Precisamos resgatar a Teologia da Libertação para combater a Teologia do Domínio
Trata-se de um projeto que busca reencenar a Idade Média, não em seus símbolos externos, mas em sua lógica profunda: a sacralização da autoridade, a criminalização da diferença, a submissão das consciências e a perseguição de todo pensamento crítico. Nessa lógica, Deus deixa de ser princípio ético e libertador para se tornar argumento de coerção.
É nesse cenário que a retomada da Teologia da Libertação se torna urgente.
A Teologia da Libertação nasce do chão da história, da experiência concreta dos pobres, das populações negras, indígenas, periféricas, das mulheres e dos corpos dissidentes. Ela parte de uma pergunta simples e radical: quem sofre? E afirma, sem rodeios, que toda teologia que não se compromete com a justiça social se converte em ideologia religiosa a serviço da opressão.
A Teologia do Domínio, ao contrário, não pergunta quem sofre — pergunta quem manda. Seu interesse não é libertar, mas governar. Não é anunciar vida, mas impor ordem moral. Não é cuidar do povo, mas controlar corpos, currículos, territórios e consciências.
Racismo religioso como política de poder
Um dos efeitos mais visíveis desse projeto é o racismo religioso institucionalizado. Terreiros invadidos, símbolos sagrados destruídos, lideranças do povo de terreiro ameaçadas, criminalizadas ou silenciadas. Segundo dados do Disque 100, as denúncias de intolerância religiosa cresceram de forma contínua na última década, tendo como principais vítimas as tradições de matriz africana.
Ataques à educação e perseguição ao pensamento crítico
Outro campo diretamente atingido é o da educação. Professores perseguidos, universidades públicas atacadas, cortes de verbas, deslegitimação da ciência e tentativas de censura pedagógica fazem parte do mesmo projeto. Iniciativas como o chamado Escola sem Partido não buscavam neutralidade, mas silenciamento, sobretudo de temas como racismo, gênero, desigualdade social e direitos humanos.
Retrocessos políticos já em curso
Os retrocessos não são hipotéticos - já aconteceram. Ataques ao Estado laico, tentativas de impor moral religiosa na legislação, desmonte de políticas públicas para populações vulneráveis, instrumentalização da fé em campanhas eleitorais e a naturalização do discurso de ódio como linguagem política legítima.
Retomar a Teologia da Libertação é resistir
Retomar a Teologia da Libertação não é nostalgia acadêmica. É ato político, ético e espiritual. É reafirmar que Deus não se alia a projetos de dominação, que fé não é instrumento de poder e que espiritualidade sem justiça social é idolatria.
Se a Teologia do Domínio tenta nos empurrar de volta à Idade Média, a Teologia da Libertação nos convoca a seguir adiante: com crítica, com responsabilidade histórica, com compromisso com a vida concreta e com os direitos dos povos historicamente violentados.
Retomar a Teologia da Libertação é, hoje, um imperativo ético.
Àṣẹ o
Bàbá Hendrix Silveira, PhD
Bàbálórìṣà, professor, afroteólogo, escritor, conferencista, palestrante e comunicador.
📚 Referências fundamentais
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BOFF, Leonardo. Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. Petrópolis: Vozes, 1972.
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TAMAYO, Juan José.
Teologias do poder e teologias da libertação. São Paulo: Paulus, 2010.

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