domingo, 1 de novembro de 2015

Egun e o Dia de Todos os Santos

Hoje é Dia de Todos os Santos para algumas igrejas cristãs como a católica, a ortodoxa, a anglicana e a luterana. Embora tenham divergências teológicas a respeito da celebração, todos prestam homenagem a memória de mártires que defenderam inabalavelmente sua fé diante de torturas e da iminência da própria morte. Foram exemplares e, por isso mesmo, são veneráveis modelos para os cristãos de todo o mundo.
Santo, em latim "sanctum", significa "separado" (ELIADE), ou seja, os santos são aqueles que já foram separados do mundo pela graça de Deus. Sejam eles conhecidos ou anônimos, todos são festejados nesta data.
Na tentativa de traçar uma estratégia de conversão dos africanos escravizados, a longo prazo, a igreja católica promoveu o sincretismo de alguns de seus santos com os Orixás.
O fato é que teologicamente os santos não são comparáveis aos Orixás, pois estes últimos são divindades criadas por Deus para a manutenção da criação, enquanto que os primeiros foram seres humanos que viveram e morreram. Se fizermos um estudo de teologias comparadas a figura dos santos cristãos está mais assemelhada a dos Eguns.
Eguns são seres humanos que tiveram uma vida exemplar. Quando vivos cumpriram plenamente o seu projeto mítico social (Odù), tiveram filhos, prosperaram, se tornaram sábios anciões. Tinham Ìwàpẹ̀lẹ̀, o bom caráter. Cumpriram fielmente todos os ritos da tradição yorubá. Se "santificaram" para usar uma expressão do cristianismo.
Egun não é qualquer espírito de falecido, mas sim o espírito de alguém que se tornou um ancestral ilustre que ganha culto, homenagens e festas. No Batuque o rito à Egun foi preservado minimamente segundo as tradições de Lesé Orixá. Muito diferente do vídeo anexado a esta postagem que é de um Lesé Egun - comunidade tradicional de matriz africana que cultua exclusivamente Eguns -, o Ilê Agboulá da ilha baiana de Itaparica, mas o princípio teológico e filosófico permanece o mesmo: o papel do Egun é de nos cobrar MORAL e ÉTICA, tanto com relação às liturgias que nos deixaram como legado quanto com as relações humanas que estabelecemos.
O Batuque não é a religião da bagunça, tampouco a tradição do "cada um faz o que quer". Batuque é uma tradição ética e carrega uma moral. Quem não entende isso está degradando-o, destruindo-o e prestarão sua conta.
Iku oo!


5 comentários:

Jayson Clovis Fauth disse...

A igreja católica não sincretizou seus sntos com Orixas, quem o fez foram os escravos que uasavam as imagens sobre os altares pra poder cultuar seus orixas nos Otás , que estavam embaixo ou atras dos referidos santos

Hendrix Silveira disse...

Olá Jayson

Obrigado por seu comentário.

Na verdade não. Os africanos não conheciam as divindades católicas para estabelecer o sincretismo, entretanto os padres conheciam bem as divindades africanas, pois os pesquisavam desde muito cedo.

O sincretismo não é uma estratégia de conversão recente. Na Baixa Idade Média europeia a igreja usou esta estratégia se apropriando de datas de festividades pagãs (como a festa à deusa Oister, a festa ao Deus Dionísio, o Samhain e a Saturnália) para inculturar suas datas comemorativas (páscoa, festas juninas, dia de finados e o natal). Há dois motivos para isso: facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Mas não sincretizaram apenas as datas. Muitas divindades pagãs foram sincretizadas com santos e mártires cristãos. Não é à toa que existem mais de 400 nomenclaturas para Virgem Maria, pois foi sincretizada com inúmeras divindades femininas nas religiões tradicionais europeias. Inclusive com a Deusa Mãe.

No Brasil a estratégia foi a mesma com os africanos escravizados. A igreja sincretizou seus santos com as divindades africanas, contudo não esperavam que a ideologia africana fosse xenofílica, ou seja, não esperavam que os africanos fossem agregar os santos católicos ao culto aos Orixás, perpetuando assim (e salvaguardando também) este culto até os dias de hoje. A isso Homi K. Bhabha chama de hibridismo: quando o colonizado se apodera dos elementos impostos pelo colonizador e os ressignifica de forma a manter seus saberes, cultos, etc.

Àse

Moa Fanfa disse...

Achei interessante tua explicação, Babá Hendrix, coisa que já ouvi diretamente de ti naquela reunião da Renafro aqui na minha cidade. Mas por qual motivo a história do sincretismo foi criada do modo que a maioria das pessoas "conhece" e por tanto tempo assim perpetuada?

Moa Fanfa disse...

Achei interessante tua explicação, Babá Hendrix, coisa que já ouvi diretamente de ti naquela reunião da Renafro aqui na minha cidade. Mas por qual motivo a história do sincretismo foi criada do modo que a maioria das pessoas "conhece" e por tanto tempo assim perpetuada?

Hendrix Silveira disse...

Olá meu amigo Moa. Me desculpe, pois não tinha visto tua mensagem até agora.

Com certeza a história do sincretismo foi propagada da forma que foi (como sendo uma ação vindo dos próprios negros escravizados) para proteger a Igreja Católica que foi uma das agentes mantenedoras da ideologia da escravidão.

Abraço

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