Hoje, 23 de abril, é dia de saudar Ogum
Ogum é o senhor do ferro, da tecnologia, dos caminhos abertos com luta e coragem. É ele quem vai à frente, que enfrenta o que precisa ser enfrentado, que transforma obstáculo em passagem. Na cosmopercepção africana, Ogum não é apenas guerra, é também trabalho, disciplina, estratégia e construção de futuro.
Mas hoje também é dia de reconhecer como essa força se manifesta no Brasil.Na Umbanda, Ogum caminha
através dos seus caboclos: Ogum Sete Ondas (um dos caboclos que me acompanha),
Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda, Ogum de Lei, Ogum Rompe Mato... E, para mim,
essa não é apenas uma referência simbólica, pois ecoa forte na minha
ancestralidade. Minha tia-bisavó, Mãe Augusta que era Cacique de Umbanda, teve
no Caboclo Rompe Mato o seu guia espiritual. Foi sob essa força que fundou seu
terreiro na Lomba da Tamanca, em Porto Alegre, nos anos 1950, e conduziu sua
caminhada, abrindo caminhos para tantos outros que vieram depois.
Rompe Mato é uma entidade espiritual compreendida como um caboclo da linha de Ogum, embora mantenha vínculos simbólicos com a linha de Oxóssi por sua atuação nas matas. O nome “Rompe Mato” expressa sua identidade: trata-se daquele que abre caminhos onde não há passagem, que avança pela mata fechada com coragem e estratégia.
Desconheço registros históricos de tal espírito quando vivo, mas pela tradição oral e ritual, como é característico da Umbanda, descobrimos sobre ele quando conta suas histórias e nos pontos cantados onde aparece como um caboclo guerreiro, que articula forças da mata com o campo de batalha espiritual. O ponto do caboclo de minha tia-bisavó é assim:
Quem cruza a espada com a lança
Lá no reino da Jurema
Ele é Rompe Mato, Ogum
É Rompe Mato e também é seu
Tira-Teima
Portanto, Rompe Mato é um caboclo que sintetiza força guerreira e domínio da mata, atuando como guia, protetor e abridor de caminhos. É um caboclo da linha de Ogum com diálogo simbólico com a linha das matas. Deste modo, e em consonância com a forma como a Umbanda organiza suas entidades: não de forma rígida, mas a partir de campos de força que se atravessam, onde um caboclo pode ser de Ogum e, ao mesmo tempo, operar na mata, sem contradição, mas por complementaridade.
Num país que tantas vezes tenta fechar caminhos para o povo de terreiro, celebrar Ogum hoje é também afirmar: nós seguimos abrindo caminhos.
Que Ogum nos dê coragem para enfrentar as batalhas do nosso tempo.
Que nos dê firmeza para não
recuar diante das injustiças.
E que Rompe Mato vá à
frente, rompendo tudo aquilo que tenta nos impedir de viver com dignidade.
Ogunhê! ⚔️🌿
Àṣẹ o
Bàbá Hendrix Silveira, PhD
Bàbálórìṣà
da Comunidade Tradicional de Terreiro Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre. Professor,
Afroteólogo, escritor, conferencista, palestrante e comunicador.
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