sexta-feira, 30 de abril de 2010

DEBATE VIRTUAL COM AMBIENTALISTAS EM 2004




>>>E-mail enviado por Juliana Gonçalves, estudante de biologia da UFRGS, em 25/07/2004

O deputado Edison Portilho de Porto Alegre teve a feliz idéia de criar um projeto de lei que permita que os animais sejam torturados e sacrificados em rituais religiosos. ... .
O Deputado Edison Portilho, sabendo que iria ser "lavado" pelos protetores dos animais, fez a seguinte trama: marcou a apresentação para votação da lei num dia de julho mas fez um chamado urgente e marcou a reunião às pressas, mais cedo. Os únicos avisados foram os demais deputados e todas as religiões afros estavam lá dando pressão neles. Ou seja: não havia defesa. Os animais não tiveram oportunidade de se terem pessoas que os representassem. Quem poderia responder por eles? E aconteceu o que mais temíamos: houveram 32 votos contra os animais e apenas 2 a favor. 
Agora imaginem o que já acontece: gatinhos e cachorrinhos têm os olhos arrancados, dentes tirados e são cortados em vários pedaços para fazer o tal Banho de Sangue. Os animais que não servem mais para o ritual são mortos a sangue frio: pauladas, chutes e pisões. Agora imagine se eles fossem amparados por lei para fazerem isso!!! Os animais não teriam nem chance de revidar. ... Por favor, vamos ajudar os nossos animaizinhos, eles têm o direito de viver e mais: direito de defesa contra crueldade. 
A única forma de contrariar essa lei e fazer um abaixo-assinado e o governador perceber que essa lei tem que ser vetada. Olhem nessa página e veja quantos assinaram. Seu nome ficará seguro, essa lista é somente para ajudar os animais. Não custa nada. Acessem a página, cliquem na parte cinza onde esta escrito: PREVIEW YOUR SIGNATURE. Você só precisa do numero do RG. Se quiserem saber mais, procurem nas páginas do Google, os ambientalistas já estão se mobilizando mas eles não podem fazer nada sem o seu apoio."

>>>E-mail enviado por mim como resposta, em 27/07/2004

Bom dia cara Juliana. 
Tens que me desculpar, mas gostaria de saber de onde tu tiraste estas informações fantasiosas?
Sinceramente, creio que os filmes do Stephen King aguçaram a tua imaginação.
Nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas. Os únicos animais utlizados são: galináceos, caprinos, ovinos e suínos. Ou seja, animais que podem ser consumidos totalmente pelos praticantes.
A religião africana não permite o desperdício, por isso o animal é aproveitado completamente: carnes e miúdos são utilizados nos mais variados tipos de pratos desenvolvidos pela gastronomia africana. O mocotó e a feijoada são pratos típicos da religião, pois foram criados pelos escravos utilizando partes dos animais que, até então, não eram ingeridas.
Nós damos tanto importância à vida, que um africanista não pode trabalhar em um matadouro, por exemplo. Pois não podemos matar um animal só para a alimentação. Este animal deve ser antes sacralizado, ou seja, ofertado primeiro aos orixás, para depois sim, poder ser comido.
Nós não buscamos a lei para podermos maltratar os animais com liberdade. Buscamos a lei para termos garantida a liberdade de culto e liturgia.
Os neopentecostais, munidos de uma persuasão ímpar, estão usando vocês para se baterem de frente conosco. E vocês nem perceberam!
A intenção dos evangélicos não é proteger os animais, mas sim, garantir a vitória na sua pretensa “guerra santa” contra os africanistas. Para isso, seus representantes na Assembléia (como o deputado Manoel Maria) criam leis de caráter ambientalista mas dúbia e interpretativa. Quem a lê pensa que se trata de proteção aos animais, quando na verdade, oculto nas entrelinhas, querem é colocar uma religião milenar e seus praticantes na ilegalidade.
Mas para não sofrerem represálias por intolerância religiosa, ficam por trás da moita incitando discórdias, enquanto vocês, ambientalistas dão a cara pra bater, e serem chamados de intolerantes (porque é religião), racistas (porque é religião de negros) e discriminadores (porque é religião de negros e pobres).
Reflitam bem sobre este assunto que é muito sério. Se formos colocados na ilegalidade, seremos perseguidos, agredidos e presos. Tal qual na época da ditadura militar. Isso sim é que é voltar à pré-história social.
Qualquer dúvida, ou se quiserem conversar ou debater a respeito, pode me mandar um e-mail.
Axé!

>>>E-mail enviado por Juliana Gonçalves, em 28/07/2004, em resposta ao meu e-mail anterior

Olá pessoal,
Alguns de vocês devem ter recebido o email que segue abaixo em resposta ao e-mail que enviei ao grupo sobre a lei que regulamenta o sacrifício de animais em cultos no nosso estado.
Não sei se alguém de fato se sentiu tocado pelas palavras de "Sandro de Oxalá" mas de qualquer forma acho importante esclarecer, se este alguém existe, algumas coisas.
As informações não são fantasiosas, é fato cotidiano animais mutilados nas esquinas em meio a oferendas, eu moro perto de uma "encruzilhada" e rolam coisas medonhas no meio da noite.
Qualquer ritual que realize sacrifício de animais ou mal-tratos a estes, é por mim abominado, sendo ele de origem africana ou não, mas já que nosso caro "Sandro de Oxalá" entrou na questão, sugerindo uma absurda conspiração por trás de nossa petição, tenho a declarar:
A liberdade de crença e religião é assegurada pela nossa constituição e pelos direitos humanos, portanto ninguém será perseguido, agredido, nem preso.
Contudo, é claro que cultos que realizam sacrifícios de animais não têm a simpatia de pessoas que defendem a vida, nem a minha, mas outro direito assegurado por nossa constituição é a liberdade de opinião, que assim como a de crença deve ser respeitada.
A lei, recentemente sancionada, concede ao ser humano o direito de tirar a vida de outro animal. Se os praticantes de rituais africanistas repudiam a falta de respeito aos animais que se observa em certos rituais religiosos não há motivos para tanta preocupação!

Pela liberdade de opinião, decisão, crença e DIREITO A VIDA.
Tenho dito.


>>>E-mail enviado por Luna Camargo, em 31/07/2004, em resposta ao meu e-mail anterior

Olá Hendrix de Oxalá,
Eu admito a minha ignorância a respeito de religiões, tanto africanistas como evangélicas... o que não me impede de ver muitas vezes em encruzilhadas animais sacrificados que eu não acredito poder ser usado na alimentação posteriormente. 
Para mim não importa se o animal é doméstico ou não, isso não vem ao caso, até porque sou vegetariana e acredito que não precisa se matar nenhum animal para alimentação. 
O que coloco em critica aqui é os títulos que você deu a nós "naturalistas" de racistas, intolerantes e etc., não concordo que estou sendo manipulada, até porque a religião evangélica sim me repudia, com a sua exploração explicita a um povo ingênuo, muito pelo contrário das africanistas das quais até tenho alguns amigos praticantes e já recorri muitas vezes a eles para auxilio espiritual. 
Quanto ao racismo nada mais datado do que apelar pra esse lado em pleno século 21 com alto processo de globalização e miscigenação de raças principalmente aqui no Brasil. a única coisa que queremos por meio deste e-mail circulante é parar com a matança desnecessária, eu não acredito que os deuses queiram ter animais sacrificados em vão, não existem outras maneiras de oferendas?
Por favor gostaria de ter mais esclarecimentos sobre os tipos de cultos por vocês praticados para não ser injusta.

>>>Minha resposta a ambas, em 01/08/2004

Bom dia cara Juliana e minha cara Luna!

Como o assunto é o mesmo, responderei às duas neste e-mail, Ok?

Acho que devo algumas explicações...

1° - Nós africanistas sempre utilizamos um nome religioso. É um tipo de cognome ou apelido que nos diferencia dos não iniciados e, ao mesmo tempo, nos identifica entre a comunidade africanista. Geralmente é um nome próprio ou apelido, seguido do orixá ao qual tu és consagrado.

2° - É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua. É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses "despachos". Esses ritos remetem à época da escravidão e ao tempo em que os escravos eram perseguidos pelos padres católicos. O grande medo que os católicos tinham da magia negra européia, motivou esse povo sofrido a se defender utilizando esses conceitos. Infelizmente isso se perpetuou até nossos dias. Nós, africanistas conscientes, buscamos uma melhor compreensão da filosofia e principalmente da teologia africana, através de estudo metodologicamente aprofundado sobre o tema. Para tanto foi fundado o Egbé Orun-Aiyé - Sociedade Afro-brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras. Seguidamente o egbé promove cursos e palestras com professores especializados em teologia e culturas negras. Se quiserem saber mais www.egbeorunaiye.blogspot.com
A nossa maior preocupação é conscientizar as pessoas que ainda fazem esse tipo de coisa, que isso não é religião africana. A religião africana tem como conceitos básicos: NÃO DESPERDIÇAR; NÃO MATAR SE NÃO FOR COMER e NÃO DISCRIMINAR. Esses conceitos não são disseminados porque, para o africano, a vida não está em separado da religião. Segundo a cosmovisão africana tudo é sagrado, tudo é de Deus. Não há motivos para se criar "10 mandamentos", por exemplo. Mas, para se obter qualquer coisa de Deus, deve-se primeiro devolver-lhe uma parte. Assim, para se comer pipoca, deve-se antes ofertar a Deus um punhado. Do mesmo jeito se quiseres comer feijão, canjica, churrasco, ou galeto.

3° - Sou a quinta geração da minha família que é africanista. Minha tia-bisavó, Augusta de Ogum, contava como a polícia entrava a cavalo nos templos, em meio a rituais religiosos, e quebrava tudo a patadas e cassetetes. Pessoas eram machucadas, sem observância de idade ou sexo, simplesmente porque estavam praticando a sua espiritualidade. Nós temos cicatrizes que passaram de geração após geração. Tínhamos nos esquecido delas até surgir essa polêmica. Não queremos ter nossos rituais sagrados interrompidos pela polícia, porque intolerantes religiosos elegeram seus representantes na Assembléia, na Câmara, ou no Senado, para condenar nossos rituais à ilegalidade. Todo o mundo sabe que o princípio mais básico de nossa religião é a sacralização de animais. Proibir isto é proibir nossa religião.

4° - Respeito muito a opinião das pessoas porque é através das opiniões que aprendemos sobre elas.

5° - Embora os evangélicos sejam contra o africanismo, são os neopentecostais (Universal, Igreja Internacional da Graça de Deus e dissidentes) que fizeram dessa aberração social, uma verdadeira guerra santa contra nós. O pastor evangélico Dep. Manuel Maria se perfilou atrás dos ambientalistas para por fim a religião africana da maneira mais ardilosa: a Constituição. Claro que se ele usasse o seguimento evangélico para se defender, seria facilmente derrotado. Espertamente preferiu usar um seguimento sério, sem cunho religioso, para defender seu intento. Sob a capa do ambientalismo eles incitam a discórdia entre dois seguimentos que deveriam estar unidos para inibir o uso errôneo do sacrifício dos animais.

6° - Claro que existem outras formas de se agradecer ou de suplicar aos Orixás suas benesses. Oferendas incruentas, utensílios ou roupas que podem ser usadas por eles enquanto manifestados em seus neófitos, e sacrifícios comedidos em rituais dentro dos templos, onde mais tarde, todos poderão comungar com os Orixás, comendo a carne e miúdos em pratos cozidos.
 Muitas pessoas dizem que nossos rituais são primitivos: que "em pleno século XXI...", ora, o cristianismo nasceu ontem ou há 2000 anos atrás? E o Hinduísmo? E o Budismo?
 Será que é dado anestesia para cada uma das cerca de mil galinhas mortas todos os dias na Avipal?
Será que os bois não sofrem nos matadouros? Ou nos rodeios, onde são atadas cordas apertadas em sua virilha, ou enfiam tocos de madeira em seu ânus? A castração é indolor?
Não seria hipocrisia uma pessoa defender os animais na segunda sendo que comeu uma bela churrascada no domingo?
Só mesmo quem é como a Luna, uma vegetariana, pode realmente se manifestar contra a morte exacerbada de animais.
 À propósito minha cara Luna, o racismo, intolerância e discriminação existem sim. Se quiseres te mando um trabalho que apresentei na FAPA sobre o racismo.
 Novamente me disponho a todos que quiserem conversar...

Pupo axé gbogbo! (Muito axé para todos!)

PS.: Eu existo sim.

>>>Resposta de Juliana Gonçalves, em 05/08/2004

Olá Hendrix,
Você se contradice algumas vezes... desde a última opinião que me enviaste.

"Nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas."
"É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses "despachos". "

"É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua."
"NÃO DESPERDIÇAR; NÃO MATAR SE NÃO FOR COMER"

Mas não vou entrar nessa questão.
Eu acho que tu ainda não compreendeu, que eu, estudante de biologia, e muitas outras pessoas não assinam a petição para ir contra religião alguma. Tu já até conheces minha opnião, não acho correto o sacrifício de animais em rituais, mas também não acredito nas mesmas coisas que você. 
Então o que eu gostaria que você entendesse é que estou contra que essa prática seja legal, prática que esta contida em algumas religiões, mas as religiões não devem ser proibidas, elas devem encontrar outras maneiras de adorar suas divindades, satisfaze-las enfim. 
Se formos partir do princípio que tudo que é feito em nome de uma religião(seja ela qual for) não deve ser repreendido, temos de tomar como corretas e lícitas práticas como sacrifício de crianças em rituais, ato realizado algum tempo atrás por uma religião ou crença(seja la o que era).
Em minha opinião sacríficio e mal-tratos de animais em rituais é crime.
Segundo os direitos dos animais também é, pois...

ARTIGO 3: 
a) Nenhum animal será submetido a maus tratos e a atos cruéis. 
b) Se a morte de um animal é necessária, ela deve ser instantânea, sem dor ou angústia.

Também sou contra os abusos cometidos nos rodeios, touradas e pseudoespetáculos do gênero. Quanto ao abate de animais para consumo de carne, antes de se abater o gado é feito o atordoamento para que ele não sofra. E não é menos defensor dos animais aquele que come carne por motivo algum.
Estou aberta a debater o assunto,

>>>Minha resposta em 08/08/2004

Bom dia minha cara Juliana!

Antes de tudo, gostaria de dizer que estou gostando dessas conversas on-line e acho que seria ótima uma conversa ao vivo... quem sabe no futuro? [Nota: Isso nunca aconteceu]

Também gostaria de dizer que eu não me contradisse.
A Luna, em seu mail, me afirmou o seguinte:"eu admito a minha ignorância a respeito de religiões, tanto africanistas como evangélicas... o que não me impede de ver muitas vezes em encruzilhadas animais sacrificados que eu não acredito poder ser usado na alimentação posteriormente."
Para respondê-la, eu fiz a seguinte afirmação: "É fato que existem muitos casos de animais mortos em encruzilhadas e cemitérios, e é óbvio que eles só servem para a alimentação de ratos, gatos e cachorros de rua. É verdade, também, que às vezes vemos até animais domésticos nesses 'despachos'."
Antes, eu tinha escrito a ti dizendo que "nunca, em hipótese alguma, são usados animais domésticos em rituais africanistas."
Isto nos faz pressupor que quem executa rituais de sacrifício de animais (domésticos ou não) e os deposita nas encruzilhadas, NÃO SÃO AFRICANISTAS. Eu, como africanista consciente, apoio a proibição de "despachos" contendo animais. É lamentável que, com tanta gente passando fome, existam pessoas que desperdiçam comida jogando nas ruas!
A legislação tem que ser mais clara neste sentido. Não se pode simplesmente proibir o sacrifício de animais, pois isto impediria o livre exercício do direito a cultos e liturgias de nossa religião.
O inciso VI do artigo 5° da Constituição Federal, nos garante que são "invioláveis a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias." Ora, o pressuposto básico de nossa liturgia é justamente a sacralização de animais. Então qualquer ato do governo ou da assembléia no sentido de nos proteger, só está fazendo cumprir a lei.
Além disso, a religião afro-brasileira, além de crença religiosa, também figura como manifestação da cultura popular, estando, portanto, protegida pelo parágrafo 1° do artigo 215 que diz: O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e dos outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
Ainda há a Declaração Universal dos Direitos do Homem que, segundo o artigo XVIII, garante a “todo  homem o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Então Juliana, eu volto a afirmar que os despachos e oferendas nas ruas, praias, bosques ou pedreiras são um direito legal nosso. Entretanto, se este despacho ou oferenda conter um animal morto, ele está fugindo às tradições africanas, não sendo protegido pela lei. Então não há o porquê dos ambientalistas se alvoroçarem e tentarem impedir uma prática religiosa sendo que o objeto de sua perseguição não faz parte de sua liturgia.
Veja bem: a população africanista do Rio Grande do Sul é enorme (só na minha rua existem uns quatro templos), se todos fossem largar animais mortos nas ruas teríamos uma montanha em cada esquina não achas? O que prova que não são os africanistas que cometem esses erros. Quem faz esse tipo de coisa são pessoas não esclarecidas sobre a verdadeira religião africana. Pensam que são bruxos ou feiticeiros à la européia, e que não terão que prestar contas quando retornarem à massa de origem. É com essas pessoas que nós, africanistas conscientes, estamos tentando fazer contato, no intuito de fazê-los compreender a verdadeira religião da África, com um processo que chamamos de reafricanização através de estudos sobre a história, a filosofia e a teologia africana.

As religiões fazem parte de um processo cultural lento e profundamente enraizado na vida das pessoas. Sendo cultura, sua mudança não surge do dia para a noite, da forma como o mundo capitalista gosta de resolver as coisas. Não há como substituir a sacralização de animais em nossos rituais. Isso é parte integrante e irrefutável de nossa liturgia.

A propósito, nós africanistas somos classificados pela lei como iguais a qualquer outro ser humano. O inciso VIII do artigo 5° diz que "ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei." Isso significa que se algum doente matar outro ser humano, atribuindo este ato à ritual religioso, além de não ser protegido ainda terá que acarretar com as sansões previstas em lei. O que apoiamos sem restrições, é claro!

A nossa religião não prevê maus tratos. O animal é muito bem tratado nos templos, até chegar a hora de devolver aos Orixás o axé sagrado, para que assim possamos comungar com Eles.
Quem sofre maus tratos são os animais de rodeios e outros eventos afins. São para esses que vocês devem apontar seus interesses de defesa.

Ainda estou disponível a discussão.

Pupo axé gbogbô!
(Muito axé pra todos!)

>>>Não houve mais resposta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Negros Albinos: a mentira propagada

Àgo ye égbòn

Há cerca de um mês atrás uma colega do curso de história da Fapa me pediu uma opinião sobre albinos africanos, pois ficou interessada e queria escrever um trabalho sobre eles e queria fontes.

Ela ficou espantada com a minha resposta, pois as informações que possuía era de que essas pessoas eram maltratadas, discriminadas e que fugiam da fúria de pessoas supersticiosas que acreditavam que poderiam utilizar seus membros amputados para realizar feitiços e bruxarias. Perguntei-lhe de onde tirou essas ideias malucas e disse que foi de um vídeo que recebeu de amigos da internet. Pedi-lhe que me mandasse o tal vídeo para que eu analisasse.


O que vi foi um engendro medonho da realidade conspirado e executado por, pelo que parece, evangélicos brancos elitistas e racistas contra as religiões africanas e o povo africano. Isso não é incomum. Principalmente nesta época em que a sociedade luta por cotas para as minorias étnicas nas universidades e os afro-religiosos lutam por respeito às suas crenças e cultura.

O pseudo-documentário não revela fontes. É apenas um emaranhado de fotos que, de forma alguma, representam o que está descrito nos textos que os acompanham. Pelo contrário, mostram os albinos sempre num contexto de coletividade. Os textos apresentados não passam de falácia infundada daqueles que, criminosamente, tentam criar opinião pública sobre algo que a maioria não conhece.

Se aproveitam da falta de conhecimento do povo brasileiro com relação aos nossos irmãos africanos para degradarem sua cultura e inteligência com fins claramente destrutivos.

Sou um empenhado estudioso da História da África e de seus conflitos e nunca li nada parecido. Muito pelo contrário. Pierre Verger diz em seu livro Orixás: Deuses da África e do Novo Mundo (Ed. Corrupio) que os albinos, assim como os que possuem alguma deficiência, são entendidos como de origem divina, pois foram criados por Oxalá e, por isso mesmo, são tratados com muito respeito e dedicação, pois zombar de tais pessoas seria o mesmo que zombar da própria divindade que os criou.

Esses slides são racistas porque diminuem o intelecto dos africanos a meros supersticiosos e ignorantes; é intolerante porque discrimina as crenças africanas ao afirmar mentiras de bruxarias com membros humanos; é reducionista porque faz o leitor pensar que a África é um território homogênio, onde todos possuem a mesma cultura e identidade.

Por fim é um dos vídeos mais nojentos que já vi na minha vida.

Desconsidere-o totalmente, pois não tem embasamento algum, senão na vontade daqueles que querem desacreditar a legitimidade da luta pelas cotas e pelo respeito à cultura e religiosidade afro-descendente.

Pùpó Àse gbogbo!
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