é mais velha que outra que tenha 20 anos de casa e 5 de apronte.

Contudo não é fácil ser o mais velho. O mais velho é o mais responsável e, por consequência, o mais respeitável. Isso exige desse mais velho um comportamento ética e moralmente exemplar. Modelar para os mais novos. O poder dos mais velhos não é subjugar os mais novos, mas torná-los aptos a chegar no seu nível de conhecimento e sabedoria. O mais velho não pode ser um ditador ou general, tão pouco um displicente e fraco. O mais velho é quem ajuda a manter o nome do Ilê com honras e ajuda o babalorixá ou ialorixá a ensinar os mais novos a se comportar e a cumprir as tarefas que devem ser cumpridas. Enfim, ajuda a manter a ordem no terreiro. Mas lembre-se de que todo terreiro precisa se renovar para se manter fortalecido, por isso a presença dos mais novos é importante, então os respeite, tenha paciência com eles, pois eles serão os mais velhos de amanhã.

Aos mais novos cabe o exercício da humildade. Saber ouvir é aprender. Obedecer é, antes de mais nada, cumprir com o que deve ser feito. Todo o trabalho no terreiro é sagrado e deve ser feito com seriedade e abnegação. Esqueça de seus títulos acadêmicos, de seus postos profissionais ou de seu status social. Eles não valem nada aqui. Esqueça até mesmo do tipo de relação que tenhas com o Pai ou Mãe de Santo da casa. No terreiro és apenas o mais novo, um integrante de uma comunidade que já existe muito antes de ti, então respeite os irmãos mais velhos, pois são eles que vão te ensinar a lida do terreiro. Peça a sua bênção sempre que os vir e não esfregue sua mão em seus rostos, pois isto é faltar com o respeito. Deixe que eles o façam por conta própria. Aprenda tudo o que puder de cabeça baixa, com humildade e respeito. Jamais mande nos mais velhos, nem ao menos lhes peça para fazerem algo. Eles sabem o que deve ser feito e vão fazer. Não deixe seu conhecimento pré-adquirido atrapalhar no novo ensinamento que está recebendo. Lembre-se que os mais velhos são o esteio da casa da qual escolheste frequentar e que eles já estavam lá antes de tu chegar.

Os filhos de santo que tem casa aberta devem se lembrar que na casa de seu Pai ou Mãe de Santo estão sujeitos também a essa hierarquia. Assim um filho ou filha de santo com casa aberta é hierarquicamente inferior a um irmão ou irmã seu que tenha mais anos de vasilha que ele, embora não tenha seus Orixás em casa.

É assim que as coisas são num terreiro.




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