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A RODA DO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Dia desses eu e minha esposa, Patricia de Oyá, estávamos assistindo no Youtube um vídeo de uma festa à divindade Oyá no Nagô, uma das tradições de matriz africana que se estrutura em Pernambuco,¹ e como nos parece vimos muitas semelhanças com o Batuque. Exceto num ponto. Todas as tradições de matriz africana possuem um momento litúrgico em que se dança em roda, mas percebemos que no Batuque ela tem uma importância muito maior que em outras tradições. No Candomblé há uma separação entre o momento em que os iniciados dançam, a roda, e o momento em que os Orixás manifestados dançam. Nesta sequência a roda é desfeita para dar lugar aos Orixás dançarem. No Tambor de Mina do Maranhão também há roda, mas esta não se desfaz com a manifestação dos Orixás. O mesmo acontece no Nagô e no Xambá de Pernambuco e também no Batuque do RS. Mas como disse, ao observarmos a roda no Nagô pelo Youtube percebemos que ela se desfaz muito facilmente, fica com "buracos", seguidam...

O USO DA ROUPA BRANCA NO BATUQUE

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Por Hendrix Silveira* Tenho percebido em serões e em festas de Batuque que há um certo desconhecimento a respeito das roupas dessa tradição, sobretudo no tocante a sua cor. A cor nas tradições africanas não são meramente parte de questões estética, mas também e principalmente de FUNDAMENTO. Mas creio que antes de falar sobre isso, preciso explicar o que é fundamento. Isto sempre foi motivo de indagações: qual a diferença entre fundamento, costume e tradição? Embora as palavras pareçam guardar um mesmo sentido - e é justamente isso que causa tanta confusão - não possuem a mesma função no tocante as tradições de matriz africana. As tradições são inventadas e, segundo Hobsbawm (2012), é "um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado." Geralmen...

SOBRE LUGAR DE FALA

Por Hendrix Silveira* Já faz algum tempo que me pergunto: qual é o meu lugar de fala? A conclusão a que cheguei estudando sobre o tema é a de que todo mundo fala de um lugar. Me valendo das categorias desenvolvidas por Juana Elbein dos Santos, penso que este lugar pode ser desde dentro ou desde fora. O desde dentro requer experiência de vida. O desde fora requer estudos profundos. O desde fora deve dialogar com o desde dentro para se ter uma apreensão total do tema. O desde dentro deve dialogar com o desde fora  para racionalizar sua experiência. Tenho desconfiado da acusação de que há um conflito "emoção versus razão" apontado pelos que interpretam Senghor dessa forma. Acredito realmente, com base na cosmopercepção africana de Oyewumi, que o pensamento afrocentrado desenvolvido por Asante, se vale de todos os sentidos humanos, incluído aí a razão, em igual proporção. Com base em Platão tenho dito que opinião não é e nunca será conhecimento. O conhecimento vem do estudo profu...

Por que os batuqueiros não comem arroz com galinha?

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por Hendrix Silveira* Uma das coisas mais incompreendidas na tradição do Batuque são os ewó , ou seja, as interdições. Existem muitas interdições que precisam ser respeitadas pelos iniciados. Temos interdições quanto a certas práticas, interdições de certos horários e interdições alimentares. Estas interdições são importantes para a garantia da plenitude da relação com o sagrado de quem vivencia uma tradição de matriz africana. As mais significativas são aquelas que impõem restrições durante o "resguardo", período de abstinências que se segue às obrigações realizadas no processo iniciático. Neste período, para o Batuque, não se pode beber bebidas alcoólicas, fazer sexo e entrar em ambientes que tenham morte e doença como cemitérios, hospitais e presídios. No tocante a nutrição, até mesmo comer algumas frutas específicas ou café preto, por exemplo, podem ser restritos. Estes interditos são específicos para o período de resguardo e visam cobrir um período de cuidados com nossa ...

Evolução do Exu (e Pombagira)

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Se tem uma palavra que eu odeio é essa: evolução . A odeio porque é usada de forma indiscriminada para falar de mudanças, se supõe, para algo melhor. A culpa é de Darwin... Charles Darwin teoriza para nós que organismos melhores adaptados ao meio em que vivem tendem a se perpetuar, enquanto que outros sucumbem, extinguindo-se. Muitas vezes uma mutação na estrutura genética de uma espécie faz surgir outra que melhor se adapta às condições ambientais. Na esteira de seu sucesso teórico surgiram outras teorias como a da superioridade de certos grupos humanos sobre outros (darwinismo social), classificação das raças humanas (racismo) e, claro, a evolução espiritual kardecista. Todos aplicaram a teoria de Darwin ao seu próprio campo idiossincrático, com a intenção narcisista de se autoproclamar modelo para os demais, que ainda não atingiram seu "grau de evolução", logo, são inferiores. Mas a teoria de Darwin fala sobre a evolução das espécies e não da de seres da mesma espécie, de ...

Tradições de matriz africana e sexo

Este artigo é resultado de nossa pesquisa no doutorado que apresenta questões pouco tratadas na literatura acadêmica a respeito do sexo nas tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé. Oferecemos uma análise afroteológica do ritual de Borí no Batuque; analisamos certos aspectos dos Òrìṣà e ofereceremos uma interpretação afroteológica ao tema; trataremos das relações interpessoais como atos sexuais e relações românticas entre os vivenciadores e tratamos brevemente de elementos da sexualidade e identidade de gênero. Como método utilizamos a exunêutica. Leia o artigo completo clicando aqui .  Ao citar este texto use a seguinte referência: SILVEIRA, Hendrix. Tradições de matriz africana e sexo: reflexões afroteológicas. Revista Periódicus , Salvador, v. 1, n. 14, p. 73-90, nov. 2020. Semestral. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/37289. Acesso em: ...

Afroteontologia: estudo sobre Deus segundo a cosmopercepção das tradições de matriz africana

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O presente artigo é fruto de nossos estudos sobre a afroteontologia, ou seja, estudo sobre Deus de acordo com a teologia das tradições de matriz africana, que temos chamado de afroteologia. Utilizamos como método a exunêutica, ou seja, nos valemos de uma epistemologia afrocentrada com interpretação que contempla a vivência nas comunidades tradicionais de terreiro. Este trabalho visa contribuir na construção de uma sistematização do conhecimento afroteológico no intuito de contribuir para a formação dos vivenciadores, subsidiando-os no combate ao racismo religioso, assim como fornecer informações para professores do Ensino Religioso e também para pesquisadores da área de Ciências da Religião e Teologia. Pudemos aqui construir uma visão de Deus nas tradições de matriz africana a partir de um estudo de fontes africanas e afro-brasileiras, além da tradição oral, principal meio de transmissão do conhecimento pelas comunidades tradicionais de terreiro. Leia o artigo completo clicando aqui ....