A DEPUTADA E O TERREIRO
No último final de semana, estive na casa de meu padrinho, Bàbá Diba de Iyemọnjá, no encerramento do Festival R’Gongo: Mostra de Cultura Negra na Vila São José (Porto alegre/RS) e Festa em Homenagem ao Vovô Cipriano de Angola.. Em meio ao cheiro de ervas frescas, da fumaça das velas e do calor humano que só um terreiro sabe produzir, uma cena me chamou profundamente a atenção.
Entre pessoas circulando, pontos cantados e panelas trabalhando sem descanso, uma filha da corrente corria de um lado para o outro. De pés descalços, atravessava a cozinha carregando canecas com bebidas quentes, pratos de feijão mexido, aipim, linguiça com farofa, bolo de fubá. Entrava e saía apressada para atender os pretos e pretas velhas com o mesmo cuidado e dedicação de qualquer outra irmã de santo.
Nada a diferenciava das demais, exceto talvez as longas tranças vermelhas.
Aquela mulher era a deputada federal Daiana Santos.
Talvez essa seja uma das maiores lições que um terreiro pode oferecer ao mundo contemporâneo.
Vivemos numa sociedade profundamente marcada por hierarquias econômicas, títulos acadêmicos, cargos políticos e distinções sociais. Do lado de fora, há pessoas que são chamadas de doutoras, excelências, empresários bem-sucedidos, parlamentares ou autoridades. Contudo, dentro do terreiro, existe outra lógica.
No terreiro, todos entram descalços.
E esse gesto aparentemente simples possui uma dimensão filosófica e espiritual profunda. O chão sagrado dissolve as máscaras sociais. O cargo não gira santo. O dinheiro não produz ancestralidade. O poder político não compra senioridade ritual.
Ali, a trabalhadora doméstica, a professora universitária, o empresário milionário, a servidora pública, o motorista de aplicativo e até membros eleitos do Congresso Nacional se inserem numa complexa hierarquia litúrgica e comunitária que relativiza completamente os lugares sociais do mundo externo.
O terreiro reorganiza o mundo.
Nele, aprende-se que servir é maior do que mandar.
Por isso a imagem de Daiana Santos correndo pela cozinha me pareceu tão simbólica. Porque ela sintetiza algo raro na política contemporânea: coerência entre discurso, prática e consciência de pertencimento.
Daiana sabe exatamente qual é o seu lugar dentro do terreiro.
E isso não é algo pequeno.
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| Eu, a antropóloga Drª Luana Oyagbemi e a Congressista Daiana Santos na cozinha da Comunidade Terreiro Ilé Àṣẹ Iyemọnjá Omi Olodò |
Ela não buscava centralidade. Não performava simplicidade para fotografias. Não parecia alguém tentando produzir uma imagem popular artificial.
Ela simplesmente servia.
E talvez justamente por compreender a importância do coletivo, da hierarquia ritual e do cuidado comunitário, sua atuação política também dialogue tanto com as pautas populares, com os direitos humanos e com os grupos historicamente marginalizados.
Existe uma diferença enorme entre quem fala sobre o povo e quem efetivamente sabe viver entre o povo.
Daiana não estava ali como autoridade institucional buscando visibilidade. Não estava sendo paparicada. Não ocupava lugar privilegiado. Estava trabalhando.
E talvez seja justamente por isso que sua trajetória política tenha tanta importância.
Daiana Santos é deputada federal pelo Rio Grande do Sul, filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Sanitarista formada pela UFRGS, educadora social e promotora da saúde da população negra, construiu sua trajetória junto às populações vulnerabilizadas, especialmente mulheres em situação de violência, pessoas em situação de rua e comunidades periféricas. Foi vereadora em Porto Alegre e integra uma geração de mulheres negras que vêm transformando a política brasileira ao ocupar espaços historicamente negados ao povo negro.
Sua atuação parlamentar tem se destacado especialmente na defesa dos direitos humanos, da igualdade racial, da saúde pública, das mulheres, da população LGBTQIAPN+ e das periferias. Em 2024, tornou-se a primeira parlamentar LGBT a presidir a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, um marco importante na história política brasileira.
Mas, para além dos cargos e títulos, o que mais me marcou naquele dia foi perceber que o terreiro ainda preserva algo que a sociedade moderna perdeu: a capacidade de humanizar as pessoas.
No mundo de fora, políticos frequentemente são transformados em personagens distantes, quase inacessíveis. No terreiro, porém, todos continuam sendo filhos e filhas de santo. Continuam aprendendo humildade através do trabalho comunitário, do cuidado com os mais velhos e do serviço coletivo.
E isso não diminui ninguém.
Ao contrário.
Talvez seja justamente isso que engrandeça certas lideranças.
Há algo profundamente africano nessa lógica comunitária. Nas tradições de matriz africana, o valor de uma pessoa não se mede apenas pelo lugar que ocupa, mas pela forma como ela se relaciona com a coletividade. O cuidado, o serviço e o compromisso comunitário possuem centralidade ética.
Enquanto muitos enxergam o poder como privilégio, o terreiro ensina que liderança também significa responsabilidade.
Por isso a imagem de uma deputada federal de pés descalços, correndo pela cozinha carregada de pratos e bebidas para servir os pretos e pretas velhas, possui uma força simbólica gigantesca.
Porque ela nos lembra que ainda existem espaços onde o humano vale mais do que o status.
E talvez seja exatamente disso que nossa sociedade mais precise reaprender.
Àṣẹ o
Bàbá Hendrix Silveira, PhD
Bàbálórìṣà da Comunidade Tradicional de Terreiro Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre. Professor, Afroteólogo, escritor, conferencista, palestrante e comunicador.
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