Precisamos resgatar a Teologia da Libertação para combater a Teologia do Domínio

Vivemos um tempo de regressão civilizatória travestida de fé. O que está em curso no Brasil e em outras partes do mundo não é apenas uma disputa teológica, mas um projeto político-religioso de poder. A chamada Teologia do Domínio atua como matriz ideológica desse processo, instrumentalizando o discurso cristão para legitimar autoritarismo, exclusão e controle social.

Trata-se de um projeto que busca reencenar a Idade Média, não em seus símbolos externos, mas em sua lógica profunda: a sacralização da autoridade, a criminalização da diferença, a submissão das consciências e a perseguição de todo pensamento crítico. Nessa lógica, Deus deixa de ser princípio ético e libertador para se tornar argumento de coerção.

É nesse cenário que a retomada da Teologia da Libertação se torna urgente.

A Teologia da Libertação nasce do chão da história, da experiência concreta dos pobres, das populações negras, indígenas, periféricas, das mulheres e dos corpos dissidentes. Ela parte de uma pergunta simples e radical: quem sofre? E afirma, sem rodeios, que toda teologia que não se compromete com a justiça social se converte em ideologia religiosa a serviço da opressão.

A Teologia do Domínio, ao contrário, não pergunta quem sofre — pergunta quem manda. Seu interesse não é libertar, mas governar. Não é anunciar vida, mas impor ordem moral. Não é cuidar do povo, mas controlar corpos, currículos, territórios e consciências.

Racismo religioso como política de poder

Um dos efeitos mais visíveis desse projeto é o racismo religioso institucionalizado. Terreiros invadidos, símbolos sagrados destruídos, lideranças do povo de terreiro ameaçadas, criminalizadas ou silenciadas. Segundo dados do Disque 100, as denúncias de intolerância religiosa cresceram de forma contínua na última década, tendo como principais vítimas as tradições de matriz africana.

Isso não ocorre por acaso. A Teologia do Domínio constrói uma hierarquia religiosa que demoniza saberes ancestrais, reafirma a lógica colonial e racial e legitima a violência simbólica e física contra o povo de terreiro. O que se chama de “guerra espiritual” é, na prática, continuação do colonialismo por outros meios.

Ataques à educação e perseguição ao pensamento crítico

Outro campo diretamente atingido é o da educação. Professores perseguidos, universidades públicas atacadas, cortes de verbas, deslegitimação da ciência e tentativas de censura pedagógica fazem parte do mesmo projeto. Iniciativas como o chamado Escola sem Partido não buscavam neutralidade, mas silenciamento, sobretudo de temas como racismo, gênero, desigualdade social e direitos humanos.

A Teologia do Domínio necessita de uma sociedade anti-intelectual, pois o pensamento crítico desmonta sua lógica de obediência. Onde há reflexão, há resistência. Onde há universidade viva, não há teocracia possível.

Retrocessos políticos já em curso

Os retrocessos não são hipotéticos - já aconteceram. Ataques ao Estado laico, tentativas de impor moral religiosa na legislação, desmonte de políticas públicas para populações vulneráveis, instrumentalização da fé em campanhas eleitorais e a naturalização do discurso de ódio como linguagem política legítima.

Esse projeto não busca apenas governar o presente, mas reformatar o futuro, moldando-o segundo uma lógica teocrática, patriarcal, racista e autoritária.

Retomar a Teologia da Libertação é resistir

Retomar a Teologia da Libertação não é nostalgia acadêmica. É ato político, ético e espiritual. É reafirmar que Deus não se alia a projetos de dominação, que fé não é instrumento de poder e que espiritualidade sem justiça social é idolatria.

Se a Teologia do Domínio tenta nos empurrar de volta à Idade Média, a Teologia da Libertação nos convoca a seguir adiante: com crítica, com responsabilidade histórica, com compromisso com a vida concreta e com os direitos dos povos historicamente violentados.

Não se trata apenas de disputar interpretações bíblicas. Trata-se de defender a democracia, o Estado laico e a dignidade humana.

Retomar a Teologia da Libertação é, hoje, um imperativo ético.

Àṣẹ o

Bàbá Hendrix Silveira, PhD

Bàbálórìṣà, professor, afroteólogo, escritor, conferencista, palestrante e comunicador.


📚 Referências fundamentais

  • ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR (ANDES-SN). Ataques à liberdade acadêmica e à universidade pública. Brasília, s.d. Disponível em: https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/ataques-a-liberdade-academica-e-a-universidade-publica1. Acesso em: 10 fev. 2026.

  • BOFF, Clodovis. Teologia e prática: teologia do político e suas mediações. São Paulo: Loyola, 1978.

  • BOFF, Leonardo. Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. Petrópolis: Vozes, 1972.

  • BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Intolerância religiosa cresce no Brasil. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/intolerancia-religiosa-cresce-no-brasil. Acesso em: 10 fev. 2026.

  • GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da libertação: perspectivas. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

  • OBSERVATÓRIO DA LAICIDADE DO ESTADO (OLE). Estado laico, democracia e liberdade religiosa. Niterói: UFF, s.d. Disponível em: http://ole.uff.br/. Acesso em: 10 fev. 2026.

  • SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

  • TAMAYO, Juan José. 
    Teologias do poder e teologias da libertação
    . São Paulo: Paulus, 2010.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

QUEM É KAMUKÁ?

BELZEBU É UM EXU?

Por que os batuqueiros não comem arroz com galinha?