quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

NATAL, PAPAI NOEL, KWANZAA E BATUQUE

Àgo ye ègbón!

A palavra Natal é latim e significa nascimento. A festa, instituída pelo Papa Libério no ano 354, é em referência ao nascimento de Jesus de Nazaré no dia 25 de Dezembro pela Igreja Católica Romana e, no dia 7 de Janeiro, pela Igreja Ortodoxa. É encarado por todos os cristãos como o dia consagrado à reunião da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Segundo estudos, a data de 25 de dezembro não é a data real do nascimento de Jesus. A Igreja entendeu que devia cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam por altura do solstício de Inverno. Por isso essa data foi adotada para que a data coincidisse com a festividade romana dedicada ao "nascimento do deus sol invencível" (Natalis Invistis Solis), que comemorava o solstício de Inverno. A festividade romana em honra ao deus Saturno, era comemorada de 17 a 22 de dezembro; era um período de alegria e troca de presentes.
Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, a Igreja seguindo uma lógica de dominação lenta e progressiva, forneceu-lhes simbolismos cristãos e uma nova linguagem cristã. As alusões dos padres ao simbolismo de Cristo como "o sol de justiça" (Malaquias 4:2) e a "luz do mundo" (João 8:12) expressam o sincretismo religioso.
Atualmente o Natal surge como forma de aquecer o mercado consumidor num período que não havia muitas vendas devido as festas de final de ano (hemisfério norte) ou pelas férias (hemisfério sul). Desta forma a celebração do Natal aparece como mais uma ferramenta de marketing. O Natal tornou-se o feriado mais rentável para estabelecimentos comerciais. No Brasil o Natal só perde para o dia das mães nas vendas. Isso devido a sua principal característica que é a troca de presentes entre família e amigos, e presentes que são trazidos pelo Papai Noel.
Papai Noel tem um número muito grande de nomes, mas todos se referem à pessoa de São Nicolau que foi bispo de Myra (atual Turquia) no século IV. Muitos milagres são atribuídos a ele, todos associados com a doação de presentes. Os holandeses, no séc. XVII, levaram para os Estados Unidos a tradição de presentes as crianças usando a lenda de São Nicolau a quem eles chamavam Sinter Klaas.
Os impulsores do mito de Santa Claus foram dois escritores americanos. Em um livro inscrito em 1809, o autor Washinton Irving descreve São Nicolau como um personagem bonachão, que montava um cavalo voador e jogava presentes pelas chaminés. Em 1823, o poema de Clement Moore trocou o cavalo branco por renas que puxavam um trenó.
Ao longo do séc. XIX Santa Claus foi representado de várias maneiras: desde um gnomo jovial até um homem maduro e severo. Em 1862, o desenhista estadunidense Thomas Nast fez a primeira ilustração de Papai Noel descendo por uma chaminé, embora ainda tivesse o tamanho de um duende. A aparência atual de Papai Noel é resultado de uma campanha da Coca-Cola, que em 1931 encomendou ao artista Habdon Sundblom a remodelação do Sta. Claus de Nast.
Mas o que tem a ver o Natal com o Batuque? Nada! Como já disse, o Natal é uma festa cristã se for pensada como a celebração do nascimento de Jesus, e Jesus nada tem a ver com o batuque. Mas se for pensada como uma festa pagã como a saturnália, onde há alegria e troca de presentes, muito se aproxima a uma festa de origem africana: o Kwanzaa.
Kwanzaa é a única comemoração Afro-americana com foco nos tradicionais valores africanos da família, responsabilidade social, comércio e auto-aperfeiçoamento. Kwanzaa não é política nem religião, apesar de algumas pessoas o verem como substituto para o Natal. Ele é simplesmente um tempo de reafirmação do povo Afro-americano, seus ancestrais e cultura. Kwanzaa significa "primeiro fruto da colheita" na língua swahili. Foi criado em 1966 pelo Dr. Maulana Karenga, e vem sendo comemorado por mais de 18 milhões de pessoas no mundo, conforme o New York Times.
Kwanzaa é comemorado de 26 de dezembro a 01 de janeiro e tem como base o Nguzo Saba que é o guia de cerimônia dos sete princípios, um para cada dia de cerimônia, que são:
Umoja (União) – acentua a importância da companhia para a família e a comunidade, a qual é refletida no dizer Africano, "Eu sou nós" ou "Eu sou porque nós somos".
Kujichagulia (Auto-determinação) – requer que nós definamos nossos interesses comuns e tomemos decisões que estão no melhor interesse de nossa família e comunidade.
Ujima (Trabalho coletivo e responsabilidade) – lembra-nos de nossa obrigação com o passado, presente e futuro, e que nós temos um papel a desempenhar na comunidade, sociedade e mundo.
Ujamaa (Cooperativas econômicas) – realçam nossa economia coletiva, reforçam e encorajam-nos a reunir necessidades comuns através da ajuda mútua.
Nia – Propõe-se a encorajar-nos a olhar para dentro de nós mesmos e nortear metas que são proveitosas para a comunidade.
Kuumba (Criatividade) – faz usar de nossa energia criativa para construir e manter uma comunidade forte e vibrante.
Imani – Focaliza a crença na honra de nossas melhores tradições, aproxima o melhor em nós mesmos, e ajuda-nos a lutar por um nível mais alto de vida para a humanidade, pela afirmação do nosso próprio valor e confiança na nossa habilidade para conseguir e triunfar na luta justa.
A Kwanzaa Karamu ou “festa Kwanzaa” é tradicionalmente realizada em 31 de dezembro. Este é um evento muito especial visto que é o Kwanzaa que leva-nos ao mais íntimo de nossas raízes. O Karamu é uma obra popular e cooperativa. Expressões de formalidade e cultura são altamente encorajadas. A comida deverá ser colocada criativamente no chão e feito acessível para todos se servirem. Antes e durante a festa, um programa informativo e de entretenimento deve ser apresentado. Tradicionalmente, o programa implica em boas vindas, recordações, reavaliações, reempreemdimentos e júbilo, concluído por uma declaração de despedida e um chamado por maior união. O dar presentes durante Kwanzaa deve ser luxuoso e de natureza educacional ou artística. A Kuumba (criatividade) é grandemente encorajada. Presentes são usualmente trocados entre pais e filhos e tradicionalmente dados no primeiro dia de janeiro.
Kwanzaa é como uma ocasião, visto que nos providencia uma oportunidade para refletirmos sobre nosso passado africano e presente americano. Enfim, uma comemoração que surge para trazer sentimentos verdadeiros numa época em que só se pensa nos presentes que podemos dar ou ganhar.

Pùpó Àṣẹ gbogbo!
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Artigo publicado no Jornal Bom Axé. Edição 31. Bellgrado. 20/Dezembro/2007. Pág. 16

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

QUEM É O AXERÊ?

Àgo ye égbon!
Pouco se discute sobre o axerê e seu papel na nossa religião, embora existam muitas teorias e explicações para sua existência. Muitos acreditam que o axerê é o Orixá em estado infantil e por isso cobrem-lhe de brinquedos e badulaques, mas se fizermos uma análise epistemológica de seu comportamento teremos também outras idéias a seu respeito.
Existe uma tremenda confusão a respeito da palavra que o identifica: axêro, axerê, axerêo, axêre, são alguns dos termos pronunciados pelos africanistas gaúchos. Este termo existe só no Rio Grande do Sul e é derivado de uma palavra da língua iorubá. Carlos Galvão Krebs, um dos primeiros antropólogos gaúchos a pesquisar o batuque foi até a Bahia se encontrar com o mais que conhecido etnólogo francês Pierre Fatumbi Verger. Ao se deparar com a palavra axerê, coletada na comunidade afro-gaúcha, Verger extasiado diz: “Mas isso é iorubá” – mostrando um dicionário dessa língua.
De fato, em seu livro Orixás (VERGER, 1997, pág.139), Verger aponta a expressão o se bí asiwère (o xe bi axiuerê) que quer dizer "ele porta-se como um louco". Então axerê (corruptela de axiuerê) significa “louco”. Alguns podem contestar isso mas prestem mais atenção ao comportamento dos axerês: eles sempre invertem as localizações e alguns objetos substituindo as palavras originais pelo seu antônimo, por exemplo: dizem frente quando se referem aos fundos, encima quando é embaixo, luva ao invés de meias; palavrões no lugar de expressões comuns; sempre falam no tempo passado para acontecimentos do presente (ao invés de “é” eles dizem “era”); e tantas outras “loucuras” que vemos nas casas de religião.
No entanto, quase a totalidade dos africanistas afirmam ser o axerê uma criança. Existe até mesmo uma explicação com certa lógica com base num estudo superficial da semântica da palavra: axerê seria a contração, muito recorrente na língua iorubá, de duas palavras -> axé (energia imaterial divina) + erê (criança), ou seja, axé de erê ou de criança. De fato, todos os pesquisadores sempre aludem esta questão.
Norton Correia em seu livro O Batuque do Rio Grande do Sul, afirma que eles agem “[...] como crianças de 3 anos, os axerês mostram comportamento tipicamente infantil: ar abobalhado, olhos semi-arregalados, boca entreaberta.” (CORREA, 2006, pág.123) Mônica Buonfiglio também diz que “[...] o noviço toma uma forma infantil [...]”, no seu livro Orixás! (Buonfiglio, 1995, pág.112); e até mesmo Verger, em suas observações dos ritos de Xangô na Nigéria, diz que é “[...] um estado de langor, de abatimento e sonolência, durante o qual se entrega a atos de caráter infantil [...]”. (Op.cit.) Contudo, os termos “agem como”, “toma uma forma” e “atos de caráter” são claramente explicativos, pois esses pesquisadores concluíram que os axerês se portam como se fossem crianças, mas não afirmam que o são.
Já para os praticantes do Candomblé o axerê é na realidade “um tipo de entidade infantil” que tem relação com o Orixá da pessoa mas que não é o mesmo. São entidades distintas: o Orixá é uma coisa, o Erê (nome pelo qual é chamado no Candomblé) é outra.
E para quê serve o axerê?
O elégùn (“cavalo-de-santo”) quando ocupado pelo Orixá, segundo Verger, está num “[...] estado de exaltação e veemência enérgicas e autoritárias [...]”. O rigor físico provocado pelo Orixá manifestado impossibilita o funcionamento natural do organismo, então o axerê, antes de tudo, serve como relaxamento inclusive para a normalização de algumas funções fisiológicas interrompidas durante o transe. Quando em axerê, o Orixá pode comer e beber, se descontrair, enfim, socializar-se.
Norton Correia foi o pesquisador que mais se dedicou ao estudo dos axerês dedicando algumas páginas no seu célebre livro. Segundo ele, o axerê é um estado intermediário entre a ocupação e o normal. Perguntada por ele sobre o que é o axerê, Mãe Ester de Iemanjá diz o seguinte:
“É o mesmo santo, mas fica assim como criança, nem cá nem lá, nem é mais orixá, mesmo, nem é gente”.
Pùpó àse gbogbo!

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Referências Bibliográficas
BENISTE, José. As águas de Oxalá: (àwon omi Ósàlá). 3ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 336p.
BUONFIGLIO, Mônica. Orixás! São Paulo: Oficina Cultural Mônica Buonfiglio, 1995. 183 p.
CORRÊA, Norton F. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992. 289p.
SILVEIRA, Hendrix. A cultura religiosa dos iorubás: do surgimento à diáspora. Porto Alegre: Monografia/FAPA, 2004
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e Novo Mundo. 5.ed. Salvador: Corrupio, 1997. 295p.
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