sábado, 28 de novembro de 2015

Entendendo algumas questões de gênero nas Tradições de Matriz Africana

A sociedade ocidental é constituída sobre quatro pilares ideológico-culturais: a heteronormatividade, o racismo, o cristianocentrismo e o machismo. O machismo é a ideologia que sustenta que o homem é superior à mulher, logo merece as melhores posições, melhores salários, etc. Quando este sentimento de superioridade é exagerado, ou seja, quando há um total desprezo pelas mulheres e seu universo, estamos falando de misoginia.

Ser um "pilar ideológico-cultural" significa que a cultura de uma sociedade está arraigada destes valores, por isso dizemos que a cultura ocidental é machista, logo devemos rever estes aspectos culturais, pois a cultura não é engessada, ela pode ser remodelada - e de fato o é - de tempos em tempos. Para Braudel a cultura é "tempo longo", o que indica que suas perspectivas são mais duradouras e difíceis de serem revistas e reconstruídas, por isso Deleuze nos incita a "desconstruir" a cultura para reconstruí-la de forma a contemplar as hodiernas visões de mundo.

Para as Tradições de Matriz Africana como o Batuque e o Candomblé as questões de gênero nunca se colocaram como fator decisivo nas relações de poder dentro da comunidade tradicional. Ali homens e mulheres têm funções diferentes porque o trabalho é teológico, assim como a própria diferença de gênero o é.

Para as tradições africanas absolutamente tudo é sagrado. Inclusive o trabalho. Logo o trabalho se constitui numa "economia teologal", parafraseando Dussel. Um dos elementos de compreensão da humanidade a partir do sagrado é a questão do trabalho dentro das questões de gênero.

O falo é o símbolo representativo do poder sagrado masculino, enquanto que o útero é o símbolo do poder sagrado feminino. Assim todos os elementos com formato fálico (tais como a faca, a espada, a lança, o tambor, etc.) são sub-representações do falo, logo pertencem ao homem, pois potencializam e são potencializados por ele. Por isso as atividades masculinas estarem mais voltadas para a guerra, a caça, a pesca, etc.

Por outro lado o símbolo representativo do poder sagrado feminino é o útero, por isso o trabalho feminino é aquele em que o seu poder gerador de vida pode ser direcionado, como no plantio e no preparo dos alimentos. A visão machista de mundo diz que o lugar da mulher é na cozinha porque no mundo ocidental o lugar mais importante é a sala, onde o homem lê seu jornal, assiste seus programas de TV ou se reúne com os amigos. A cozinha é sempre um local de labuta (e a cosmovisão ocidental
é de que o trabalho é castigo divino), um lugar inferior onde as pessoas inferiores (mulheres) devem estar e se dedicar.

Ao contrário, para as sociedades africanas a cozinha é o local principal da casa. A panela tem o formato uterino e é nela que a mulher exercerá o seu poder gerador de vida na transformação do alimento cru em cozido para assim garantir a vida de sua família.

Como a mulher é um ser inferior para a sociedade ocidental, é desprezada e a instituição da monogamia é para evitar que o homem (o ser superior) tenha contato com muitas delas. Já na cosmovisão africana a mulher é sagrada, por isso a poligamia garante que o homem esteja rodeado de sacralidade.

Entrementes, para a sociedade africana a mulher não é superior, mas possui equidade com o homem em direitos e deveres. As diferenças de função estão relacionadas exclusivamente a visão de sagrado que se tem sobre o papel de homens e de mulheres no mundo visando sempre a complementaridade, simbiose e a continuidade da vida que é o fator primordial da filosofia e da teologia africana.

Àṣ o!

domingo, 1 de novembro de 2015

Egun e o Dia de Todos os Santos

Hoje é Dia de Todos os Santos para algumas igrejas cristãs como a católica, a ortodoxa, a anglicana e a luterana. Embora tenham divergências teológicas a respeito da celebração, todos prestam homenagem a memória de mártires que defenderam inabalavelmente sua fé diante de torturas e da iminência da própria morte. Foram exemplares e, por isso mesmo, são veneráveis modelos para os cristãos de todo o mundo.
Santo, em latim "sanctum", significa "separado" (ELIADE), ou seja, os santos são aqueles que já foram separados do mundo pela graça de Deus. Sejam eles conhecidos ou anônimos, todos são festejados nesta data.
Na tentativa de traçar uma estratégia de conversão dos africanos escravizados, a longo prazo, a igreja católica promoveu o sincretismo de alguns de seus santos com os Orixás.
O fato é que teologicamente os santos não são comparáveis aos Orixás, pois estes últimos são divindades criadas por Deus para a manutenção da criação, enquanto que os primeiros foram seres humanos que viveram e morreram. Se fizermos um estudo de teologias comparadas a figura dos santos cristãos está mais assemelhada a dos Eguns.
Eguns são seres humanos que tiveram uma vida exemplar. Quando vivos cumpriram plenamente o seu projeto mítico social (Odù), tiveram filhos, prosperaram, se tornaram sábios anciões. Tinham Ìwàpẹ̀lẹ̀, o bom caráter. Cumpriram fielmente todos os ritos da tradição yorubá. Se "santificaram" para usar uma expressão do cristianismo.
Egun não é qualquer espírito de falecido, mas sim o espírito de alguém que se tornou um ancestral ilustre que ganha culto, homenagens e festas. No Batuque o rito à Egun foi preservado minimamente segundo as tradições de Lesé Orixá. Muito diferente do vídeo anexado a esta postagem que é de um Lesé Egun - comunidade tradicional de matriz africana que cultua exclusivamente Eguns -, o Ilê Agboulá da ilha baiana de Itaparica, mas o princípio teológico e filosófico permanece o mesmo: o papel do Egun é de nos cobrar MORAL e ÉTICA, tanto com relação às liturgias que nos deixaram como legado quanto com as relações humanas que estabelecemos.
O Batuque não é a religião da bagunça, tampouco a tradição do "cada um faz o que quer". Batuque é uma tradição ética e carrega uma moral. Quem não entende isso está degradando-o, destruindo-o e prestarão sua conta.
Iku oo!


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