terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Liberdade Religiosa!


por Bàbá Hendrix de Orunmilá

Fiquei estupefato ao abrir o jornal [20/02/11, pág. 15, Tema para Debate] e me deparar com um texto que expõe completa ignorância sobre as religiões de matriz africana. Digo ignorância porque imagino que a autora não detenha conhecimento sobre os ritos afro-brasileiros. Do contrário seria má fé. Indiferentemente aos motivos que levaram a autora a escrever e publicar o texto, entendo que, por ser veiculado num jornal renomado como este, acaba por gerar opinião pública animosa com as religiões de matriz africana. Animosidade essa que está se tornando paradigma de nossa sociedade em pleno século XXI. Diante disso, devo elucidar vários pontos dos quais a própria autora teria se dado conta se investigasse os fatos e não apenas os utilizasse para legitimar sua posição intolerante.
O título já nos diz muito: “Liberdade Religiosa?”. O ponto de interrogação no final nos indica um questionamento sobre a moralidade dessa questão. “Devemos proteger a liberdade religiosa?” É o que o ponto de interrogação quer dizer. Ora, para que o Estado seja efetivamente laico, tem por obrigação proteger a liberdade religiosa. Quando a autora indaga sobre isto, imediatamente afirma que somente o que pensa é a verdade. E essa verdade, indubitavelmente, tem que valer para toda a população brasileira. Pensar em si e negar a diversidade, o outro, é intolerância. Mas vamos aos fatos.
O que a autora esqueceu de dizer é que o ex-deputado Manoel Maria é pastor da Igreja Evangélica Quadrangular e que seu projeto de lei que instituía o Código Estadual de Proteção aos Animais, que foi lançado em 1991, não passou na Assembleia Legislativa porque no inciso IV a redação proibia claramente o sacrifício de animais em cultos religiosos. Obviamente foi vetada pelos deputados que perceberam a inconstitucionalidade da lei que retornou ao gabinete do pastor. Pacientemente o mesmo esperou mais de 10 anos, até que a Assembleia se renovasse, para que pudesse reapresentar a lei, com um nova redação para o inciso IV que veda “não dar morte rápida e indolor a todo animal cujo extermínio seja necessário para consumo”. Os novos deputados não notaram o ardil e votaram unanimemente a favor da lei.
A religião afro-brasileira tem origem nas tradições rurais africanas que, como ainda acontece nas zonas rurais de nosso estado, a sociedade vive da agricultura e da criação. Por isso nossas oferendas são constituídas de cereais, verduras e animais. Na tradição africana os animais destinados ao consumo não podem ser abatidos sem que sejam primeiro sacralizados às divindades. Assim o seu consumo é um axioma teológico de comunhão do alimento impregnado de axé (o poder criador de Deus) em nosso corpo. Então a sacralização de animais tem a prerrogativa de alimentar o corpo e o espírito. Ao contrário do que a autora afirma, sacrifício não é tortura até a morte. Essa palavra vem do latim sacro oficium significando “trabalho sagrado”, mas constitui especificamente de oferecer como alimento a vida de animais às divindades, como ato de propiciação em favor do coletivo.
O adendo que promulga o livre exercício dos cultos afro-brasileiros foi inserido na lei 11.915/03 porque os deputados acreditaram que com isto assegurariam o que institui o artigo 5º da Carta Magna do país.
A religião afro-brasileira é constituída por sua maioria de negros empobrecidos. Muitas vezes os rituais imolatórios é o que garante a sustentabilidade de famílias numerosas. Não há a necessidade de doar os animais sacralizados para pessoas carentes porque essa religião é de pessoas carentes; não existem casos de abuso. Entendemos que métodos de anestesiamento e outros estipulados pela OMS se referem a instituições que matam milhares de animais por dia para a sustentação do sistema capitalista. As casas de religião não podem ser enquadradas como grandes abatedouros que possuem recursos financeiros para atender essas exigências. Qualquer método que encareça o culto tem a finalidade exclusiva de torná-lo impraticável. Então só posso imaginar que a intenção é esta mesmo.
Uma coisa que tem que ficar bem clara é que cães e gatos não são animais utilizáveis no culto. A insistência neste tipo de acusação só reflete o senso comum de que os afro-religiosos são bruxos que realizam feitiçarias. Da mesma forma a afirmação de que animais em estado de putrefação é oferecido às pessoas é mentiroso e tem por finalidade demonizar as nossas práticas ante o senso comum. Afirmar que fazemos “rituais macabros” tem a mesma finalidade. Isto é preconceito. Reprodução inflexiva e mentirosa.
Outra inflexão provocada pela autora é de que o sacrifício é realizado por acharmos que somos superiores aos animais. Isso não é verdade. A ideia de que o homem é superior aos animais foi disseminada pela bíblia (Gênesis 1: 27-29). Entretanto nossa religião não se embasa na bíblia e sim no Ifá. E Ifá diz que os homens e os animais foram criados por Oxalá a mando de Deus, não para que um domine o outro, mas para que co-existam em harmonia. Por isso os animais só podem servir de alimento se forem sacralizados, antes, às divindades.
Na Teologia do Sacrifício, os animais sacralizados são completamente utilizados: o sangue e algumas partes não comestíveis são entregues em oferenda aos Orixás e depois de um tempo são enterradas; as carnes e miúdos são preparados em pratos típicos para alimentação; outras partes não comestíveis são enterradas para alimentar a Terra; o couro dos quadrúpedes são utilizados para encourar os tambores. Não há desperdício.
Os ecologistas reclamam por que nós os denunciamos como preconceituosos e racistas, mas como podemos pensar diferente se nunca os vimos encher colunas de jornal atacando as grandes madeireiras, ou os rodeios, ou os abatedouros. É só nós que eles enfrentam.
A autora (que se afirma ecologista), em seu texto, nos acusa de várias coisas como: torturadores, criminosos, alienados, bruxos, macabros, poluidores, atrasados, de mal caráter, covardes, involuídos, antiquados e foras da lei. Isso não é preconceito?

Este texto foi enviado à Zero Hora para publicação, mas ainda não obtive resposta.

ENCONTRO DE INTELECTUAIS VIVENCIADORES (AS) DA RELIGIÃO AFROUMBANDISTA

 DE PORTO ALEGRE E REGIÃO METROPOLITANA




"É só por meio do envolvimento e do apoio aos outros que somos capazes de realizar uma individualidade verdadeira e nos erguer acima de nossa mera distintividade. "(Drucilla Cornell) 


Objetivos



 Reunir intelectuais vivenciadores (as) da Religião AfroUmbandista de Porto Alegre e Região Metropolitana para avaliar a conjuntura hodierna dos Cultos Afro-Gaúchos, bem como discutir a necessidade de posicionamento teórico de forma interdisciplinar das várias áreas do conhecimento dos adeptos (as) visando intervenções mais qualificada na sociedade abrangente. 



 Discorrer sobre o engajamento político e social dos (as) intelectuais vivenciadores (as) para desta forma contribuir para a alteração do racismo cultural religioso afro, bem como da intolerância religiosa que se abate contra as comunidades terreiras e seus adeptos.



 Dialogar acerca do papel das Comunidades terreiras e a relação das mesmas com a comunidade circundante e/ou do entorno, de forma a pensar estratégias políticas e pedagógicas que envolvam as populações locais nos seus segmentos etários e realização de ações sociais pertinentes. 


Data: 19 de março de 2011

Local: AFRICANAMENTE - Rua Protásio Alves, 68 – Rio Branco – Porto Alegre – RS. 

Horário: 08h00 às 14h00 

Informações e inscrições:
Rua Protásio Alves, 68 – Rio Branco
Fones (51) 3333- 9224 / 3354-7119 e/ou 9545-0231 
E-mail: teologiaafro@yahoo.com.br

Realização: 

EGBÉ ÒRUN ÀIYÉ /RS (Associação Afro-Brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras) 

ATRAI (Associação Nacional de Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana e Afro-Indígena) 

Apoio: 

AFRICANAMENTE 

COMUNIDADE TERREIRA ILÊ AXÉ YEMANJÁ OMI OLODO

Será fornecido certificado aos participantes

As Inscrições deverão ser feitas até o dia 10/03/2011 improrrogavelmente 





NGUZO, ÀSE 
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