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Mostrando postagens de 2025

“Obrigação” no Batuque: Do Vínculo Linguístico ao Compromisso Existencial

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fiquei motivado a escrever este texto ao ler o artigo “A origem curiosa de ‘obrigado’: o que a palavra realmente quer dizer” , de  Larissa Carvalho e publicado no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2025, que traça a trajetória da palavra na língua portuguesa a partir de sua raiz no latim destacando a ideia original de comprometimento e vínculo moral entre as pessoas. No uso cotidiano em português, obrigado e suas variações de gênero -  obrigada, obrigados, obrigadas  - sinalizam gratidão, mas qualquer análise etimológica revela que esta forma lexical se originou de uma ideia muito mais densa: a de estar vinculado por um laço de compromisso e retribuição . Etimologicamente, obrigado deriva de obligare , verbo latino que significa “atar”, “ligar” ou “comprometer” - não apenas no sentido de cumprir um dever, mas na noção de constituir um laço com outrem. No português antigo, expressões como “fico obrigado” significavam literalmente assumir um compromisso de recipr...

Quando começou a Umbanda? Antes de Zélio… e também com Zélio.

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A pergunta sobre o início da Umbanda costuma surgir como se existissem apenas duas respostas possíveis: ou ela nasce com Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, ou ela já existia muito antes disso, na longa história das práticas afro-indígenas de cura, transe e relação com o sagrado. Para mim, essas narrativas não são dicotômicas, mas complementares. Uma fala da antiguidade da força; a outra fala da criação de uma forma religiosa organizada. A própria palavra “umbanda” nos leva para tempos que antecedem qualquer data do século XX. Estudos etimológicos mostram que o termo é de origem banto, sobretudo do quimbundo, com sentidos ligados à arte de curar e à ação do sacerdote curador. Em vez de designar uma religião, “umbanda” nomeava uma prática, um ofício, um conjunto de saberes rituais. Essa semântica banto atravessou o Atlântico, aparecendo na documentação colonial associada aos calundus, cultos de cura conduzidos por sacerdotes africanos que trabalhavam com folhas, água, objetos simbólico...

Àmàlà: alimento, memória e espiritualidade

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Uma das formas de servir o Àmàlà na Nigéria Hoje, 30 de setembro , celebramos Ṣàngó , divindade da justiça, do fogo e do trovão. É também o dia de lembrar o alimento que se tornou um de seus maiores símbolos: o àmàlà . Na Nigéria , entre o povo yorùbá, o àmàlà é um prato tradicional e cotidiano. Feito a partir de farinhas como a de inhame (yam), de mandioca (láfún) ou de banana-da-terra verde , ganha consistência elástica após ser misturado com água quente e acompanha sopas ricas em vegetais, quiabo e feijões, assim como carnes de todo tipo. Do ponto de vista nutricional , é um alimento de grande valor: fonte de carboidratos de lenta absorção, fibras que auxiliam na digestão, além de minerais como potássio, fósforo e ferro, e vitaminas do complexo B que fortalecem o corpo. É, portanto, um alimento  que nutre e sustenta - corpo e vida. No Brasil , o àmàlà ganhou novas formas e sentidos, tornando-se uma comida sagrada . No Candomblé , prepara-se com quiabos, cebola, azeite de ...

QUEM É A POMBAGIRA?

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Por Hendrix Silveira* Pombagira: origem, sincretismo e arquétipo feminino O termo Pombagira – também grafado como Pomba Gira, Pomba-Gira ou Pombogira – é resultado de uma corruptela de Mpambu Njila (ou Nzila) , divindade dos caminhos do povo Bakongo, de Angola e do Congo. Trata-se de uma entidade masculina que chegou ao Brasil durante o período da escravidão e foi preservada nos Candomblés de nação Angola/Congo, sobretudo na região do Rio de Janeiro. No contexto da escravidão, a Igreja Católica incentivou o sincretismo entre divindades africanas e santos católicos como estratégia de conversão, repetindo um método já utilizado na Europa medieval. No entanto, o que de fato ocorreu foi um hibridismo cultural (BHABHA, 2013): os santos católicos se associaram aos Orixás, criando novas formas de religiosidade. Com o surgimento da Umbanda no início do século XX, esse hibridismo permaneceu, mas trouxe consigo novos desafios. O primeiro deles foi a figura de Exu . No culto yorubá, Exu é funda...

O Apronte no Batuque: um caminho teológico e filosófico

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Nas tradições de matriz africana, alguns termos carregam em si não apenas um significado ritual, mas toda uma filosofia de vida. É o caso do apronte no Batuque. Mais do que uma preparação cerimonial, ele é compreendido pelos vivenciadores como o momento em que a pessoa se torna capaz de receber, viver e manifestar a força de seu orixá. Não se trata de “fazer” um Òrìṣà - pois o Òrìṣà já existe desde sempre -, mas de aprontar a pessoa para que sua relação com o divino se torne plena. O apronte é, assim, uma experiência de revelação: aquilo que já estava inscrito na ancestralidade e no destino se torna visível e operativo. Apronte na hierarquia do Batuque O Batuque possui uma organização que é fundamental para o funcionamento da tradição e a preservação de seus saberes. Na hierarquia, o estágio que sucede ao Abíyán é o apronte. Tornar-se pronto, vale destacar, não é uma escolha arbitrária, mas uma necessidade ditada por circunstâncias específicas. Há cinco motivos principais q...