sexta-feira, 8 de julho de 2011

ESTUDO DIRIGIDO DE TEXTOS


GOMES, Flávio dos Santos. Quilombos do Rio de Janeiro no século XIX. In: REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. pág. 263-285.

MOREIRA, Paulo Roberto Staudt. Etnicidade e liberdade: as nações africanas e suas práticas de alforria. In: Ciências & Letras. n. 44. pág. 167-186.

Este pequeno texto tem por finalidade relacionar os artigos de Gomes e Moreira com a conjuntura das resistências escravas do século XIX, para a disciplina de História do Brasil II, ministrada pela Profª Drª Véra Lucia Maciel Barroso.
Kátia Mattoso, Mário Maestri, Clóvis Moura, João José Reis e outros historiadores tem constantemente aludido à questão das resistências escravas. Conceituando “resistências escravas” como um processo em que os escravizados alijam-se do trabalho compulsório tomando medidas pensadas ou não, entendo que os artigos de Gomes e Moreira se encaixam perfeitamente no quadro exposto por Mattoso em “Ser escravo no Brasil” e Maestri em “O escravo gaúcho: resistência e trabalho”.
Para Mattoso a resistência era empregada pelos escravizados de duas formas em diferentes espaços. A resistência não-violenta era mais comum no campo, onde os escravizados fugiam e se aquilombavam. Essa perspectiva é exposta por Gomes em seu artigo ao trabalhar com a organização dos quilombos de negros fugidos da região de Iguaçu, no Rio de Janeiro.
Revolta dos negros em São Domingos (Haiti) comandados
por Toussaint L’ Ouverture, xilogravura, Yan Dargent, 1860
O autor fala de como estes quilombos interagiam com a sociedade estabelecendo até mesmo relações comerciais para a aquisição de mantimentos não produzidos no próprio quilombo. Trata de como os escravizados enfrentavam imensas dificuldades no desenvolvimento de suas atividades, motivos que os levaram a se rebelarem e se refugiarem em quilombos. O cólera e a Lei Euzébio de Queirós reduziram a demografia escravizada, além de encarecê-la. Com isto, a expropriação da força de trabalho negra aumentou consideravelmente. Muitos preferiram a fuga ao trabalho exaustivo.
O problema da intensividade do trabalho escravizado também é lembrado por Moreira ao relatar a situação vivenciada pelo escravizado Benedito, onde alega que o trabalho na charqueada mantinha “[...] um ritmo brutal [...].” (pág. 172)
Essa rotina extenuante teria provocado o que Maestri chamou de “desamor pelo trabalho”, o que efetivamente significa execução lenta do mesmo. Este fato teria irritado o capataz que ao ameaçar Benedito de castigo físico, acabou se tornando vítima de “justiçamento” – Benedito o assassinou.
O justiçamento é tratado por Mattoso como uma resistência violenta mais frequente na cidade, porém, neste caso, o cenário é a charqueada de Manoel dos Santos Cardoso de Meneses.
Moreira também nos traz um trabalho catalográfico das alforrias no período. O autor trata as alforrias como um dos “mecanismos de rompimento do cativeiro” (pág. 178). Mattoso alude a questão do agrupamento de negros escravizados, libertos ou livres em congregações ou irmandades religiosas também como forma de resistência. Um dos papéis (talvez o mais importante) dessas agremiações é a compra de cartas de alforria para negros escravizados, como nos mostra Liane Müller em sua dissertação de mestrado sobre a Irmandade do Rosário, em Porto Alegre.
Em fim, esses artigos nos são riquíssimos por nos subsidiar com dados concretos sobre as resistências escravas no século XIX. A análise desses dados nos proporciona um avanço historiográfico na História dos africanos e afrodescendentes deste país.

Referências adicionais
MATTOSO, Katia M. de Queirós. Ser escravo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2003.
MAESTRI, Mário. O escravo gaúcho: resistência e trabalho. São Paulo: UFRGS, 1993.
MÜLLER, Liane Susan. As contas do meu rosário são balas de artilharia: irmandade, jornal e sociedades negras em Porto Alegre 1889-1920. Porto Alegre, 1999. Dissertação de Mestrado. PPGH/PUCRS.

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