Postagens

O LUTO NO BATUQUE

Imagem
 Por Hendrix Silveira* Muitas pessoas têm me perguntado sobre o luto, o tempo, as condições, o que pode e o que não pode ser feito, quem determina ou coisas desse tipo. As pessoas me perguntam não porque sou o "sabe-tudo" ou qualquer coisa neste sentido. As pessoas me perguntam porque confiam na minha avaliação já que possuo vivência religiosa desde o nascimento e estudo reflexivo sobre todos os temas de nossa fé. Aprendi muito com meu babalorixá (que tem mais de 40 anos de religião), com meu padrinho (que é de outra nação e igualmente tem mais de 40 anos de religião), com minha avó (que morreu com mais de 60 anos de religião) entre outros babás e iyás que tive a oportunidade de escutar com atenção e do qual, humildemente, apresento aqui as respostas mais comuns. O que é o luto? O luto é um período em que o batuqueiro deve ficar de resguardo de obrigações para os Orixás por períodos variados. Existem dois tipos de luto: o luto ritual e o luto moral. O luto ritual é aquele obr...

PÓS-VIDA NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFRICANA

Imagem
Por Hendrix Silveira* Numa postagem despretensiosa que fiz no Facebook questionei algumas falas que o povo de terreiro costuma dizer em momento de luto. Ocorre que existe o que chamei de Ancestralogia que é a parte da Afroteologia que estuda o pós-vida em nossa tradição. Ela se equivale à soteriologia cristã e está vinculada à escatologia, ou o nosso destino último. O motivador dessa postagem é o fato de nosso povo ter falas equivocadas por puro desconhecimento sobre o que acontece conosco após a morte. na postagem do Facebook digo quais são essas frases, mas não as explico e suscitado pelos leitores resolvi explicá-las então. a) Chamar pessoas não iniciadas de ancestral apenas porque faleceram - É muito comum em falas políticas, sobretudo dos movimentos negros, usarem a palavra "ancestral" para se referir aos grandes guerreiros da luta antirracista. Os estudos sobre a cosmopercepção africana na filosofia afrocentrada ou afrorreferenciada acabam por gerar a compreensão errône...

BELZEBU É UM EXU?

Imagem
Por Hendrix Silveira* A polêmica atual é sobre uma sacerdotisa da quimbanda que colocou uma imagem de Belzebu no alto do muro de seu templo, causando estranheza na vizinhança a ponto de aparecer em telejornais do Brasil todo. Isso incomodou muita gente. Os cristãos repreendem por acreditar que se trata do próprio diabo. Os  afrorreligiosos repreendem por entender que essa exposição reforça a imagem negativa e satânica que a sociedade branca e cristianocentrada já tem sobre as tradições de matriz africana  Creio que este episódio mereça uma análise mais profunda. Primeiro precisamos entender a história por trás dessa imagem e quem ela realmente representa. Essa imagem é a representação de Baphomet e não de Belzebu. Não está bem claro quem é Baphomet, se uma divindade de povos antigos, um demônio ou apenas uma representação simbólica de uma ideia, como um hieróglifo egípcio. Aparentemente, ele figurava como uma símbolo em rituais maçônicos. A maçonaria é uma sociedade masculina ...

AFROTEOLOGIA DA KIMBANDA

Imagem
Por Hendrix Silveira* Este é um dos temas que penso há séculos (kkkk), mas que nunca expus ou me debrucei. Este período de luto anual pelo qual minha família religiosa está passando tem me (re)aproximado das festas exubandeiras o que tem proporcionado muitas reflexões a respeito de uma teologia que contemple esta falange espiritual. Era comum se dizer nos anos 1990 quando me iniciei na Umbanda de minha avó, Mãe Marute de Oxum, que os exus e pombagiras eram espíritos com carmas a resgatar; espíritos trevosos; espíritos iluminados; enfim, uma série de definições que tentavam explicar a sua existência e porque se comportavam de maneira "mundana" ao invés da altivez moral que Kardec sempre apregoou. A ideia de que são espíritos com carmas a resgatar de vidas passadas não faz qualquer sentido para mim. A menos que se deixe de acreditar em reencarnação, pois os estudiosos do espiritismo afirmam que é na reencarnação que acontece o resgate cármico, o pagamento de dívidas morais acum...

DESFAZENDO EQUÍVOCOS SOBRE O ARISUN DO BATUQUE

Imagem
Por Hendrix Silveira* Arisun, Eresun, Erisun são palavras que nomeiam o ritual fúnebre no Batuque. Semelhante ao Axexê no Candomblé Ketu, Sirrum no Candomblé Jeje, Mukondo no Candomblé Angola, Tambor de Choro no Tambor de Mina do Maranhão, o objetivo deste ritual é o mesmo. É possível que o termo derive de Arosun - ara (corpo) + osun (sono) - significando "corpo que dorme", pois o "sono é primo da morte". Mas também pode derivar de Aisun , vigília noturna sem dormir, prática comum nos ritos funerários do passado. Tenho lido nas redes sociais as pessoas dizendo que o Arisun é uma homenagem, falando de merecimento para certas pessoas: "fulano merecia que lhe fizessem o ritual"; "foram feitas grandes homenagens ao falecido". Não pode haver equívoco maior que essas interpretações. O Arisun não é apenas uma homenagem ao morto. É um ritual de encaminhamento da alma do morto para o Orun com a intenção de que se ancestralize, ou seja, de que sua alma enc...

O BEM, O MAL E O JUSTO NAS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFFRICANA

Imagem
Por Hendrix Silveira*  Perguntaram para uma filha de santo de nossa comunidade se nós fazemos o mal. Curiosamente esta é uma de três das constantes perguntas que me fazem em minhas palestras.¹ Na minha tese de doutorado - que em breve se tornará livro ( Afroteologia: teologia das tradições de matriz africana ) - falo sobre a questão do mal na afroteologia. Por isso não tratarei das questões mais complexas, filosóficas e teológicas. Quero falar sobre nossas práticas cotidianas com base nessas questões. Já foi amplamente divulgado, por mim mesmo e outros pensadores insiders de nossa tradição, que as tradições de matriz africana como o Batuque e o Candomblé não são tradições maniqueístas. Essas tradições se pautam pela existência do bem E do mal em tudo. Seja nos objetos inanimados, nos minerais, nos animais, nas pessoas e até mesmo nos Orixás, o bem o e mal são forças dicotômicas, mas não necessariamente antagônicas. Algumas vezes até dialogam entre si. Então a resposta à pergunta ...

A RODA DO BATUQUE

Imagem
Por Hendrix Silveira* Dia desses eu e minha esposa, Patricia de Oyá, estávamos assistindo no Youtube um vídeo de uma festa à divindade Oyá no Nagô, uma das tradições de matriz africana que se estrutura em Pernambuco,¹ e como nos parece vimos muitas semelhanças com o Batuque. Exceto num ponto. Todas as tradições de matriz africana possuem um momento litúrgico em que se dança em roda, mas percebemos que no Batuque ela tem uma importância muito maior que em outras tradições. No Candomblé há uma separação entre o momento em que os iniciados dançam, a roda, e o momento em que os Orixás manifestados dançam. Nesta sequência a roda é desfeita para dar lugar aos Orixás dançarem. No Tambor de Mina do Maranhão também há roda, mas esta não se desfaz com a manifestação dos Orixás. O mesmo acontece no Nagô e no Xambá de Pernambuco e também no Batuque do RS. Mas como disse, ao observarmos a roda no Nagô pelo Youtube percebemos que ela se desfaz muito facilmente, fica com "buracos", seguidam...