terça-feira, 29 de abril de 2008

EVANGÉLICOS VERSUS BATUQUE

LEI DE EVANGÉLICOS TENTA DERRUBAR MAIS UMA VEZ OS BATUQUEIROS
Àgo ye ègbón!

Os evangélicos não perdem tempo. Desta vez foi na Câmara de vereadores de Porto Alegre, onde os vereadores Sebastião Melo (PMDB) e Beto Moesch (PPB) criaram o projeto de lei nº 91/04, que institui o programa de proteção aos animais domésticos. Segundo essa lei, uma de suas finalidades é evitar o sacrifício de animais domésticos, promovendo uma esterilização gratuita em massa.
Os vereadores que discursaram a favor da lei falavam em gatos e cães, e que a intenção era a do controle de zoonoses (doenças transmissíveis por animais a seres humanos) e da superpopulação, mas na verdade a lei não especifica quem são os animais domésticos, e isso inclui galináceos (galo, galinha), caprinos (bode, cabra, cabrito), ovinos (carneiro, ovelha) e suínos (porco, leitão). O método de esterilização é a castração, ou seja, mutilação dos testículos desses animais. Ora, todo o mundo sabe que essas são partes sagradas constituintes do que chamamos inhelas e que se forem retiradas os animais não poderão ser sacralizados. Mais um golpe sujo da bancada evangélica que tenta utilizar meios políticos para nos derrubar. A lei deveria ter sido votada desde a semana anterior e estava sendo acompanhada de perto pelas entidades de proteção aos animais. Só fiquei sabendo disso no próprio dia da votação (14 de dezembro) quando entrei em contato com o Baba Dyba de Yemanjá, vice-presidente do CEDRAB (Congregação em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras) e corri para a Câmara. Lá já estavam Pai Nilson de Oxum, Pai Áureo de Ogum, Mãe Vera de Iansã, Jorge Verardi e outros, porém em menor número que os representantes das ongs de proteção aos animais. Baba Dyba chegou mais tarde.
Em meio aos debates que antecederam a votação, o ver. Adeli Sell (PT) fez um discurso inflamado avisando aos berros que “esta casa (a câmara) não aceitará a mesma pressão que a Assembléia sofreu”, aludindo a nossa vitória contra a lei do dep. Manoel Maria. O impressionante é como os vereadores, na pressa em se manifestarem diante do público, falam coisas grotescas como “tratando bem dos animais, trataremos bem as pessoas”, não estabeleci ainda qual a relação, mas... Outro vereador chegou ao ridículo de homenagear sua cadela em plena plenária. Clênia Maranhão (PPS) defendeu o projeto e criticou as culturas que, segundo ela, maltratam os animais. Ela disse se referir à farra do boi em Santa Catarina, mas sabemos qual era a cultura a que ela se referia verdadeiramente. Nereu D’Ávila (PDT) foi amplamente a favor prevendo inclusive a aprovação do projeto, no seu discurso de mais de seis minutos só acrescentou quatro palavras de defesa da religião: “ressalvando a questão religiosa”.
O ver. Raul Carrion (PCdoB) apresentou e defendeu sua emenda que inclui o parágrafo único ao artigo 1º que defende nossa religião: “Não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias religiosas”, que foi defendida, também, por Maristela Maffei (PSB) e Manuela D’Ávila (PCdoB), que fez um discurso impressionante de defesa das religiões de matriz africana, aludindo aos preconceitos que vivenciamos.
Na votação, 21 vereadores votaram a favor da emenda e 6 votaram contra, entre eles Adeli Sell, Margarete Moraes (PT) e Haroldo de Souza (PMDB). Sebastião Melo foi a única abstinência.
Com a vitória, vários vereadores vieram cumprimentar os líderes africanistas presentes, entre eles Haroldo de Souza que estendeu sua mão para a Mãe Vera (Epaieio). Não havendo reciprocidade ficou furioso e passou a gritar batendo no peito: “Vai bater tambor pra mim! Vai bater tambor pra mim!”, o que indignou os presentes. Não se dando por satisfeito foi atrás da comitiva nos corredores aos berros, xingando e discutindo a ponto de os seguranças virem segurá-lo.
O episódio seria hilário se não fosse trágico. A expressão “vai bater tambor pra mim” tem nitidamente caráter pejorativo e discriminatório, já que a sociedade cristã associa “bater tambor”, macumba e batuque com feitiçaria, bruxaria, enfim, fazer o mal para os outros.
Apesar de tudo, os orixás obtiveram mais esta vitória contra a intolerância religiosa provocada pelos evangélicos que estão no poder. Até quando vamos ficar a mercê desses intransigentes?

Púpò àse gbogbo!

terça-feira, 22 de abril de 2008

NEOLIBERALISMO E SACERDOTE AFRICANISTA

Àgo ye ègbón!
O que mais se critica atualmente são os babalorixás e yalorixás que cobram por seus serviços. É de comum acordo entre os praticantes da religião africana, que seus sacerdotes não deveriam, cobrar uma consulta ou trabalho feito para alguém. Entretanto, quase não se tem notícia dos que não cobram.
Conversando com colegas do curso de História, na FAPA, ouço críticas parecidas e até controversas. Certa vez um colega contestou a cobrança, afinal a religião não era para ser comunitária? Noutro dia outra colega, demonstrando intransigência, me perguntou como pode uma pessoa pobre ajudar alguém, se não consegue nem mesmo ajudar a si própria? Só que pouco antes disso ela afirmava que “um pai-de-santo que cobra por seus serviços não merece credibilidade.” Em seguida ela disparou: são todos charlatães! Indagada sobre a generalização, ela corrige: “... uns 80 porcento são!”
Afinal um sacerdote deve ou não viver da religião? A resposta é sim! O sacerdócio é uma profissão como qualquer outra. Os padres vivem da igreja, assim como os pastores, rabinos e gurus. Não há argumentos convincentes para o não exercício do sacerdócio como uma forma de ganhar a vida.
A caridade nunca fez parte da ideologia dos sacerdotes africanos. A noção de cobrança e pagamento sempre existiu no fundamento da religião. A diferença está na espécie de pagamento. Os súditos iorubás sempre pagaram tributos ao seu rei. Este, por sua vez, devolvia esses tributos em forma de grandes banquetes públicos em homenagem aos orixás. Exatamente como fazemos hoje nas festas de batuque.
O sacerdote africanista representa, em Porto Alegre, a aglutinação desses dois cargos africanos: o sacerdote e o rei. Como sacerdote ele empregará os conhecimentos religiosos que possui na ajuda às pessoas. Como rei ele devolverá os “tributos” cobrados por esses serviços em forma de siré aos orixás.
O princípio espírita de caridade foi introduzido no pensamento de babalorixás e yalorixás através de seu envolvimento com a umbanda. Hoje contemplamos sacerdotes que praticam tanto o africanismo quanto a umbanda em seus terreiros, fazendo uma miscelânea de dogmas e conceitos que acabam por confundi-lo e aos seus seguidores.
O neoliberalismo é a ideologia que justifica e defende os princípios do capitalismo, baseado na propriedade privada, na liberdade de empresa, cujo objetivo fundamental é o lucro individual, constituindo-se em expressão máxima do individualismo. Essa doutrina foi introduzida no Brasil a partir do governo Collor e ganhou força no governo FHC. Os sacerdotes de hoje, inseridos nesse contexto econômico, buscam o que qualquer brasileiro tem como meta: o enriquecimento.
A busca pelo acúmulo de capital ou lucro é comum na sociedade brasileira, mas quando se trata de pais ou mães-de-santo a discussão se eleva às dimensões filosóficas. Ou seja, “todo o mundo pode ganhar dinheiro com o que faz, exceto os babalorixás e yalorixás”.
Vamos refletir um pouco: um dos conceitos básicos capitalistas é que a pessoa vende sua força de trabalho para alguém que paga por esse serviço. Se inserirmos esse conceito nas religiões africanas, verificamos que o sacerdote é quem vende sua força de trabalho e o cliente é o contratante que paga por esse serviço. Cada um sabe o valor que tem e cobra o que acha justo pelo seu trabalho. Da mesma forma o cliente pagará o que achar justo de acordo com aquilo que ele procura.
O sacerdote africanista não tem que ser caridoso, na acepção usual da palavra. O que se faz necessário nos dias de hoje é uma consciência social. Ele deve participar ativamente da promoção de uma sociedade igualitária, onde o princípio da coletividade e da verdadeira democracia seja a pauta. Deve se engajar na luta contra o racismo, a intolerância religiosa, a segregação, questões tão evidentes nas sociedades cujo sistema político e econômico é o neoliberalismo.


Púpò àse gbogbo!
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Artigo publicado no Jornal Aruanda. Edição 0A. Enebe Editora Ltda. Outubro/2005. Pág. 02

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO

O COMBATE AO RACISMO VERSUS A HISTÓRIA
ou
A HISTÓRIA VERSUS O RACISMO
Àgo ye ègbón!


Sou africanista. Isso significa que pratico uma religião cuja origem é africana. Nós, os africanistas, sempre fomos alvo das mais variadas discriminações. Constantemente somos perseguidos e rotulados por leigos, cientistas e, principalmente, religiosos de facções neopentecostais do cristianismo. Por esse motivo me dedico à pesquisa e estudo a cultura, religião e história da África. Foi o que me incentivou a ingressar no curso de História da FAPA.
Certa vez ouvi no programa Tele Curso 2000, na aula de História, que a cultura brasileira deve muito à presença dos africanos em nosso país. Que “os africanos arrancados de seu continente...” Epa! Espere aí! Podemos utilizar esta expressão se considerarmos que a obtenção de mão-de-obra escrava africana foi resultado de um comércio entre portugueses e os próprios africanos? Guerras intertribais já existiam na África e a escravidão era tão natural lá quanto era nos povos pré-colombianos ou na Ásia oriental, na antiga Roma, Grécia, Egito e nas civilizações mesopotâmicas – inclusive os Hebreus. A escravidão na África pré-européia “é um tabu” disse Gilberto Gil em um documentário sobre a vida do etnólogo francês Pierre Verger.
Ora, isso não é um tabu. É um fato histórico.
O professor baiano Jayro Pereira de Jesus (teólogo, pesquisador, africanista, negro e ávido combatente do racismo étnico no Brasil) afirmou, em um seminário ministrado em Porto Alegre, que é totalmente contra que se exponha a escravidão entre africanos para o grande público. Segundo ele isso serviria de argumento para fomentar ainda mais o racismo existente no país.
Mas pode a luta contra o racismo acontecer em detrimento da História? Não creio que devemos mascarar um fato histórico, mas, ao contrário situar este fato, as diferentes formas da escravidão na história do mundo, no seu contexto político, social e cultural. Para compreender o racismo europeu para com os africanos no período colonial, afinal não estamos aqui só para constatar o que existe, mas para compreender os processos, é imprescindível pensar no racismo como “ideologia” (superficialmente dizendo, quando você utiliza um discurso pretensamente científico para explorar o outro) e inserir este conceito no seu contexto histórico (acumulação primitiva de capital, colonialismo, teorias do determinismo geográfico, etc...).
Ou seja, o racismo no Brasil colonial era o discurso criado por pessoas que sustentavam as superioridades biológicas, culturais e morais da raça branca sobre a negra para, baseando-se nisso, justificar a utilização de mão-de-obra africana gratuita.
Como resultado deste processo o racismo ainda permanece entre nós, ainda que de forma mascarada e é exposto sempre que o branco se vê em situação de competição com o negro – lembremos do episódio entre a Marcela e a Solange no BBB4; a polêmica das cotas nas universidades; a negação de oportunidades para o crescimento social; etc.
Enfim acabamos por ter de fazer uma opção entre: se para combater o racismo devemos ter medo do fato histórico e ocultar a história ou se devemos tomar a própria história para empreendermos esta luta. Diante da questão, a resposta da Professora e Doutora em História Ana Inêz Klein em aula de Introdução aos Estudos Históricos é a que me dá a certeza do caminho que pretendo seguir: “Historiadores!”, disse-nos ela, “É, no mínimo, imperdoável para nós realizarmos uma análise desta questão que desconsidere a História!”.


Púpò àse gbogbo!
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Artigo publicado na Revista Bom Axé. Edição 16. Enebe. Dezembro/2005. Pág. 10
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